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Volume 1- Número 1- Ano I (Jan/Fev/Mar de 1998)

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Especialização pode substituir a residência médica na formação do especialista? 

Dr. José Roberto Coelho da Rocha
Ex-Professor Assistente da Universidade
Federal do Rio de Janeiro-RJ
Responsável pelo Curso de
Especialização em Nefrologia do
Instituto de Pós-Graduação Médica
Carlos Chagas e Chefe do Serviço de
Nefrologia do Hospital da Beneficência
Portuguesa do Rio de Janeiro-RJ
O grande escritor português, Luís de Camões, tem um verso que assim começa: “Estava a linda Inês posta em sossego...” Utilizo-me desta licença poética  para iniciar este texto como uma homenagem ao nosso poeta-mór da era eletrônica, Sebastião, pois só ele, com seu comovente esforço de produzir uma home-page atual e moderna poderia me tirar do sossego de não mais discutir a Pós-Graduação ( PG ) no âmbito da nossa Nefrologia.

Mas, vencido, vou tentar aqui resumir o que penso sobre o assunto, no estilo carioca-livre.. Antes de tudo, é preciso entender o Rio de Janeiro, cidade livre, bonita e complexa, como todos vocês sabem. Arnold Toynbee, pensador contemporâneo, dizia que o Brazil é o “melting pot of civilizations”, o cadinho das misturas raciais e políticas, que também pode ser traduzido, livremente, como “uma grande confusão”. O Rio, mais que qualquer outra de nossas cidades, por ter sido capital ( lembram-se ? ), se enquadrava como uma luva nesta definição,  gozando  das benesses e sofrendo os inconvenientes deste malfadado título.

Nas décadas de 50-60, possuia o Rio uma Medicina fortíssima, tanto clínica quanto cirúrgica, mas com um grande defeito: baseada em enormes hospitais públicos, os maiores do país, geridos por variados institutos de previdência, como IAPETC, Bancários, Servidores do Estado e outros. Tal era a fama destes hospitais que só se era reconhecido como um grande médico se fosse funcionário público.

Eram bons hospitais, muito ativos e geralmente bem administrados, por serem corporativistas. Anos mais tarde, foram todos unificados pelo INAMPS, tornando-se monstros políticos inadministráveis...

Por outro lado, o Hospital Universitário era a Santa Casa da Misericórdia, onde funcionava quase toda a UFRJ, assim como a UEG ( hoje UERJ ). As enfermarias eram vitalícias ( e ainda o são ), eram dirigidas por “déspotas esclarecidos”, os grandes professores, homens de imenso saber, porem vaidosos e que imprimiam, aos seus cursos, os seus caprichos pessoais, como era comum, na época.

Como aluno da UEG, mudei-me para o novo hospital universitário Hospital Pedro Ernesto, criado, se não me engano por Carlos Lacerda, nos últimos anos da faculdade. Curioso da Nefrologia, nunca soube bem por que ( matéria nova no pedaço..) procurava participar dos casos renais de minha enfermaria, mas havia um grande mistério, na  realização de biópsias e diálises, quase um bloqueio, conduzido pelos assistentes do Prof. Jayme Landmann, pontificando Aloysio Amancio, figura extraordinária, de quem mais tarde aprendi a gostar e que nos deixou muito cedo...

Terminado o curso, por milagre divino, passei no famigerado ECFMG, e fui para os EUA, lá ficando muitos anos, e tendo a oportunidade única de entender o real valor da residência médica, a necessidade do ensino organizado, por etapas, tudo com fortes tinturas democráticas, onde o personagem mais importante era o paciente e, em seguida o residente...

De volta, já em 1973, criei o programa de Residência em Nefrologia na Beneficência Portuguesa, quando ainda não era regulamentado pela CNRM.. Bons tempos... Nossos residentes recebiam bolsas, treinamento adequado e vinham de todo o Brasil.

