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Pré-Eclâmpsia:
Mecanismos
Fisiopatológicos e suas Implicações Terapêuticas
Istênio F. Pascoal
Doutor em Nefrologia pela Universidade
de São Paulo, SP
Pós-Doutorado em Hipertensão
Arterial pela Universidade de Chicago, USA
Pesquisador Associado da Universidade
de Brasília, DF
Introdução
As mulheres são relativamente
protegidas de doenças cardiovasculares durante a fase reprodutiva,
mas pagam um tributo por isso. As intercorrências clínicas
da gravidez não se expressam apenas nos índices de mortalidade
fetal: também sacrificam inúmeras vidas maternas. Além
de poder apresentar todas as doenças que acometem uma mulher não
grávida, exceto a infertilidade, a mulher grávida se arrisca
a uma série de afecções inerentes à condição
gravídica.
Duas formas principais de
hipertensão arterial podem complicar a gravidez: pré-eclâmpsia
e hipertensão crônica, que ocorrem individualizada ou associadamente.
Hipertensão crônica
se refere à hipertensão de qualquer etiologia, que está
presente antes da gravidez ou da 20a. semana de gestação.
Hipertensão diagnosticada em qualquer fase da gravidez, mas que
persiste além de 6 semanas após o parto é tambem considerada
hipertensão crônica. A denominação “crônica”
é utilizada para fazer oposição semântica à
natureza súbita e reversível da pré-eclâmpsia.
Pré-eclâmpsia
é uma doença hipertensiva peculiar à gravidez humana,
que ocorre principalmente em primigestas após a 20a. semana de gestação,
mais frequentemente próximo ao termo. Envolve virtualmente
cada orgão e sistema do organismo e é a principal causa de
morbidade e de mortalidade, tanto materna quanto fetal. Caracteriza-se
pelo desenvolvimento gradual de hipertensão, proteinúria,
edema generalizado e, às vezes, alterações da coagulação
e da função hepática. A sobreveniência
de convulsão define uma forma grave, chamada eclâmpsia.
Em mulheres nulíparas, a incidência de pré-eclâmpsia
é de aproximadamente 6% nos paises desenvolvidos e 2 ou 3 vezes
maior em paises subdesenvolvidos. Apesar de sua complexidade clínica
e natureza potencialmente grave, a pré-eclâmpsia é
a forma mais comum de hipertensão “curável” e é inteiramente
reversível com a interrupção da gravidez.
A fisiopatologia vascular
da pré-eclâmpsia se caracteriza por integral reversão
das alterações fisiológicas próprias da gravidez
normal(1,2). Por exemplo, mulheres grávidas
normalmente experimentam expressiva vasodilatação periférica,
tanto que, a despeito de elevação no débito cardíaco,
a pressão arterial sistêmica diminui. Na pré-eclâmpsia,
ao contrário, observam-se pequenas alterações no débito
cardíaco, sendo o aumento na pressão arterial fundamentalmente
dependente da elevação na resistência vascular periférica.
Além disso, a vasculatura de mulheres grávidas nomais é
refratária aos efeitos pressores da angiotensina II, enquanto aquela
de mulheres pré-eclâmpticas apresentam aumentada sensibilidade
a este peptídeo, mesmo antes das manifestações clínicas(2).
Embora a causa da pré-eclâmpsia
ainda esteja por ser determinada, estudos recentes sugerem que seu caráter
multissistêmico pode refletir intensa disfunção da
célula endotelial. Primeiro, existem evidências morfológicas
e bioquímicas de que a pré-eclâmpsia é precedida
e/ou acompanhada por dano endotelial(3,4). Segundo,
há observações sugerindo que a vasodilatação
habitual da gravidez normal reflete aumento na produção de
fatores relaxantes derivados do endotélio (EDRF), principalmente
aqueles dependentes do óxido nítrico (ON)(5-8).
Neste sentido, a inibição da síntese do óxido
nítrico provoca hipertensão e proteinuria em ratas grávidas,
quando a excreção urinária de nitrato-nitrito, embora
diminuida, é ainda igual àquela de animais virgens(9).
