MÍDIA
& MÉDICOS
Na
polêmica entre o jornalista Elio Gaspari e o médico Elias
David-Neto, Med On Line solicitou
ao Dr. Istênio Pascoal que comentasse os artigos publicados na grande
imprensa. Dr. Istênio é um nefrologista do Distrito
Federal. Antes, porém, da leitura de seu artigo, entenda os fatos:
1: O Inicio: Doutor Elias,
o privatista dos transplantes
ELIO GASPARI
Aconteceu o impensável.
Dois rins tirados de um cadáver pela rede pública de captação
de órgãos foram transplantados em dois doentes dos serviços
de medicina privada.... ( Para ler o artigo completo clique aqui
)
2: Resposta :Transplantes
de órgãos: os fatos
ELIAS DAVID-NETO
Interessante, porém
infundado, o artigo publicado ontem nesta Folha pelo jornalista Elio Gaspari,
sobre o que ele denominou a privatização dos transplantes...
( Para ler o artigo completo, clique aqui)
3: Contra-resposta: Doutor
Elias, arrume um plantão no Carnaval
ELIO GASPARI
O doutor Elias David
Neto, do serviço de transplantes de rins do Hospital das Clínicas
(R$ 3 mil cada) deu-se às letras...
( Para ler o artigo completo,
clique aqui )
Exclusivo para Med
On Line:
Como
eu entendi os fatos
ISTÊNIO
F. PASCOAL
Este não é um
artigo sobre os melhores momentos da imprensa brasileira e suas irretocáveis
páginas de coragem e independência. Nem é um artigo
sobre a complexa realidade da transplantação de órgãos
e sua recente regulação no Brasil.
A história do nosso
jornalismo é composta de muitas passagens brilhantes e a dos transplantes
se inscreve entre as mais sublimes do exercício da medicina. Mas,
há práticas que podem eventualmente desmerecê-las.
Foi o que se deu esta semana e é disso que trataremos aqui.
Comecemos por uma dimensão
conceitual: é relevante personalizar um debate coletivo? No caso
dos transplantes de rins realizados no último dia 25 de dezembro
no Hospital Sírio-Libanês, o nome do Dr. Elias David Neto
foi presentado como beneficiário de uma ampla conspiração.
Acusaram-no de ter realizado
indevidamente os transplantes em dois pacientes privados, quando os órgãos
caberiam a hospitais públicos.
Embora sabendo-se que tais
órgãos, removidos de cadáver, haviam sido previamente
oferecidos a três dezenas de hospitais, públicos e privados,
segundo critérios oficialmente adotados e conhecidos, a identificação
do Dr. Elias como integrante de duas equipes de transplantes - uma pública,
entre as que não fizeram os transplantes (HC-USP); outra privada,
que os realizou (Sírio) - foi suficiente para a presunção
de que se evitara os transplantes no hospital público com o objetivo
de realizá-los no serviço privado ("No caso do doutor
Elias a inépcia do Estado e a eficácia do mercado coabitam
na mesma pessoa. Maravilhosa síntese das virtudes privadas e das
deficiências públicas.")
Em sua coluna de 14/01 o
renomado jornalista Elio Gaspari (O Globo, Folha de São Paulo, Zero
Hora, etc, etc, etc.) surpreende pelo excesso de deduções.
Ao repercutir o fato, inicia por registrar como fonte de suas convicções
algumas informações previamente publicadas na imprensa ("Aceitando-se
lisamente todas as versões..."). Deixando de ouvir antecipadamente
as razões do médico a quem acusaria, atentou contra a mais
singela regra do bom jornalismo. Não bastasse esse descuido, Elio
Gaspari também deixou de se esclarecer junto à Central de
Transplantes da Secretaria
de Saúde do Estado de São Paulo - entidade que teve a incumbência
de distribuir os rins. Com sua reconhecida habilidade para farejar
escândalos, o jornalista atirou em um personagem mas, esgraçadamente
atingiu em cheio a causa (dos transplantes de órgãos) que,
conceda-se, pretendia defender.
