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Volume 1- Número 1- Ano I (Jan/Fev/Mar de 1998)



Variação da pressão arterial 5 e 10 anos após transplante renal em pacientes que nunca usaram ciclosporina.
      HC - Universidade Federal de Minas Gerais
      Trabalho apresentado no Congresso da American Society
      of Hypertension, San Francisco (maio de1997).


Introdução
A imunossupressão  com CYCLOSPORINA - A  (CyA) após transplante renal está associada à melhor sobrevida do enxerto do que a conseguida pelo uso de AZATIOPRINA. No entanto, a  CyA tem um papel relevante na elevação da pressão arterial em quase todos os pacientes e produz  hipertensão (HTN) declarada em muitos casos. Usualmente diz-se que a pressão sangüínea freqüentemente se eleva depois do transplante, e HTN pós-transplante é um problema comum em receptores de rim, afetando 60 a 80% dos indivíduos (a incidência varia em diferentes populações).
A importância da CyA pode ser observada a partir dos resultados de transplantes de medula óssea e cardíaco, situações nas quais a disfunção renal é menos provável de estar presente. A incidência de HTN após tais procedimentos se situava abaixo de 10% antes da disponibilidade de CyA  e agora é de 33 a 66% após o transplante de medula óssea  e de 70 a 100% depois do transplante cardíaco.

Os seguintes fatores de risco foram associados com HTN pós-transplante:

  • Disfunção crônica do enxerto;
  • Enxerto de doador cadáver, especialmente de um doador com história familiar de HTN;
  • Presença dos rins nativos;
  • Terapia com CyA e corticosteróides;
  • Aumento do peso corporal.

  •  

     

    Em alguns centros, todos os pacientes hipertensos desenvolvem HTN no primeiro ano após a cirurgia. Alguns autores mostram que a presença de HTN antes do transplante e um nível de creatinina plasmática superior a 2mg/dL em 1 ano estavam positivamente associados com HTN. Para reduzir a importância dos fatores de risco, alguns foram induzidos a mudar o tratamento para Azatioprina logo após o transplante, o que produziu efeitos benéficos a curto prazo sobre a função renal e HTN; outros pensam que alguns pacientes necessitam da manutenção da terapia antihipertensiva (especialmente se altas doses diárias de corticóides e/ou CyA são administradas) e, nesses casos, bloqueadores de canais de cálcio são preferidos, pois eles previnem a vasoconstrição transitória diária induzida pela CyA.
    Nós acreditamos que um estudo longitudinal em que se acompanhasse pacientes que nunca usaram CyA e nunca tiveram problemas clínicos que induzissem disfunção renal, 5 e 10 anos após receberem o enxerto, poderia demonstrar  a incidência real de HTN em receptores de transplante renal, estabelecendo a história natural dessa desordem em pacientes imunossuprimidos sem Cya, com rins nativos  in situ  e função renal excelente.

    Hipertensão Arterial o efeito colateral mais freqüente da Ciclosporina
    Nefrotoxicidade e Hipertensão (HTN) são os principais riscos da imunossupressão com Ciclosporina (CyA). Esta elevação de pressão sangüínea, usualmente leve a moderada, é universal, devida à elevada resistência vascular periférica. Severas alterações da pressão sangüínea com lesões em órgãos alvo ocorrem eventualmente. Os mecanismos subjacentes a esta enfermidade não são completamente compreendidos nem explicam de maneira independente a origem da HTN. Alterações na pressão sangüínea não dependem da endotelina I (ET - 1) circulante, nem do fator natriurético atrial, nem da aldosterona, nem do hormônio anti-diurético e nem da atividade de renina plasmática. Contudo, recentemente, alguns investigadores examinaram os efeitos do bloqueio crônico do receptor de endotelina com o novo antagonista não peptídeo de receptor de endotelina (bosentan) em dois modelos animais de HTN induzida por CyA, mostrando que, durante o tratamento, a pressão sangüínea reduziu
    significativamente. Além disso, níveis elevados de ET - 1  urinária foram obtidos após tratamento com CyA,  sugerindo síntese renal aumentada de ET-1.

    Indução da produção de nitrito/nitrato pela combinação de fator de necrose tumoral alfa e lipopolissacáride bacteriano ou de interleucina alfa e interferon gama foi inibida pela CyA (normalmente uma combinação de IL - 1 alfa e fator de necrose tumoral alfa induz acúmulo de nitrito/nitrato). Um desarranjo na produção do fator de relaxamento dependente de endotélio, ou óxido nítrico, ainda é considerado um candidato importante para a vasoconstrição induzida por CyA.