Assim, tem sido sugerido que a diminuição na elaboração
normal de vasodilatadores endógenos de ação local
(primariamente óxido nítrico) é um mecanismo crucial
envolvido na patogênese e perpetuação da hipertensão
na pré-eclâmpsia.
Genética
da pré-eclâmpsia
A susceptibilidade da mulher
grávida à pré-eclâmpsia tem um componente genético
definido. A incidência em mães, filhas e irmãs
é 2 a 5 vêzes maior do que em sogras, noras e população
controle(10). Dois modelos genéticos se
adequam aos dados obtidos dos três maiores estudos: modelo recessivo
simples, com os genes agindo na mãe, e um modelo de um gene dominante
com 50% de penetrância, novamente agindo na mãe. Há
também evidências de um componente genético fetal.
Entretanto, a ausência de concordância mostrada por gêmeos
monozigotos é melhor explicada por um modelo envolvendo penetrância
mais reduzida.
Fatores
de risco
A pré-eclâmpsia
ocorre mais frequentemente durante a primeira gestação, sendo
ocasional seu desenvolvimento em gestações subsequentes a
uma gravidez normal, ou mesmo após um abortamento tardio.
Há evidências de que fatores imunológicos relacionados
a antígenos do esperma paterno são importantes na gênese
da pré-eclâmpsia. Embora primigrávidas jovens
apresentem maiores riscos, multigrávidas com um novo parceiro têm
alta incidência de pré-eclâmpsia. Por outro lado,
a duração da cohabitação antes da concepção
se relaciona inversamente com o risco de pré-eclâmpsia, sugerindo
que prolongada exposição materna a antígenos do esperma
paterno confere proteção(10). Pré-eclâmpsia
também está associada com a idade materna, aumentando sua
incidência em mulheres acima de 35 anos. Nefropatia, associada
ou não a hipertensão crônica, diabetes mellitus, gemelaridade,
hidrópsia fetal e mola hidatiforme igualmente aumentam os riscos
de pré-eclâmpsia. Mulheres fumantes aparentemente têm
menor risco de desenvolver pré-eclâmpsia, mas quando a desenvolvem
o prognóstico é pior do que em não fumantes.
Aspectos
fisiopatológicos
A hipertensão da pré-eclâmpsia
é caracteristicamente lábil e apresenta uma tendência
à reversão do ritmo circadiano normal da pressão arterial,
ou seja, intensificação dos níveis pressóricos
à noite, ao invés da queda noturna habitual1.
A lesão renal da pré-eclâmpsia
pode ser responsável pela aumentada excreção urinária
de proteinas, bem como pela diminuição na filtração
glomerular e no clearance de ácido úrico, o ultimo causando
a característica hiperuricemia. Desde que o ritmo de filtração
glomerular e o clearance de ácido úrico aumentam normalmente
durante a gravidez, níveis séricos de creatinina e ácido
úrico superiores a 0.9 e 5 mg/dl, respectivamente, são considerados
anormais em mulheres grávidas e requerem avaliação
complementar11.
A excreção
renal de sódio diminui na pré-eclâmpsia, causando retenção
hidrossalina, embora formas graves da doença possam ocorrer na ausência
de edema. A maioria do fluido retido se localiza no espaço
intersticial, tal que, mesmo na presença de edema, pacientes pré-eclâmpticas
apresentam hemoconcentração por diminuição
do volume intravascular. Os níveis de albumina sérica
podem ser baixos, não devido à perda renal ou disfunção
hepática, mas em decorrência do extravasamento de proteína
para o interstício (capillary leak). Enquanto a maioria dos
casos de edema agudo de pulmão observada em mulheres grávidas
hipertensas se deve à sobrecarga de volume, algumas pré-eclâmpticas
apresentam quadro semelhante à síndrome do estresse respiratório
agudo, com pressão capilar pulmonar normal ou baixa, intensa diminuição
da pressão oncótica plasmática e possível comprometimento
da extração de oxigênio, configurando quadro de edema
pulmonar primário.
