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Diagnóstico
Diferencial nas Proteinúrias
Marcus Gomes
Bastos, MD, PhD
Chefe do Dept.
de Clínica Médica Univ. Federal de Juiz de Fora, MG (UFJF)
Diretor da Divisão de
Nefrologia-Hospital Universitário -UFJF
Uma forma freqüente de
apresentação das doenças renais é através
da proteinúria associada ou não a hematúria ou seja
a Síndrome de Anormalidades Urinárias. O determinação
da proteinúria ficou enormemente facilitada com o emprego das fitas
de imersão urinária. Estas fitas deveriam, assim, ser utilizadas
não só no rastreamento das nefropatias mas também
na avaliação clínica de rotina.
A proteinúria assintomática
não é um achado tão incomum nas avaliações
médicas de admissão para o trabalho e em escolas e universidades,
e também quando da realização de seguro de vida. A
prevalência relatada de proteinúria em amostras urinárias
isoladas é de 2 a 11% e está relacionada ao método
de detecção utilizado e a faixa etária dos indivíduos
avaliados. Já a prevalência da proteinúria detectada
em mais de uma amostra urinária é menor e é relatada
ser de 1-5%. Embora a proteinúria possa indicar a presença
de doença renal subjacente importante, deveríamos estar atentos
para a possibilidade da chamada proteinúria funcional (transitória
e a ortostática), condição sem relevância clínica.
Mecanismos
de Proteinúria
Normalmente, a proteinúria
observada em indivíduos normais resulta de três mecanismos:
filtração glomerular, secreção tubular e não
reabsorção tubular. Contudo, a principal mecanismo que impede
a perda de proteínas plasmáticas na urina é a barreira
de filtração glomerular, uma estrutura formada pelo endotélio
do capilar glomerular, a membrana basal e o epitélio visceral da
cápsula de Bowman ou podócitos. A barreira de filtração
exerce dois tipos de restrição à passagem das proteínas
plasmáticas: restrição dependente do tamanho molecular
e a outra dependente da carga da molécula proteica. Assim, moléculas
de grande peso molecular, por exemplo albumina (PM=69.000) são mais
dificilmente filtradas do que as de menor tamanho, por exemplo globulinas
(PM=25.000). Por ser eletronegativa, a barreira de filtração
dificulta a passagem de moléculas eletronegativas, com por exemplo
a albumina e impõe pouca resistência às moléculas
eletropositivas ou eletroneutras, tais com as globulinas. Mais recentemente,
tem-se observado que alterações da hemodinâmica glomerular
também podem influenciar na perda urinária de proteínas.
Qualquer condição clínica que determine hipertensão
sistêmica ou intraglomerular (como por exemplo, nefropatia diabética)
pode causar proteinúria através da elevação
da pressão de ultrafiltração transcapilar. No interior
dos túbulos, as proteínas filtradas são reabsorvidas
pelas células tubulares, o que limita a perda proteica. Finalmente,
a proteinúria pode decorrer por secreção tubular.
O resultado final destes três processos é uma perda proteica
diária de até 180 mg, sendo 1/3 de albumina.
Tipos
de Proteinúria
As proteinúrias podem
ser de três tipos:
1. Glomerulares;
2. Tubulares e
3. Extravasamento.
-
1. Proteinúria
Glomerular:
A principal proteína
observada na urina de pacientes com doença glomerular é a
albumina. A presença de albuminúria reflete uma lesão
na barreira de filtração seja através de alterações
estruturais e/ou da perda da eletronegatividade e/ou por elevação
da pressão de ultrafiltração transcapilar. Em determinadas
condições clínicas, a determinação do
índice de seletividade (IS) da proteinúria através
da divisão do “clearance” de IgG pelo “clearance” de transferrina
apresenta grande importância clínica. Uma proteinúria
é dita seletiva quando o IS for menor 0,2 e não seletiva
quando o IS for maior 0,2. Por exemplo, em pacientes com nefropatia por
depósito IgA a presença de proteinúria não
seletiva se associa com maior incidência de glomerulosclerose, menor
filtração glomerular, maior freqüência de hipertensão
e perda progressiva da função renal. Uma outra observação
de interesse clínico é a constatação de que
pacientes com síndrome nefrótico e proteinúria seletiva
são os que mais freqüentemente respondem ao tratamento com
corticosteróide e ciclofosfamida, diferentemente daqueles com proteinúria
não seletiva.
-
2. Proteinúria
tubular:
é observada quando
na presença de lesão tubular não ocorrer a reabsorção
das proteínas normalmente filtradas ( p.ex. alfa2 e beta2 microglobulinas,
imunoglobulinas de cadeias leves, aminoácidos, retinol binding protein)
ou houver secreção tubular, como observada em algumas doenças
inflamatórias túbulo-intersticiais.
-
3. Proteinúria
por extravasamento:
Nesta situação
tanto a barreira de filtração quanto o túbulo renal
estão intactos e a proteinúria deve-se a presença
de quantidade exagerada de proteínas de baixo peso molecular (<40.000
Daltons) presentes no plasma. Como conseqüência, as proteínas
são facilmente filtradas e sobrecarregam a capacidade tubular de
reabsorção, resultando em proteinúria. Exemplos desta
modalidade de proteinúria é a de Bence-Jones, associada ao
mieloma múltiplo, e a mioglobinúria.
Diagnóstico
das Proteinúrias
Diante de uma suspeita de
proteinúria, deveríamos inicialmente determinar se ela é
persistente ou funcional. Uma proteinúria é dita persistente
quando é determinada em pelo menos duas amostras urinárias
num período de 30 dias e freqüentemente se associa com uma
patologia renal subjacente. As proteinúrias funcionais podem ser
transitória ou ortostática, sendo detectadas em amostras
urinárias ocasionais ou quando o indivíduo está na
posição ortostática. O seu significado clínico
é duvidoso.
