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Especialização
pode substituir a residência médica na formação
do especialista?
Dr. José Roberto Coelho
da Rocha
Ex-Professor Assistente da Universidade
Federal do Rio de Janeiro-RJ
Responsável pelo Curso
de
Especialização
em Nefrologia do
Instituto de Pós-Graduação
Médica
Carlos Chagas e Chefe do Serviço
de
Nefrologia do Hospital da Beneficência
Portuguesa do Rio de Janeiro-RJ
O grande escritor português,
Luís de Camões, tem um verso que assim começa: “Estava
a linda Inês posta em sossego...” Utilizo-me desta licença
poética para iniciar este texto como uma homenagem ao nosso
poeta-mór da era eletrônica, Sebastião, pois só
ele, com seu comovente esforço de produzir uma home-page atual e
moderna poderia me tirar do sossego de não mais discutir a Pós-Graduação
( PG ) no âmbito da nossa Nefrologia.
Mas, vencido, vou tentar
aqui resumir o que penso sobre o assunto, no estilo carioca-livre.. Antes
de tudo, é preciso entender o Rio de Janeiro, cidade livre, bonita
e complexa, como todos vocês sabem. Arnold Toynbee, pensador contemporâneo,
dizia que o Brazil é o “melting pot of civilizations”, o cadinho
das misturas raciais e políticas, que também pode ser traduzido,
livremente, como “uma grande confusão”. O Rio, mais que qualquer
outra de nossas cidades, por ter sido capital ( lembram-se ? ), se enquadrava
como uma luva nesta definição, gozando das benesses
e sofrendo os inconvenientes deste malfadado título.
Nas décadas de 50-60,
possuia o Rio uma Medicina fortíssima, tanto clínica quanto
cirúrgica, mas com um grande defeito: baseada em enormes hospitais
públicos, os maiores do país, geridos por variados institutos
de previdência, como IAPETC, Bancários, Servidores do Estado
e outros. Tal era a fama destes hospitais que só se era reconhecido
como um grande médico se fosse funcionário público.
Eram bons hospitais, muito
ativos e geralmente bem administrados, por serem corporativistas. Anos
mais tarde, foram todos unificados pelo INAMPS, tornando-se monstros políticos
inadministráveis...
Por outro lado, o Hospital
Universitário era a Santa Casa da Misericórdia, onde funcionava
quase toda a UFRJ, assim como a UEG ( hoje UERJ ). As enfermarias eram
vitalícias ( e ainda o são ), eram dirigidas por “déspotas
esclarecidos”, os grandes professores, homens de imenso saber, porem vaidosos
e que imprimiam, aos seus cursos, os seus caprichos pessoais, como era
comum, na época.
Como aluno da UEG, mudei-me
para o novo hospital universitário Hospital Pedro Ernesto, criado,
se não me engano por Carlos Lacerda, nos últimos anos da
faculdade. Curioso da Nefrologia, nunca soube bem por que ( matéria
nova no pedaço..) procurava participar dos casos renais de minha
enfermaria, mas havia um grande mistério, na realização
de biópsias e diálises, quase um bloqueio, conduzido pelos
assistentes do Prof. Jayme Landmann, pontificando Aloysio Amancio, figura
extraordinária, de quem mais tarde aprendi a gostar e que nos deixou
muito cedo...
Terminado o curso, por milagre
divino, passei no famigerado ECFMG, e fui para os EUA, lá ficando
muitos anos, e tendo a oportunidade única de entender o real valor
da residência médica, a necessidade do ensino organizado,
por etapas, tudo com fortes tinturas democráticas, onde o personagem
mais importante era o paciente e, em seguida o residente...
De volta, já em 1973,
criei o programa de Residência em Nefrologia na Beneficência
Portuguesa, quando ainda não era regulamentado pela CNRM.. Bons
tempos... Nossos residentes recebiam bolsas, treinamento adequado e vinham
de todo o Brasil.
Entra a CNRM, da época,
exigente de direitos, greves, days-off, e outras coisitas mais, e meu hospital
decidiu, por não concordar com estas atividades ( e eu também
), suspender as residências, que já existiam em várias
especialidades. Os residentes, na época eram politicamente orientados
( ditadura ainda, mind you ), o que compreendo perfeitamente, mas confundiam
treinamento com atividade política permanente, defesa de “direitos”,
coisa complicada, em um hospital privado e rico, que os tratava muito bem..