Diminuição
do número de plaquetas e dos níveis de antitrombina III podem
preceder a expressão clínica da pré-eclâmpsia.
Há também sugestões de que elevações
súbitas nos níveis de ferro sérico ou carboxihemoglobina
circulantes podem ajudar na diferenciação entre pré-eclâmpsia
e outras formas de hipertensão na gravidez12.
Pode-se assumir que a pré-eclâmpsia
é uma doença generalizada, sendo a hipertensão apenas
uma de suas manifestações. Observam-se lesões
em vários orgãos, incluindo cérebro, fígado
e coração. Há tambem diminuição
na perfusão placentaria, o que responde, em parte, pela aumentada
incidência de retardo de crescimento intrauterino e de perda fetal.
A restrição ao fluxo placentário provávelmente
se deve ao estreitamento dos vasos deciduais, por uma lesão especifica
chamada "aterose". Na gravidez normal, as arterias espiraladas (ramos
da arteria uterina) são invadidas pelo trofoblasto, o qual destroi
a musculatura, transformando-as em um conduto praticamente sem resistência.
Este processo se completa em torno da 20a-22a semana
de gestação. Alguns autores admitem que uma falha neste
sequência de eventos, com posterior defeito da conformação
estrutural da placenta, contribui criticamente na etiologia e/ou na amplificação
das repercussões fetais da pré-eclâmpsia.
O
endotélio na gravidez
Devido à ausência
de um modelo animal adequado de pré-eclâmpsia e às
limitações para se realizar estudos durante a gravidez humana,
existe escassez de informações sobre a modulação
endotelial da função vascular na pré-eclâmpsia,
embora algumas avaliações da habilidade de relaxamento vascular
em mulheres grávidas normotensas ou pré-eclâmpticas,
têm consistentemente sugerido extensa disfunção endotelial
na pré-eclâmpsia.
O endotélio vascular
elabora uma miríade de moléculas vasoativas, que contribui
criticamente para a regulação do tonos, da permeabilidade
e da coagulação vasculares, e cujas ações ou
concentrações tendem a se alterar em direções
opostas durante a gravidez normal ou pré-eclâmpsia.
Assim, a produção relativa de vasoconstrictores mediados
pelo endotélio, tais como endotelina e tromboxane A2, parece aumentar
durante a pré-eclâmpsia, enquanto a de vasodilatadores, como
os EDRFs, parece diminuir, ambas comparadas com a gravidez normal, indicando
que uma função endotelial alterada pode ser de significante
importância fisiopatológica na pré-eclâmpsia.
As artérias de resistência
contribuem importantemente para e participam ativamente da regulação
da resistência vascular periférica. Vários estudos
têm tentado adquirir uma melhor compreensão dos mecanismos
pelos quais fatores intrínsecos e extrínsecos se interagem
para influenciar seu diâmetro. De um modo geral, estes estudos
têm revelado anormalidades funcionais e estruturais de vasos de pacientes
hipertensos quando comparados com aqueles de indivíduos normotensos.
Mais interessante é que o tratamento com alguns agentes anti-hipertensivos
pode reverter parte destas alterações, embora os mecanismos
destas anormalidades nao estejam ainda completamente conhecidos.
Em uma série de experimentos
recentes, descritos abaixo, nós examinamos a modulação
endotelial da reatividade microvascular na gravidez normal e hipertensiva
em modelos experimentais e em seres humanos, com particular atenção
na fisiopatologia vascular da pré-eclâmpsia.
