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Volume 1- Número 1- Ano I (Jan/Fev/Mar de 1998)

MÍDIA & MÉDICOS


Na polêmica entre o jornalista Elio Gaspari e o médico Elias David-Neto, Med On Line solicitou ao Dr. Istênio Pascoal que comentasse os artigos publicados na grande imprensa. Dr. Istênio é  um nefrologista do Distrito Federal. Antes, porém, da leitura de seu artigo, entenda os fatos:

1: O Inicio: Doutor Elias, o privatista dos transplantes
ELIO GASPARI
Aconteceu o impensável. Dois rins tirados de um cadáver pela rede pública de captação de órgãos foram transplantados em dois doentes dos serviços de medicina privada.... ( Para ler o artigo completo clique aqui )

2:  Resposta :Transplantes de órgãos: os fatos
ELIAS DAVID-NETO
Interessante, porém infundado, o artigo publicado ontem nesta Folha pelo jornalista Elio Gaspari, sobre o que ele denominou a privatização dos transplantes...  ( Para ler o artigo completo, clique aqui)

3: Contra-resposta: Doutor Elias, arrume um plantão no  Carnaval
ELIO GASPARI
O doutor Elias David Neto, do serviço de  transplantes de rins do Hospital das Clínicas (R$ 3 mil cada) deu-se às letras...
( Para ler o artigo completo, clique aqui )



Exclusivo para Med On Line:
Como eu entendi os fatos
ISTÊNIO F. PASCOAL
Este não é um artigo sobre os melhores momentos da imprensa brasileira e suas irretocáveis páginas de coragem e independência. Nem é um artigo sobre a complexa realidade da transplantação de órgãos e sua recente regulação no Brasil.

A história do nosso jornalismo é composta de muitas passagens brilhantes e a dos transplantes se inscreve entre as mais sublimes do exercício da medicina. Mas, há práticas que podem eventualmente desmerecê-las. Foi o que se deu esta semana e é disso que trataremos aqui.

Comecemos por uma dimensão conceitual: é relevante personalizar um debate coletivo? No caso dos transplantes de rins realizados no último dia 25 de dezembro no Hospital Sírio-Libanês, o nome do Dr. Elias David Neto foi presentado como beneficiário de uma ampla conspiração.

Acusaram-no de ter realizado indevidamente os transplantes em dois pacientes privados, quando os órgãos caberiam a hospitais públicos.

Embora sabendo-se que tais órgãos, removidos de cadáver, haviam sido previamente oferecidos a três dezenas de hospitais, públicos e privados, segundo critérios oficialmente adotados e conhecidos, a identificação do Dr. Elias como integrante de duas equipes de transplantes - uma pública, entre as que não fizeram os transplantes (HC-USP); outra privada, que os realizou (Sírio) - foi suficiente para a presunção de que se evitara os transplantes no hospital público com o objetivo de realizá-los no serviço privado ("No caso do doutor Elias a inépcia do Estado e a eficácia do mercado coabitam na mesma pessoa. Maravilhosa síntese das virtudes privadas e das deficiências públicas.")

Em sua coluna de 14/01 o renomado jornalista Elio Gaspari (O Globo, Folha de São Paulo, Zero Hora, etc, etc, etc.) surpreende pelo excesso de deduções. Ao repercutir o fato, inicia por registrar como fonte de suas convicções algumas informações previamente publicadas na imprensa ("Aceitando-se lisamente todas as versões...").  Deixando de ouvir antecipadamente as razões do médico a quem acusaria, atentou contra a mais singela regra do bom jornalismo. Não bastasse esse descuido, Elio Gaspari também deixou de se esclarecer junto à Central de
Transplantes da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo - entidade que teve a incumbência de distribuir os rins.  Com sua reconhecida habilidade para farejar escândalos, o jornalista atirou em um personagem mas, esgraçadamente atingiu em cheio a causa (dos transplantes de órgãos) que, conceda-se, pretendia defender.

Com pequenas adaptações regionais, os receptores de órgãos de cadáver são selecionados, transparentemente, segundo a compatibilidade sangüínea (ABO) e o tempo de permanência na lista de espera.
Adicionalmente, outros critérios são observados, tais como compatibilidade genética (HLA), condições clínicas, faixa etária e, quando a estrutura pública não estiver prontamente capacitada para praticar o transplante, suporte financeiro para realizá-lo em entidades privadas.  Enquanto valores sociais e éticos proíbem a venda de órgãos, o exercício liberal da medicina pode e deve contribuir para a realização de mais transplantes e, ao que consta, os transplantes daquele dia no Hospital Sírio Libanês representaram a única possibilidade de aproveitamento dos órgãos.

O transplante é uma terapêutica salvadora, mas sofisticada e dispendiosa, que requer estrutura hospitalar complexa, profissionais experientes e doação de órgãos.  No Brasil, infelizmente, o serviço público ainda não está habilitado para realizar todos os transplantes necessários, a maioria dos médicos transplantadores se move por idealismo e interesse científico e a presente disponibilidade de doações não vence a demanda reprimida nas listas de espera.

A nova legislação, que torna doador presumível qualquer cidadão em morte cerebral, excetuando aqueles com prévia manifestação em contrário, é um instrumento necessário à ampliação do universo de pacientes beneficiados com o método, mas é apenas um instrumento. É preciso garantir recursos, meios e fórmulas para torná-la humana, democrática e eficaz.  Esse esforço exige a crítica participação da imprensa divulgando, informando e cobrando mais e melhores providências. Os desvios eventuais devem preocupar a sociedade, incluindo a imprensa e seus integrantes.  Mas, em tais casos, o jornalismo-investigativo contribuirá bem mais do que a prática primitiva do jornalismo-denúncia.

Dr. Istênio F. Pascoal é nefrologista em Brasília, DF.
Um leitor, do Recife - PE, que foi transplantado há alguns anos, envia sua opinião à respeito dos artigos expostos acima:

O jornalista Elio Gaspari poderia ter criticado a sistemática adotada para os transplantes sem ter personificado sua cólera. Ainda assim teria o dever de conhecer profundamente esta sistemática, sob pena de ter que aceitar LISAMENTE as primeiras impressões (quase sempre as que ficam e no mais das vezes carregadas de equívocos). O artigo do Dr. Istênio F. Pascoal é preciso, pois questiona esta personificação comprovadamente injusta e inexplicável e demonstra com objetividade as regras preestabelecidas para os transplantes no Estado de São Paulo que, certas ou erradas, não podem ser dedicadas a uma só pessoa.

Este não é o primeiro caso, nem será o último, em que nos deparamos com a ditadura da imprensa.  Não creio em má informação. O Jornalista não é tão jovem, de sorte que não cabe a desculpa da "razâo da idade", como diria Nelson Rodrigues. Dedico a personificação, injusta e inexplicável, à busca delirante pelo denuncismo fácil ou a razões eminentemente pessoais.

Muito embora os "envolvidos" no episódio, principalmente o Dr.Elias, tenham sentido, no mais íntimo, a dor desta "falsa reportagem" (com conseqüências para o resto das suas vidas) - dificilmente um processo judicial por DANO MORAL lograria êxito, pois impressões deste naipe quase sempre vêm disfarçadas com nuances semânticas que impedem a comprovação objetiva da ofensa.

Todavia, é preciso lutar com todas as ferramentas em busca do restabelecimento da verdade e esperar com toda ânsia o dia em que a imprensa supere esta fase do denuncismo irresponsável (antítese da não menos daninha e perversa fase da censura) e possa praticar um jornalismo verdadeiro.
Atenciosamente,

Válter Sandi O. Costa
Recife, PE
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