Com pequenas adaptações
regionais, os receptores de órgãos de cadáver são
selecionados, transparentemente, segundo a compatibilidade sangüínea
(ABO) e o tempo de permanência na lista de espera.
Adicionalmente, outros critérios
são observados, tais como compatibilidade genética (HLA),
condições clínicas, faixa etária e, quando
a estrutura pública não estiver prontamente capacitada para
praticar o transplante, suporte financeiro para realizá-lo em entidades
privadas. Enquanto valores sociais e éticos proíbem
a venda de órgãos, o exercício liberal da medicina
pode e deve contribuir para a realização de mais transplantes
e, ao que consta, os transplantes daquele dia no Hospital Sírio
Libanês representaram a única possibilidade de aproveitamento
dos órgãos.
O transplante é uma
terapêutica salvadora, mas sofisticada e dispendiosa, que requer
estrutura hospitalar complexa, profissionais experientes e doação
de órgãos. No Brasil, infelizmente, o serviço
público ainda não está habilitado para realizar todos
os transplantes necessários, a maioria dos médicos transplantadores
se move por idealismo e interesse científico e a presente disponibilidade
de doações não vence a demanda reprimida nas listas
de espera.
A nova legislação,
que torna doador presumível qualquer cidadão em morte cerebral,
excetuando aqueles com prévia manifestação em contrário,
é um instrumento necessário à ampliação
do universo de pacientes beneficiados com o método, mas é
apenas um instrumento. É preciso garantir recursos, meios e fórmulas
para torná-la humana, democrática e eficaz. Esse esforço
exige a crítica participação da imprensa divulgando,
informando e cobrando mais e melhores providências. Os desvios eventuais
devem preocupar a sociedade, incluindo a imprensa e seus integrantes.
Mas, em tais casos, o jornalismo-investigativo contribuirá bem mais
do que a prática primitiva do jornalismo-denúncia.
Dr. Istênio
F. Pascoal é nefrologista em Brasília, DF.
Um leitor, do Recife - PE,
que foi transplantado há alguns anos, envia sua opinião à
respeito dos artigos expostos acima:
O jornalista Elio Gaspari
poderia ter criticado a sistemática adotada para os transplantes
sem ter personificado sua cólera. Ainda assim teria o dever de conhecer
profundamente esta sistemática, sob pena de ter que aceitar LISAMENTE
as primeiras impressões (quase sempre as que ficam e no mais das
vezes carregadas de equívocos). O artigo do Dr. Istênio F.
Pascoal é preciso, pois questiona esta personificação
comprovadamente injusta e inexplicável e demonstra com objetividade
as regras preestabelecidas para os transplantes no Estado de São
Paulo que, certas ou erradas, não podem ser dedicadas a uma só
pessoa.
Este não é
o primeiro caso, nem será o último, em que nos deparamos
com a ditadura da imprensa. Não creio em má informação.
O Jornalista não é tão jovem, de sorte que não
cabe a desculpa da "razâo da idade", como diria Nelson Rodrigues.
Dedico a personificação, injusta e inexplicável, à
busca delirante pelo denuncismo fácil ou a razões eminentemente
pessoais.
Muito embora os "envolvidos"
no episódio, principalmente o Dr.Elias, tenham sentido, no mais
íntimo, a dor desta "falsa reportagem" (com conseqüências
para o resto das suas vidas) - dificilmente um processo judicial por DANO
MORAL lograria êxito, pois impressões deste naipe quase sempre
vêm disfarçadas com nuances semânticas que impedem a
comprovação objetiva da ofensa.
Todavia, é preciso
lutar com todas as ferramentas em busca do restabelecimento da verdade
e esperar com toda ânsia o dia em que a imprensa supere esta fase
do denuncismo irresponsável (antítese da não menos
daninha e perversa fase da censura) e possa praticar um jornalismo verdadeiro.
Atenciosamente,
Válter
Sandi O. Costa
Recife, PE
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