1.Contração
e Relaxamento Dependente de Endotélio em Microvasos Mesentéricos
de Ratas Prenhes e Virgens.13
Neste estudo, avaliamos
a vasoconstricção induzida por Cloreto de Potássio
(KCl) e por Fenilefrina (FE), bem como a vasodilatação dependente
de endotélio induzida por Acetilcolina (ACh), em microartérias
(~150 um de diâmetro interno) mesentéricas de ratas
virgens e prenhes, estudadas isometricamente na ausência e na presença
de N-nitro-L-arginina (NNLA), um potente inibidor da síntese de
Óxido Nítrico (ON). A resposta vasoconstrictora máxima
a KCl e FE, bem como a sensibilidade a FE, foram semelhantes entre vasos
de ratas virgens ou prenhes, quer na ausência quer na presença
de NNLA. NNLA resultou em semelhante desvio para a esquerda da curva
concentração-efeito a FE nos dois grupos. O relaxamento
vascular induzido pela ACh, enquanto estritamente dependente da presença
do endotélio, foi potencializado em vasos de ratas prenhes (EC50
0.25 uM vs. 0.04 uM, ratas virgens e prenhes, respectivamente).
Além disso, na presença de NNLA, o relaxamento máximo
foi inibido mais significativamente em vasos de ratas prenhes (62% vs.
31%). Em suma, a prenhez não altera a síntese basal
de ON nestes microvasos isolados, mas aumenta a liberação
de ON estimulada por ACh, enquanto aparentemente inibe a ação
de um vasodilatador derivado de endotélio, mas independente de ON.
2.Efeitos
da Gravidez sobre os Mecanismos de Relaxamento em Vasos de Resistência
do Omento Humano14
Neste estudo, realizado
em vasos humanos, nós examinamos os mecanismos do relaxamento vascular
induzido tanto pela ACh quanto pela Bradicinina (BK) - dois vasodilatadores
reconhecidamente dependentes da presença de endotélio - em
vasos de resistência do omento humano. Pequenos anéis
vasculares (~200 de diâmetro interno normalizado) foram dissecados
de biópsias do omento obtidas de mulheres submetidas a laporotomia
(não grávidas, n=12) ou operação cesariana
(grávidas, n=12) e estudados sob condições isométricas
in vitro. Todos os vasos previamente contraídos com Arginina-Vasopressina
(AVP) foram relaxaram tanto pela ACh quanto pela BK, de uma maneira estritamente
dependente de endotélio,. Entretanto, nem ACh nem BK relaxou
vasos precontraídos com Gluconato de Potassio (GK). A adição
de Indometacina (INDO) ou NNLA, ou ambas, não preveniu o relaxamento
induzido pela ACh ou pela BK. Na combinada presença de INDO
e NNLA, Charybdotoxina (CTx) ou 1 mmol/L de Cloreto de Tetraetilamonio
(TEA) - bloqueadores seletivos de alguns canais de potássio sensíveis
a cálcio – também não inibiu o relaxamento induzido
pela BK. Em contraste, a adição de 10 mmol/L de TEA,
que inibe inespecificamente a maioria dos canais de potássio, aboliu
completamente o relaxamento em vasos de mulheres não grávidas,
mas não em vasos de grávidas. Concluimos que ACh e
BK relaxam estas artérias de resistência humanas de uma maneira
dependente de endotélio, mas predominantemente através da
participação de canais de potássio. Assim, em
flagrante contraste com os mecanismos observados em modelos animais, na
gravidez humana o relaxamento pode envolver um vasodilatador hiperpolarizante
dependente de endotélio, cuja ação parece diferir
em vasos de mulheres grávidas e não grávidas.
3.
Pré-eclâmpsia é Acompanhada por Anormalidades Específicas
da Contração e do Relaxamento Dependente de Endotélio
em Microvasos do Omento.15
Nós estudamos a contração
(KCl e AVP) e o relaxamento (ACh e BK) de artérias de resistência
maternas, dissecadas de especimens do omento obtidas durante operação
cesariana de mulheres com pré-eclâmpsia, postulando que estes
vasos exibiriam aumento na contração e diminuição
no relaxamento dependente de endotélio. Para comparação,
vasos foram também obtidos dos seguintes grupos de pacientes: grávidas
normotensas, gravidas com hipertensão crônica ou com hipertensão
crônica e pré-eclâmpsia superajuntada, bem como de mulheres
não grávidas em idade reprodutiva. A reatividade vascular,
tomada como máxima contração induzida por KCl ou AVP,
foi significativamente maior em vasos de mulheres com pré-eclâmpsia,
que também exibiram atividade fásica, oscilatória
em resposta a doses intermediárias de AVP. Os vasos
de todos os outros grupos apresentaram apenas contrações
tônicas, exceto aqueles de grávidas hipertensas crônicas
com pré-eclâmpsia superajuntada, que manifestaram o
mesmo grau e padrão da atividade fásica vista em vasos de
pré-eclâmpticas “puras”. As oscilações
observadas em vasos de pré-eclâmpticas não foram modificadas
com a inibição da síntese de ON, mas foram inteiramente
abolidas com a inibição da ciclooxigenase (indometacina ou
meclofenamato) ou com a remoção mecânica do endotélio.