O tipo de proteinúria
pode ser facilmente determinado através da eletroforese ou imunoeletroforese
das proteinúrias urinárias. Embora este método possa
ser necessário em determinadas situações clínicas,
ele é caro e não está disponível em muitos
laboratórios. Um forma mais simples e barata de se identificar o
tipo de proteinúria é através da comparação
da proteinúria detectada pela fita de imersão (a albumina
quando presente altera a cor do corante tetrabromofenal) com aquela observada
pelo método turbimétrico (que emprega o ácido sulfossalicílico)
que determina qualquer tipo de proteína na urina. Assim, a presença
de proteinúria pela fita sugere a perda de albumina na urina, que
é o marcador de lesão glomerular. Por outro lado, um teste
negativo pela fita e positivo pelo método turbimétrico indica
a perda de uma proteína que não a albumina, como por exemplo
a proteína de Bence-Jones observada no mieloma múltiplo.
Interpretação
da Proteinúria (Figura 1)
Proteinúria
_________________!_________________________
!
!
Funcional
Persistente
________!___________
I
I
I
Determinar o Tipo de Proteinuria
Transitória
Ortostática
_______________I_________
I
|
|
|
Determinar
Pesquisar a Método Turbimétrico
Fita de Imersão
condições
Proteinúria
I
I
I
associadas
após repouso Positiva
Negativa
Positiva
I_________I
I
I
Albuminúria
Tubulopatias
I
Mieloma
Proteinúria/24hs
Mioglobinúria
P/Cr Urina Isolada
I
Glomerulonefrite
Diante
de um paciente com proteinúria deveríamos analisar três
aspectos:
-
Qual o tipo de proteína
está sendo perdido na urina;
-
Quanto de proteínas está
sendo perdida; e
-
Se a proteinúria é
persistente ou não transitória.
Como já mencionado, o
tipo de proteinúria pode ser determinado de maneira simples e prática
observando-se o padrão da perda proteica pela fita de imersão
(específica para albumina) e pelo método do ácido
sulfossalicílico (que detecta qualquer tipo de proteína urinária).
Em seguida deveríamos
quantificar a proteinúria. O teste da fita de imersão é
qualitativo e detecta albuminúria acima de 300 mg. Quando a fita
de imersão for positiva, impõe a quantificação
da proteinúria na urina coletada em 24 horas ou mais simples, através
da relação proteína/creatinina numa amostra urinária
isolada. Nesta técnica, o resultado da divisão do valor da
proteinúria (em mg/dL) pela creatinina (em mg/dL), corresponde à
proteinúria quantificada na urina de 24 horas. A proteinúria
guarda uma relação importante com a evolução
das doenças glomerulares. As glomerulonefrites que evoluem com níveis
mais acentuados de proteinúria (>3-3,5 g/dia) apresentam um curso
clínico caracterizado mais freqüentemente por perda progressiva
da função renal. Por outro lado, proteinúrias mais
leves (<1-1,5 g/dia) sinalizam para um curso clínico mais benigno
das glomerulonefrites ou podem indicar a presença de doenças
túbulo-intersticiais. Na ausência de albuminúria, deveríamos
afastar a proteinúria de Bence-Jones (por extravasamento) e as proteinúrias
por lesão túbulo-intersticiais (u2-microglobinúria).
O terceiro aspecto importante
é determinar se a proteinúria é persistente, como
nos casos de glomerulonefrites ou funcional, situação clínica
em que a perda proteica é ocasional e freqüentemente se associa
com a posição assumida (ortostática) ou com uma condição
transitória (esforço físico extenuante, febre, frio
excessivo, queimaduras, alcoolismo agudo). A proteinúria ortostática
é observado exclusivamente em adolescentes e tende desaparecer espontaneamente,
sendo assim sem relevância clínica.
Finalmente, é importante
ressaltarmos alguns pontos importantes que deveriam ser observados quando
avaliarmos indivíduos com proteinúria:
-
As fitas de imersão são
satisfatórias no rastreamento das glomerulapatias;
-
Analisar cuidadosamente o sedimento
urinário e determinar se há hematúria e o seu padrão
(glomerular ou pós-glomerula), assim como procurar por cilindros
hemáticos, elementos que assinalam para uma glomerulonefrite como
causa da proteinúria;
-
A sedimentoscopia deveria ser
realizada em urina fresca recém obtida;
-
Analisar as células e
cilindros através do emprego da microscopia de contraste de fase;
-
As proteinúrias secundárias
a febre, insuficiência cardíaca, etc. são freqüentemente
discretas, como são as proteinúrias associadas às
patologias túbulo-intersticiais;
-
Sempre quantificar a proteinúria,
seja em amostras urinárias isoladas ou coletadas em 24 horas;
-
Nos casos de albuminúria,
avaliar a função renal dos pacientes;
-
A determinação
da seletividade da proteinúria é particularmente importante
em crianças com síndrome nefrótico e em algumas formas
de glomerulonefrites, como por exemplo nefropatia por depósito IgA;
-
Considerar a realização
de biópsia renal em indivíduos adultos com proteinúria;
e por último, lembrar que a eletroforese e imunoeletroforese da
proteinúria permitem identificar o tipo de proteínúria,
como por exemplo a u2- e u-globinúria, encontradas
nas patologias túbulo-intersticiais e as proteínas de cadeia
leve do mieloma múltiplo.
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