Curiosamente, no Jornal do CREMERJ de Dezembro de 97, tantos anos depois,
encontro uma entrevista do Assessor Jurídico do CREMERJ, onde leio,
para meu gáudio, que “residentes não tem contrato de trabalho
e portanto não podem fazer greve, e que os tribunais têm sido
desfavoráveis às greves”. Ponto para mim....
Entra o MEC, via CFE, pela
resolução 14 em 1977, que regulamenta os Cursos de Pós
Graduação, tanto sensu strictu ( mestrado, doutorado ) como
os de sensu lato ( especialização ), criando, na verdade
uma alternativa, embora não intencionalmente, no ramo da Medicina,
para a residência médica,.. A Fundação Getúlio
Vargas, sob o comando de Mário Henrique Simonsen, imediatamente
lança seus cursos de PG, famosos até hoje. A PUC cria
seus curso também, inclusive os de Medicina, pois todo mundo queria
fugir da CNRM.
Aderem o Prof. Jesse Teixeira,
o maior nome da Cirurgia Torácica, o Prof. Antonio Luis Medina,
da Cirurgia Vascular e muitos outros. A Escola de Pós Graduação
Carlos Chagas, criada, entre outros pelo magnífico Mário
Miranda, com quem eu trabalhava, muda o nome para Instituto de Pós
Graduação Médica Carlos Chagas e o Prof. Benjamin
Albagli, já falecido, me convida para dirigir um Curso de Nefrologia.
Pondero ao Professor que, embora me sentindo capacitado, não possuia
os títulos de Mestrado ou Doutorado, necessários, pela Resolução
14, para administrar este curso. Albagli insiste que a resolução
contempla esta possibilidade, rezando que aqueles que possuam “notório
saber”, após julgamento do CFE, poderiam exercer o Curso... Relutantemente,
submeto meu currículo ao CFE e 8 meses depois, para minha alegria,
vejo publicado no DOU que o CFE julgou meus títulos considerando-me
apto com Professor de PG sensu lato, pela primeira vez no Brasil....Estou
em boa companhia, com Omar da Rosa Santos, por exemplo ou os Profs. Ivo
Pitangui e Stans Murad Netto.....
Na época, Prof. Assistente
da UFRJ por concurso público federal procurei o Prof. José
Augusto Aguiar e o informei que iria pedir demissão de meu cargo,
pois não gostava das minhas atividades na UFRJ e tinha o sonho de
criar um curso livre e moderno na Beneficência... Após muitas
demarches, embora triste por abandonar aquela Universidade onde fiz vários
amigos, consegui me demitir da Universidade e montei meu Curso, em 1981,
procurando sempre me moldar às necessidades da SBN.
A regulamentação
é realizada pelo IPGM Carlos Chagas, sob fiscalização
do MEC. A montagem é complicada, com exigências de ementário,
biblioteca, bibliografia, espaço físico adequado, professores
titulados ( Mestres ou Doutores ), tudo devidamente submetido ao Instituto
e ao MEC.
Os Institutos de Pós
Graduação cobram taxa de matrícula e mensalidade,
modestas, a título de administração e remuneração
dos professores. No nosso Curso, nunca cobramos a taxa de remuneração,
pagando os alunos somente a pequena taxa administrativa.
O Curso é de 2 anos,
com um ano de “fellowship” opcional (Pesquisa Clínica ),tudo em
tempo integral, e ao final do Curso, para receber o diploma, o aluno tem
que entregar uma monografia.
Além de não
remunerarem os professores, todos os alunos recebem bolsas, alimentação
e tratamento médico. Formamos, no Curso, dezenas de colegas, distribuídos
por todo o Brasil, Equador, Bolívia e Espanha.. Participamos de
todos os Congressos, inúmeras Jornadas e Simpósios com material
colhido no Serviço...Um esforço que a SBN nunca reconheceu,
apesar de nossas cartas, pedidos e informações....