Tanto Acetilcolina (ACh) quanto Bradicinina (BK) relaxaram vasos de grávidas
normotensas, grávidas com hipertensão crônica e de
mulheres não-gravidas, de uma maneira estritamente dependente do
endotelio, mas independente do ON e de produtos da cicloxigenase.
BK também relaxou vasos de pré-eclâmpticas completamente,
mas ACh foi sem efeito neste grupo. Em conjunto, estes dados sugerem
defeitos específicos na sinalização endotelial de
microvasos de pré-eclâmpticas que, se se manifestarem in vivo,
poderiam levar à hipertensão e ao vasoespasmo que caracaterizam
esta doença.
Considerações
Terapêuticas
O tratamento definitivo da
pré-eclâmpsia consiste de interrupção da gravidez
e prevenção das complicações maternas.
Se não tratada, a pré-eclâmpsia se associa com maior
risco de morte fetal e neonatal e, em pacientes que progridem para pré-eclâmpsia
grave ou eclâmpsia (convulsões), pode haver morte materna
devido, principalmente, a hemorragia intracerebral.
Hipertensão grave
persistente (diastólica acima de 110 mmHg), cefaléia, distúrbios
visuais, deterioração da função renal e síndrome
HELLP são outros sinais de doença grave que requerem a imediata
interrupção da gravidez. O manuseio conservador em
tais casos pode resultar em sérias complicações maternas.
Em casos menos graves, entretanto,
o retardamento do parto pode ser adotado para se obter maior maturidade
fetal. Tal conduta deve ser considerada se a pré-eclâmpsia
se desenvolve precocemente (antes da 32a. semana) e a hipertensão
é discreta/moderada, as funções renal e hepática
são estáveis e não há distúrbios da
coagulação ou sofrimento fetal.
A abordagem terapêutica
consiste de hospitalização com repouso no leito, controle
da pressão arterial, profilaxia da convulsão (quando sinais
de eclâmpsia iminente estão presentes) e o apropriado término
da gestação. A intervenção terapêutica
é paliativa e não altera a fisiopatologia da pré-eclâmpsia.
Quando muito, pode retardar sua progressão. Se já houver
maturidade pulmonar fetal, a gravidez deve ser interrompida, uma vez que
a pré-eclâmpsia é completamente reversível e
começa a desaparecer com o parto. As dificuldades aumentam
quando a pré-eclâmpsia se desenvolve antes da maturidade fetal,
situação em que é difícil decidir a época
adequada do parto. Se o feto for muito prematuro (<30 semanas),
a pressão arterial for apenas moderadamente elevada e não
houver outros sinais de gravidade materna, então pode-se tentar
retardar o parto. Deve-se ter em mente, entretanto, que a pré-eclâmpsia
não remite espontaneamente e, na maioria dos casos, a doença
piora com o tempo. Assim, a monitorização e vigilância
materna e fetal diária é mandatória. Independentemente
da idade gestacional, a interrupção da gestação
deve ser considerada na vigência de sofrimento fetal (incluindo crescimento
intrauterino retardado), ou sinais de risco materno, como hipertensão
grave não controlada, hemólise, elevação de
enzimas hepáticas e plaquetopenia (síndrome HELLP), evidência
de deterioração da função renal, distúrbios
visuais, dor epigástrica e hiperreflexia.