Entra a CNRM, da época, exigente de direitos, greves, days-off, e outras coisitas mais, e meu hospital decidiu, por não concordar com estas atividades ( e eu também ), suspender as residências, que já existiam em várias especialidades. Os residentes, na época eram politicamente orientados ( ditadura ainda, mind you ), o que compreendo perfeitamente, mas confundiam treinamento com atividade política permanente, defesa de “direitos”, coisa complicada, em um hospital privado e rico, que os tratava muito bem.. Curiosamente, no Jornal do CREMERJ de Dezembro de 97, tantos anos depois, encontro uma entrevista do Assessor Jurídico do CREMERJ, onde leio, para meu gáudio, que “residentes não tem contrato de trabalho e portanto não podem fazer greve, e que os tribunais têm sido desfavoráveis às greves”. Ponto para mim....

Entra o MEC, via CFE, pela resolução 14 em 1977, que regulamenta os Cursos de Pós Graduação, tanto sensu strictu ( mestrado, doutorado ) como os de sensu lato ( especialização ), criando, na verdade uma alternativa, embora não intencionalmente, no ramo da Medicina, para a residência médica,.. A Fundação Getúlio Vargas, sob o comando de Mário Henrique Simonsen, imediatamente lança  seus cursos de PG, famosos até hoje. A PUC cria seus curso também, inclusive os de Medicina, pois todo mundo queria fugir da CNRM.

Aderem o Prof. Jesse Teixeira, o maior nome da Cirurgia Torácica, o Prof. Antonio Luis Medina, da Cirurgia Vascular e muitos outros. A Escola de Pós Graduação Carlos Chagas, criada, entre outros pelo magnífico Mário Miranda, com quem eu trabalhava, muda o nome para Instituto de Pós Graduação Médica Carlos Chagas e o Prof. Benjamin Albagli, já falecido, me convida para dirigir um Curso de Nefrologia. Pondero ao Professor que, embora me sentindo capacitado, não possuia os títulos de Mestrado ou Doutorado, necessários, pela Resolução 14, para administrar este curso. Albagli insiste que a resolução contempla  esta possibilidade, rezando que aqueles que possuam “notório saber”, após julgamento do CFE, poderiam exercer o Curso... Relutantemente, submeto meu currículo ao CFE e 8 meses depois, para minha alegria, vejo publicado no DOU que o CFE julgou meus títulos considerando-me apto com Professor de PG sensu lato, pela primeira vez no Brasil....Estou em boa companhia, com Omar da Rosa Santos, por exemplo ou os Profs. Ivo Pitangui e Stans Murad Netto.....

Na época, Prof. Assistente da UFRJ por concurso público federal procurei o Prof. José Augusto Aguiar e o informei que iria pedir demissão de meu cargo, pois não gostava das minhas atividades na UFRJ e tinha o sonho de criar um curso livre e moderno na Beneficência... Após muitas demarches, embora triste por abandonar aquela Universidade onde fiz vários amigos, consegui me demitir da Universidade e montei meu Curso, em 1981, procurando sempre me moldar às necessidades da SBN.

A regulamentação é realizada pelo IPGM Carlos Chagas, sob fiscalização do MEC. A montagem é complicada, com exigências de ementário, biblioteca, bibliografia, espaço físico adequado, professores titulados ( Mestres ou Doutores ), tudo devidamente submetido ao Instituto e ao MEC.

Os Institutos de Pós Graduação cobram taxa de matrícula e mensalidade, modestas, a título de administração e remuneração dos professores. No nosso Curso, nunca cobramos a taxa de remuneração, pagando os alunos somente a pequena taxa administrativa.

O Curso é de 2 anos, com um ano de “fellowship” opcional (Pesquisa Clínica ),tudo em tempo integral, e ao final do Curso, para receber o diploma, o aluno tem que entregar uma monografia.

Além de não remunerarem os professores, todos os alunos recebem bolsas, alimentação e tratamento médico. Formamos, no Curso, dezenas de colegas, distribuídos  por todo o Brasil, Equador, Bolívia e Espanha.. Participamos de todos os Congressos, inúmeras Jornadas e Simpósios com material colhido no Serviço...Um esforço que a SBN nunca reconheceu, apesar de nossas cartas, pedidos e informações....

