
Variação
da pressão arterial 5 e 10 anos após transplante renal em
pacientes que nunca usaram ciclosporina.
Introdução
A imunossupressão
com CYCLOSPORINA - A (CyA) após transplante renal está
associada à melhor sobrevida do enxerto do que a conseguida pelo
uso de AZATIOPRINA. No entanto, a CyA tem um papel relevante na elevação
da pressão arterial em quase todos os pacientes e produz hipertensão
(HTN) declarada em muitos casos. Usualmente diz-se que a pressão
sangüínea freqüentemente se eleva depois do transplante,
e HTN pós-transplante é um problema comum em receptores de
rim, afetando 60 a 80% dos indivíduos (a incidência varia
em diferentes populações).
A importância da CyA
pode ser observada a partir dos resultados de transplantes de medula óssea
e cardíaco, situações nas quais a disfunção
renal é menos provável de estar presente. A incidência
de HTN após tais procedimentos se situava abaixo de 10% antes da
disponibilidade de CyA e agora é de 33 a 66% após o
transplante de medula óssea e de 70 a 100% depois do transplante
cardíaco.
Os seguintes fatores de risco
foram associados com HTN pós-transplante:
Disfunção crônica
do enxerto;
Enxerto de doador cadáver,
especialmente de um doador com história familiar de HTN;
Presença dos rins nativos;
Terapia com CyA e corticosteróides;
Aumento do peso corporal.
Em alguns centros, todos
os pacientes hipertensos desenvolvem HTN no primeiro ano após a
cirurgia. Alguns autores mostram que a presença de HTN antes do
transplante e um nível de creatinina plasmática superior
a 2mg/dL em 1 ano estavam positivamente associados com HTN. Para reduzir
a importância dos fatores de risco, alguns foram induzidos a mudar
o tratamento para Azatioprina logo após o transplante, o que produziu
efeitos benéficos a curto prazo sobre a função renal
e HTN; outros pensam que alguns pacientes necessitam da manutenção
da terapia antihipertensiva (especialmente se altas doses diárias
de corticóides e/ou CyA são administradas) e, nesses casos,
bloqueadores de canais de cálcio são preferidos, pois eles
previnem a vasoconstrição transitória diária
induzida pela CyA.
Nós acreditamos que
um estudo longitudinal em que se acompanhasse pacientes que nunca usaram
CyA e nunca tiveram problemas clínicos que induzissem disfunção
renal, 5 e 10 anos após receberem o enxerto, poderia demonstrar
a incidência real de HTN em receptores de transplante renal, estabelecendo
a história natural dessa desordem em pacientes imunossuprimidos
sem Cya, com rins nativos in situ e função renal
excelente.
Hipertensão
Arterial o efeito colateral mais freqüente da Ciclosporina
Nefrotoxicidade e Hipertensão
(HTN) são os principais riscos da imunossupressão com Ciclosporina
(CyA). Esta elevação de pressão sangüínea,
usualmente leve a moderada, é universal, devida à elevada
resistência vascular periférica. Severas alterações
da pressão sangüínea com lesões em órgãos
alvo ocorrem eventualmente. Os mecanismos subjacentes a esta enfermidade
não são completamente compreendidos nem explicam de maneira
independente a origem da HTN. Alterações na pressão
sangüínea não dependem da endotelina I (ET - 1) circulante,
nem do fator natriurético atrial, nem da aldosterona, nem do hormônio
anti-diurético e nem da atividade de renina plasmática. Contudo,
recentemente, alguns investigadores examinaram os efeitos do bloqueio crônico
do receptor de endotelina com o novo antagonista não peptídeo
de receptor de endotelina (bosentan) em dois modelos animais de HTN induzida
por CyA, mostrando que, durante o tratamento, a pressão sangüínea
reduziu
significativamente. Além
disso, níveis elevados de ET - 1 urinária foram obtidos
após tratamento com CyA, sugerindo síntese renal aumentada
de ET-1.
Indução da
produção de nitrito/nitrato pela combinação
de fator de necrose tumoral alfa e lipopolissacáride bacteriano
ou de interleucina alfa e interferon gama foi inibida pela CyA (normalmente
uma combinação de IL - 1 alfa e fator de necrose tumoral
alfa induz acúmulo de nitrito/nitrato). Um desarranjo na produção
do fator de relaxamento dependente de endotélio, ou óxido
nítrico, ainda é considerado um candidato importante para
a vasoconstrição induzida por CyA.