Tratamento
anti-hipertensivo
O uso de medicação
anti-hipertensiva na pré-eclâmpsia é controverso, devido
à constatação de que o fluxo sanguíneo utero-placentário
está diminuído na pré-eclâmpsia e o impacto
da diminuição da pressão arterial sobre a perfusão
placentária não é ainda muito bem conhecido.
Desde que a redução da pressão arterial não
interfere na fisiopatologia da pré-eclâmpsia, o tratamento
anti-hipertensivo deveria ser prescrito visando apenas à proteção
materna. Há considerável desacordo sobre que níveis
de pressão arterial deveriam ser tratados, mas em geral se inicia
a terapêutica anti-hipertensiva quando a pressão arterial
diastólica é igual ou superior a 105 mmHg (fase V de Korotkoff).
Redução excessiva da pressão arterial deve ser evitada,
para não comprometer o fluxo sanguíneo utero-placentário
e, assim, predispor a complicações, tais como o descolamento
prematuro da placenta.
Quando o parto é iminente,
agentes parenterais são práticos e efetivos. A droga
de primeira escolha ainda é a hidralazina endovenosa, administrada
em dose inicial de 5 mg. Doses subsequentes são ditadas pela
resposta inicial e usadas a intervalos de 20 minutos. Se um total
de 20 mg for administrado sem resposta terapêutica satisfatória,
outros agentes devem ser considerados. Labetolol endovenoso tem sido
usado com sucesso na gravidez em paises onde esta droga é disponível,
iniciando-se com doses de 10 mg que são repetidas a cada 20 minutos,
de acordo com a resposta. Entretanto, a administração
endovenosa de labetolol não tem vantagens óbvias sobre hidralazina.
A administração oral de bloqueadores de canais de cálcio
tem sido utilizada na pré-eclâmpsia, e embora haja atrativos
nesta opção, tais como a eficácia anti-hipertensiva,
a facilidade da administração e o rápido início
de ação, a experiência na gravidez ainda é limitada.
Uma outra preocupação a respeito destes agentes é
relacionada ao uso concomitante de sulfato de magnésio, que frequentemente
é utilizado para prevenir convulsões. O magnésio
pode potencializar os efeitos dos bloqueadores de canais de cálcio
e causar queda súbita e intensa da pressão arterial.
Diazóxido endovenoso, em pequenas doses (30 mg) pode ser usado em
casos refratários. O uso de diuréticos não é
recomendado na pré-eclâmpsia, exceto em raros casos de edema
pulmonar, porque podem agravar a isquemia uterina.
Inibidores da enzima conversora
da angiotensina (ECA), que podem agravar a isquemia uterina e causar insuficiência
renal no feto, assim como nitroprussiato de sódio, que pode causar
intoxicação por tiocianeto na mãe e no feto, são
contraindicados durante a gestação.
Quando a decisão for
contemporizar, um agente oral é preferivel. Deve se ter em
mente que a terapêutica anti-hipertensiva visa, principalmente, ao
benefício materno. As vantagens potenciais para o feto é
que o controle da pressão arterial pode permitir a continuidade
da gravidez até um ponto onde haja maior maturidade fetal.
A metildopa é considerada por muitos como a melhor opção,
face à ampla experiência com esta droga na literatura.
Se ela não for bem tolerada, beta-bloqueadores, alfa-beta-bloqueadores,
bloqueadores de canais de calcio e hidralazina são boas opções
aditivas ou alternativas.
Terapêutica
anti-eclâmptica
Desde que a patogênese
da convulsão eclâmptica permanece pouco esclarecida, não
é surpreendente que a terapêutica para prevenir a primeira
convulsão (iminência de eclâmpsia) ou sua recorrência
(eclâmpsia estabelecida) tenha se mantido controversa por muitos
anos. Críticos do sulfato de magnésio argumentam que
além de cruzar a barreira hemato-encefálica muito lentamente,
seu uso não reverte as anormalidades eletroencefalográficas
presentes nestas pacientes. Em grande medida, a defesa do sulfato
de magnésio tem sido efetivamente empírica. A preferência
por sulfato de magnésio nos Estados Unidos, em contraposição
aos agentes anticonvulsivantes convencionais preferidos na Europa, se baseava
nos efeitos observados em várias séries de caso. Um
estudo controlado só foi realizado em 1995 (Eclampsia Trial Collaborative
Group) e seus resultados revelaram inquestionável superioridade
do sulfato de magnésio, que se consolidou com a droga de escolha
na prevenção da convulsão eclâmptica17.