    A prostaglandina vasodilatadora, prostaciclina, em seres humanos, mas não em estudos experimentais, tem excreção reduzida em indivíduos tratados com CyA.
    É razoável conjeturar que, com os dados disponíveis, CyA altera a função do endotélio vascular de modo geral. Os vasos renais são muito sensíveis aos efeitos da CyA,  resultando em  lesão microvascular e trombose, mas nós já demostramos que essas lesões são reversíveis com a interrupção do tratamento (Fotos 1 e 2).
    De modo geral, a hipertensão não é explicável por um único mecanismo  e pode ser abordada sem que se precise suspender o uso de CyA.

    Materiais e métodos
    Neste estudo 98 pacientes submetidos a transplante renal há no mínimo 10 anos foram avaliados retrospectivamente. Selecionaram-se pacientes com idade > 18 anos que nunca fizeram uso de CyA e não apresentaram rejeição crônica,  recidiva da doença original ou qualquer outra complicação que reduzisse o nível da função renal. A amostra final foi composta por 38 pacientes que foram, de acordo com o comportamento pressórico pré-transplante, alocados a dois grupos,  obtendo-se as seguintes características:

    Grupo A - Hipertensos (HTN +) Pré-transplante  n = 33 (86,8%)
     

  • IDADE Média: 34 anos (18 - 53 anos)
  • SEXO Homens: 21 (63,6%)  Mulheres: 12 (36,4%)
  • COR Leucoderma: 23 (69,7%)  Faioderma: 10 (30,3%)
  • DOADOR  Vivo Relacionado: 29 (87,9%)  Cadáver: 1 (3,0%)
  • Vivo não Relacionado: 3 (9,1%)

  • Grupo B - Normotensos (HTN -) Pré-transplante n = 5 (13,2%)
     
  • IDADE Média: 30,6 anos (18 - 38 anos)
  • SEXO Homens: 3 (60,0%)  Mulheres: 2 (40,0%)
  • COR Leucoderma: 4 (80,0%)  Faioderma: 1 (20,0%)
  • DOADOR  Vivo Relacionado: 5 (100%)

  • Como HTN + foram considerados os pacientes com cifras pressóricas sistólicas superiores a 140 mmHg ou diastólicas superiores a 90 mmHg ou, ainda, aqueles que estavam em terapia com drogas hipotensoras. Pacientes HTN - foram aqueles com cifras sistólicas inferiores a 140 mmHg e diastólicas inferiores a 90 mmHg sem prescrição de drogas antihipertensivas.
    Os níveis de pressão sangüínea foram revistos várias vezes em torno de 5 e 10 anos após o transplante e, então, os mesmos pacientes foram reagrupados de acordo com o Quadro 1. Uma análise dos dados foi realizada no sentido de se estabelecer a evolução natural da pressão sangüínea desses pacientes ao longo dos 10 anos e uma possível correlação com idade, sexo, raça, tipo de doador, ganho de peso e creatinina sérica foi investigada

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    Observa-se, na Tabela 1, que foi significativo o aumento do número de pacientes normotensos tanto aos 5 como aos 10 anos. É também significativo o número de mulheres que se transformaram em normotensas aos 5 anos, comparado com o de homens com igual evolução. Esta tendência também se observa aos 10 anos.
     Não se observou significado estatístico entre alterações pressóricas e as demais variáveis.

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    Conclusão
    38 pacientes submetidos a transplante renal imunossuprimidos sem CyA, que evoluíram muito bem pelo menos 10 anos após a cirurgia, tiveram seus níveis pressóricos avaliados em três ocasiões: na época do implante, 5 e 10 anos após.
    Conclui-se que, pelo menos nesta amostra, houve significativa redução da prevalência de hipertensão tanto aos 5 como aos 10 anos, considerando-se hipertensos não só os pacientes com níveis pressóricos superiores a 140/90 mmHg, como também com níveis considerados normais sob ação medicamentosa.
    Entre as variáveis estudadas (sexo, raça, tipo de doador, idade, creatinina sérica e ganho de peso), a única que se correlacionou significativamente com o grupo que se tornou normotenso foi o sexo, ou seja, mais mulheres hipertensas se tornaram normotensas aos 5 anos (p < 0,05) e aos 10 anos a mesma tendência se manteve.
    91% dos pacientes que eram hipertensos aos 10 anos de evolução tinham este fator presente desde a época da cirurgia.


    Bibliografia
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