A prostaglandina vasodilatadora,
prostaciclina, em seres humanos, mas não em estudos experimentais,
tem excreção reduzida em indivíduos tratados com CyA.
É razoável
conjeturar que, com os dados disponíveis, CyA altera a função
do endotélio vascular de modo geral. Os vasos renais são
muito sensíveis aos efeitos da CyA, resultando em lesão
microvascular e trombose, mas nós já demostramos que essas
lesões são reversíveis com a interrupção
do tratamento (Fotos 1 e 2).
De modo geral, a hipertensão
não é explicável por um único mecanismo
e pode ser abordada sem que se precise suspender o uso de CyA.
Materiais
e métodos
Neste estudo 98 pacientes
submetidos a transplante renal há no mínimo 10 anos foram
avaliados retrospectivamente. Selecionaram-se pacientes com idade > 18
anos que nunca fizeram uso de CyA e não apresentaram rejeição
crônica, recidiva da doença original ou qualquer outra
complicação que reduzisse o nível da função
renal. A amostra final foi composta por 38 pacientes que foram, de acordo
com o comportamento pressórico pré-transplante, alocados
a dois grupos, obtendo-se as seguintes características:
Grupo A - Hipertensos
(HTN +) Pré-transplante n = 33 (86,8%)
IDADE Média: 34 anos
(18 - 53 anos)
SEXO Homens: 21 (63,6%)
Mulheres: 12 (36,4%)
COR Leucoderma: 23 (69,7%)
Faioderma: 10 (30,3%)
DOADOR Vivo Relacionado:
29 (87,9%) Cadáver: 1 (3,0%)
Vivo não Relacionado:
3 (9,1%)
Grupo B - Normotensos
(HTN -) Pré-transplante n = 5 (13,2%)
IDADE Média: 30,6 anos
(18 - 38 anos)
SEXO Homens: 3 (60,0%)
Mulheres: 2 (40,0%)
COR Leucoderma: 4 (80,0%)
Faioderma: 1 (20,0%)
DOADOR Vivo Relacionado:
5 (100%)
Como HTN + foram considerados
os pacientes com cifras pressóricas sistólicas superiores
a 140 mmHg ou diastólicas superiores a 90 mmHg ou, ainda, aqueles
que estavam em terapia com drogas hipotensoras. Pacientes HTN - foram aqueles
com cifras sistólicas inferiores a 140 mmHg e diastólicas
inferiores a 90 mmHg sem prescrição de drogas antihipertensivas.
Os níveis de pressão
sangüínea foram revistos várias vezes em torno de 5
e 10 anos após o transplante e, então, os mesmos pacientes
foram reagrupados de acordo com o Quadro 1. Uma análise dos dados
foi realizada no sentido de se estabelecer a evolução natural
da pressão sangüínea desses pacientes ao longo dos 10
anos e uma possível correlação com idade, sexo, raça,
tipo de doador, ganho de peso e creatinina sérica foi investigada
Para visualizar melhor estes
esquemas e gráficos, clique sobre eles:
Observa-se, na Tabela 1,
que foi significativo o aumento do número de pacientes normotensos
tanto aos 5 como aos 10 anos. É também significativo o número
de mulheres que se transformaram em normotensas aos 5 anos, comparado com
o de homens com igual evolução. Esta tendência também
se observa aos 10 anos.
Não se observou
significado estatístico entre alterações pressóricas
e as demais variáveis.
Para visualizar melhor estes
esquemas e gráficos, clique sobre ele:
Conclusão
38 pacientes submetidos
a transplante renal imunossuprimidos sem CyA, que evoluíram muito
bem pelo menos 10 anos após a cirurgia, tiveram seus níveis
pressóricos avaliados em três ocasiões: na época
do implante, 5 e 10 anos após.
Conclui-se que, pelo menos
nesta amostra, houve significativa redução da prevalência
de hipertensão tanto aos 5 como aos 10 anos, considerando-se hipertensos
não só os pacientes com níveis pressóricos
superiores a 140/90 mmHg, como também com níveis considerados
normais sob ação medicamentosa.
Entre as variáveis
estudadas (sexo, raça, tipo de doador, idade, creatinina sérica
e ganho de peso), a única que se correlacionou significativamente
com o grupo que se tornou normotenso foi o sexo, ou seja, mais mulheres
hipertensas se tornaram normotensas aos 5 anos (p < 0,05) e aos 10 anos
a mesma tendência se manteve.
91% dos pacientes que eram
hipertensos aos 10 anos de evolução tinham este fator presente
desde a época da cirurgia.
Bibliografia
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