Prevenção
A descoberta da prevenção
da pré-eclâmpsia revolucionaria o acompanhamento pré-natal
e salvaria muitas vidas maternas e fetais, principalmente em paises subdesenvolvidos,
onde as consequências da pré-eclâmpsia são devastadoras.
No passado, a restrição dietética de sal e a administração
profilática de diuréticos foram utilizadas com esta finalidade.
Entretanto, não há evidências consistentes de que a
limitação de sódio dietético modifica a incidência
ou intensidade de pré-eclâmpsia e as orientações
nutricionais atuais para gestantes recomendam conteúdo normal de
sal. Uma meta-análise de estudos randomizados de mais de 7000
mulheres encontrou semelhante incidência de pré-eclâmpsia
entre pacientes que receberam diurético profilático e placebo18.
Na última década, surgiram duas tentativas de prevenir a
pré-eclâmpsia: baixa dose de aspirina (60 a 100mg/dia, comecando
na 12a. semana de gestação) e suplementação
dietética de cálcio (aproximadamente 2g/dia) durante a gravidez.
A premissa para o benefício da aspirina era que, nestas doses, a
aspirina inibiria a produção de tromboxane mais do que a
de prostaciclina, mantendo ou restabelecendo a predominância funcional
da prostaciclina, uma prostaglandina vasodilatadora. A despeito de
favorável meta-análise dos primeiros trabalhos publicados19,
a realização de um grande estudo, envolvendo mais de 9.000
pacientes, não confirmou estes resultados, embora sugerisse a possibilidade
de que pacientes com alto risco pudessem eventualmente se beneficiar20.
Entretanto, um estudo brasileiro subsequente não demonstrou qualquer
benefício profilátivo da aspirina, mesmo em pacientes consideradas
de alto risco para desenvolver pré-eclâmpsia21.
Por sua vez, a estratégia de suplementação oral de
cálcio se baseia na observação de que pacientes pré-eclâmpticas
são hipocalciúricas22. A hipótese
de que baixa ingesta de cálcio na dieta está associada à
hipertensão em geral e à pre-eclâmpsia em particular,
motivou estudos de suplementação oral de cálcio para
prevenir pré-eclâmpsia. Uma meta-análise23
destes estudos sugeriu que a suplementação era benéfica,
embora houvesse dados conflitivos24. A conclusão
recente de um grande trial, patrocinado pelo National Institute of Health
dos Estados Unidos, demonstrou claramente que a suplementação
dietética de 2 g/dia de cálcio não está indicada,
pelo menos para mulheres americanas, se o objetivo for reduzir a incidência
de pré-eclâmpsia ou melhorar o bem-estar fetal25.
Novas
Perspectivas Terapêuticas
Reconhecido o comprometimento
endotelial na gênese e/ou perpetuação da pré-eclâmpsia
e a participação funcional dos canais de potássio
na intermediação da resposta vascular à influência
vasodilatadora exercida pelo endotélio na microcirculação
humana, surge uma extraordinária perspectiva de tratamento e eventual
prevenção da pré-eclâmpsia com a utilização
de compostos, cuja ação farmacológica primária
seja a “abertura de canais de potássio”16.
De fato, a recente utilização de moléculas sintéticas
(como por exemplo, Cromakalin) que diretamente abrem alguns canais
de potássio, está viabilizando uma nova direção
na farmacologia e a busca de “abridores seletivos” de diferentes subtipos
de canais de potássio conduzirá a uma abordagem terapêutica
mais racional na hipertensão em geral e na pré-eclâmpsia
em particular.
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