Sempre abrimos 3 vagas para
o 1º ano, tendo um máximo de 9 alunos, 3 no primeiro,
3 no segundo e 3 no opcional.. Esquema de residência, das boas, com
visitas diárias, sessões clínicas, clube de revista,
reuniões de diálise.. Para satisfazer a SBN, como transplantamos
pouco, fizemos convênio formal com a UERJ e informal com a USP, e
todos nossos alunos estagiaram, para transplante, nestas Instituições..
Vários alunos fizeram
Mestrado, especialmente na UERJ e UFRJ, e alguns Doutorado, procurando
seguir uma carreira didática. A filosofia básica do Curso
de PG sensu lato, para quem não sabe, é a formação
de Especialistas, sem competir com os Cursos sensu strictu, orientados
para o ensino.
Os pilares do Curso são
meus colegas de hospital, Tânia Brandão Rios, Ronaldo de Castro
Borges e Ana Carla S. de Souza, mas vários outros colegas do Rio
participaram, com aulas, palestras ou visitas. Durante muitos anos, convidamos
colegas para passar um dia no Serviço, por escolha dos alunos, para
que estes pudessem ouvir outras opiniões e conhecer outras condutas..
Nestes dias, sem a minha presença os ilustres visitantes podiam
discutir, palestrar, discordar, à vontade, uma espécie de
Free University, à la JR... Vou voltar a fazer, pois é muito
bom, para todos...
Há 3 anos, por problemas
financeiros do Hospital, suspendemos o Curso, pois com condições
precárias no Serviço, não podíamos oferecer
vagas aos jovens colegas. Agora, em 98, com o hospital e o Serviço
em condições, estamos oferecendo 3 vagas para o 1º ano...
Não sei dizer se os
Cursos de PG vão substituir as residências.. Provavelmente
não, e não há interesse nisto. Quanto mais vagas,
mais treinamento, melhor. Posso assegurar que, pelo menos no Rio, os Cursos
de PG , que existem para todas as especialidades médicas, fazem
o maior sucesso, sempre procurados pelos recem-formados, pois o número
de vagas para residências reduziu-se substancialmente com o declínio
dos grandes hospitais do antigo INAMPS.
Eis aí, Sebastião,
um pequeno histórico, seguramente com algumas injustiças
e imperfeições, pois baseada exclusivamente na minha já
enfraquecida memória.. Espero que sirva para encorajar outros a
experimentarem o fascínio de dirigir seu próprio Curso, pois
muitos que passarão pela sua Home-Page estão capacitados
e a nossa Nefrologia carece de oportunidades para os jovens formandos....
Eu, de minha parte, satisfeito,
já penso em abrir um Curso de PG de Medicina Interna, pois, pelo
menos a Sociedade Brasileira de Clínica Médica, da qual também
sou membro efetivo e fundador, já desceu do Olimpo e reconhece e
incentiva estes Cursos...Parabéns para ela....
Comentários
recebidos sobre este artigo
-
José Roberto, Parabéns pelo histórico. No Pedro Ernesto,
onde fui o primeiro residente de Nefrologia (Fred tinha ido para os EE.UU.)
o Catão fechava as portas durante as HD. Vi algumas, graças
a querida LILI. Um abraço do
Michel
-
Para nos que somos nefrologistas no interior e temos dificuldades de se
deslocar para os grandes centros pela longa distancia a sua home page e
muito importante em todos os sentidos. Fiquei feliz em ler o artigo do
Dr. José Roberto. Fiz minha pg nos idos de 83 -84 na Beficiência
e
sou muito grato pela excelente formação que recebi.
Parabéns
Dr. Sebastião.
Luiz
Eduardo Ramos, Nefrologista em Dourados-MS
-
Mensagem
para o Dr. José Roberto Coelho da Rocha:
Meu caro José
Roberto, você decerto não deve se lembrar deste seu
ex-discípulo informal
do ambulatório de nefrologia do HU da UFRJ, lá
pelos idos de 1979-1980,
onde tive o privilégio de iniciar-me no
aprendizado da pouca
clínica e nefrologia que hoje sei; queria lhe
mandar um abraço
saudoso, e dizer que você já fundou este curso de
excelência de PG
em medicina interna avant la lettre, e pode não estar
se dando conta!
Desejo continuação
do seu sucesso! ( Roberto German - internista )
Digite
aqui sua sugestão para o FORUM.
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