Sempre abrimos 3 vagas para o 1º  ano, tendo um máximo de 9 alunos, 3 no primeiro, 3 no segundo e 3 no opcional.. Esquema de residência, das boas, com visitas diárias, sessões clínicas, clube de revista, reuniões de diálise.. Para satisfazer a SBN, como transplantamos pouco, fizemos convênio formal com a UERJ e informal com a USP, e todos nossos alunos estagiaram, para transplante, nestas Instituições..

Vários alunos fizeram Mestrado, especialmente na UERJ e UFRJ,  e alguns Doutorado, procurando seguir uma carreira didática. A filosofia básica do Curso de PG sensu lato, para quem não sabe, é a formação de Especialistas, sem competir com os Cursos sensu strictu, orientados para o ensino.

Os pilares do Curso são meus colegas de hospital, Tânia Brandão Rios, Ronaldo de Castro Borges e Ana Carla S. de Souza, mas vários outros colegas do Rio participaram, com aulas, palestras ou visitas. Durante muitos anos, convidamos  colegas para passar um dia no Serviço, por escolha dos alunos, para que estes pudessem ouvir outras opiniões e conhecer outras condutas.. Nestes dias, sem a minha presença os ilustres visitantes podiam discutir, palestrar, discordar, à vontade, uma espécie de Free University, à la JR... Vou voltar a fazer, pois é muito bom, para todos...

Há 3 anos, por problemas financeiros do Hospital, suspendemos o Curso, pois com condições precárias no Serviço, não podíamos oferecer vagas aos jovens colegas. Agora, em 98, com o hospital e o Serviço em condições, estamos oferecendo 3 vagas para o 1º ano...

Não sei dizer se os Cursos de PG vão substituir as residências.. Provavelmente não, e não há interesse nisto. Quanto mais vagas, mais treinamento, melhor. Posso assegurar que, pelo menos no Rio, os Cursos de PG , que existem para todas as especialidades médicas, fazem o maior sucesso, sempre procurados pelos recem-formados, pois o número de vagas para residências reduziu-se substancialmente com o declínio dos grandes hospitais do antigo INAMPS.

Eis aí, Sebastião, um pequeno histórico, seguramente com algumas injustiças e imperfeições, pois baseada exclusivamente na minha já enfraquecida memória.. Espero que sirva para encorajar outros a experimentarem o fascínio de dirigir seu próprio Curso, pois muitos que passarão pela sua Home-Page estão capacitados e a nossa Nefrologia carece de oportunidades para os jovens formandos....

Eu, de minha parte, satisfeito, já penso em abrir um Curso de PG de Medicina Interna, pois, pelo menos a Sociedade Brasileira de Clínica Médica, da qual também sou membro efetivo e fundador, já desceu do Olimpo e reconhece e incentiva estes Cursos...Parabéns para ela....



Comentários recebidos sobre este artigo
  • José Roberto, Parabéns pelo histórico. No Pedro Ernesto, onde fui o primeiro residente de Nefrologia (Fred tinha ido para os EE.UU.) o Catão fechava as portas durante as HD. Vi algumas, graças a querida LILI. Um abraço do

  • Michel

  • Para nos que somos nefrologistas no interior e temos dificuldades de se deslocar para os grandes centros pela longa distancia a sua home page e muito importante em todos os sentidos. Fiquei feliz em ler o artigo do Dr. José Roberto. Fiz minha pg nos idos de 83 -84 na Beficiência e sou muito grato pela excelente formação que recebi.

  • Parabéns Dr. Sebastião.
    Luiz Eduardo Ramos, Nefrologista em Dourados-MS

  • Mensagem para o Dr. José Roberto Coelho da Rocha:

  • Meu caro José Roberto, você decerto não deve se lembrar deste seu
    ex-discípulo informal do ambulatório de nefrologia do HU da UFRJ, lá
    pelos idos de 1979-1980, onde tive o privilégio de iniciar-me no
    aprendizado da pouca clínica e nefrologia que hoje sei; queria lhe
    mandar um abraço saudoso, e dizer que você já fundou este curso de
    excelência de PG em medicina interna avant la lettre, e pode não estar
    se dando conta!
    Desejo continuação do seu sucesso! ( Roberto German - internista )

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