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Litotripsia
Extracorpórea por Ondas de Choque (LECO)
José
Augusto Meneses da Silva
Introdução
O tratamento dos cálculos renais e das vias urinárias sofreu
mudanças consideráveis desde a Antigüidade até
os dias de hoje. Na Idade Média, o tratamento de retirada dos cálculos
era realizado de forma cruenta e agressiva, com índice de morbidade
e mortalidade muito elevados. (1)
Mais recentemente, foram desenvolvidas cirurgias abertas com técnicas
mais modernas, diminuindo acentuadamente o sofrimento do paciente calculoso.
A partir de 1955, o acesso renal por via percutânea, realizado inicialmente
por Goodwin & Cols, (2) foi evoluindo até o final da década
de 70, quando novos instrumentos foram desenvolvidos e introduzidos no
tratamento dos cálculos renais. Essa nova técnica apresentava
grandes vantagens em relação à cirurgia aberta, estendendo
suas indicações para cálculos mais complexos e localizados
em diversos locais da via excretora. (3)
Após 1980, uma nova e revolucionária modalidade terapêutica
para os cálculos urinários foi desenvolvida na Alemanha,
por Chaussy & Cols, (4) com o nome de Litotripsia Extracorpórea
por Ondas de Choque (LECO). As vantagens desse novo tratamento são
inúmeras, destacando-se entre elas: 1. Não necessidade cirúrgica;
2. Tratamento ambulatorial; 3. Redução acentuada da morbidade;
4. Recuperação rápida dos pacientes. (5) Por
essas razões, esse novo método difundiu-se com grande aceitação
e utilização pela comunidade médica de todo o mundo.
Histórico
As primeiras investigações "in vitro" sobre o
uso de ondas de choque no tratamento de cálculos renais iniciaram-se
em 1972, na Ludwig Maximillian Universität, Departamento de Urologia,
em Munique (Alemanha).
Essas pesquisas iniciais receberam o apoio da Dornier Medical Systems(6)
Em 1980, foi realizado o primeiro tratamento clínico em Munique,
com o aparelho HM1 (Human Model 1). Até 1982, foram tratados duzentos
pacientes portadores de cálculos renais, 80% dos quais se localizavam
na pelve e 20% nos cálices renais, sendo todos menores do que 10
mm de diâmetro. (5)
De maio de
1982 até outubro de 1983, foram tratados mais oitocentos pacientes,
já na máquina HM2 (Human Model 2). Nesses pacientes, já
foram fragmentados cálculos até 25 mm de diâmetro,
cálculos infectados, coraliformes parciais e casos selecionados
de cálculos ureterais. (5)
Em outubro de 1983, foi desenvolvido outro modelo de litotritor HM3, com
início da produção em série. Nessa época,
já se tratavam cálculos coraliformes totais em associação
com cirurgias percutâneas.
A Food and Drug Administration (FDA) aprovou em dezembro de 1984, o aparelho
HM3 da Dornier, para uso experimental nos Estados Unidos em seis centros
médicos. (5)
A partir dessa data, um grande número de centros médicos
em o todo mundo adotou essa nova modalidade de tratamento de cálculo
renal.
No Brasil, a Litotripsia Extracorpórea iniciou-se em Salvador,
em 1986, no Hospital San Raphael, com o aparelho da Wolf.
Princípios Físicos
A Litotripsia Extracorpórea por Ondas de Choque baseia-se na geração,
concentração e focalização à distância
das ondas de choque. O fenômeno físico que ocasiona a fragmentação
do cálculo é a rápida formação de um
gradiente de pressão quando as ondas de choque concentradas e focalizadas
encontram sólidos de diferentes propriedades acústicas.
O fluido onde essas ondas são geradas e a maioria dos tecidos corporais,
apresentam propriedades acústicas semelhantes: dessa forma, as
ondas de choque atravessam esses tecidos com um mínimo de perda
de energia. O efeito destrutivo ocorre quando essas ondas encontram, na
área focal, materiais de diferentes propriedades acústicas,
tais como o cálculo renal. Nesse momento, é criada uma força
de tensão que poderá exceder a força coesiva do cálculo,
iniciando-se a sua fragmentação. (7,8,9,10,11)
Equipamentos
Para a realização da Litotripsia Extracorpórea por
Ondas de Choque, os equipamentos devem ter nescessariamente os seguintes
componentes:
1. fonte geradora de ondas de choque
2. focalizador das ondas de choque
3. sistema de imagem para localizar o cálculo
4. sistema acoplador da máquina ao paciente
Atualmente, já existe no mercado uma série de modelos litotritores
com diferentes especificações, com a finalidade de facilitar
a realização da LECO, o que melhora a aplicação
das ondas, minimiza os possíveis efeitos colaterais e reduz o custo
operacional, o que possibilita o acesso de mais pessoas a essa nova modalidade
terapêutica.
Para se desenvolver uma fonte geradora, é nescessário um
mecanismo capaz de produzir uma súbita expansão no meio
líquido, gerando, assim, uma energia que será a onda de
choque.
Esse mecanismo gerador de ondas pode ser classificado como: puntiforme
ou pontual e extenso.
Assim sendo, teremos ondas de choque de diferentes formas, amplitudes
e pressões para os diferentes modelos litotritores.
As ondas geradas deverão ser focalizadas em um ponto do espaço
denominado F2 ou ponto focal, local que concentra maior energia. O tamanho
desse ponto focal varia conforme o sistema focalizador utilizado. Os dispositivos
de focalização das ondas atualmente utilizados nos diversos
equipamentos podem ser por meio de reflector hemielipsoidal, lentes acústicas
ou semi-esfera.
O sistema localizador do cálculo é feito por meio de Raios-X
ou ultra-som. Equipamentos mais modernos apresentam ambos os sistemas
de imagem acoplados, o que veio facilitar muito a localização
de qualquer tipo de cálculo, seja radiopaco ou radiotransparente,
evitando-se, com isso, muitas vezes, o uso de contrastes iodados.
Houve, também, uma grande evolução no sistema acoplador
da máquina ao paciente. Os primeiros modelos utilizavam a água,
devendo o paciente ser imerso em um tanque. Equipamentos mais recentes
utilizam uma membrana contendo água que se acopla ao paciente,
evitando-se, com isso, a sua imersão e, conseqüentemente,
minimizando os efeitos hipotensivos que podem advir dessa imersão.
Tais equipamentos também facilitam o manuseio do paciente na mesa
de tratamento.
Indicações
Atualmente, todos os cálculos urinários com indicação
cirúrgica podem ser tratados com a ajuda da Litotripsia Extracorpórea
por Ondas de Choque, salvo aqueles casos que se enquadram nas contra-indicações.
Assim sendo, todos os cálculos levando a obstrução
ureteral e/ou renal com dor forte persistente, têm indicação
para LECO. Cerca de 3% dos casos requerem algum procedimento urológico
associado, (13,14,15) e menos de 2% são encaminhados para cirurgia.
Contra Indicações
Menos de 5% dos pacientes são excluidos da LECO por apresentarem
contra-indicações.
As principais contra-indicações podem ser divididas em clínicas,
urológicas e técnicas.
As contra-indicações clínicas são as coagulopatias
não corrigidas. A hipertensão arterial não controlada,
sendo nescessário o controle rigoroso dos níveis pressóricos
antes do tratamento. Aneurisma de aorta ou de artéria renal. Entretanto,
a calcificação das artérias renais ou da aorta não
apresentam contra indicações formais, desde que alguns trabalhos
mostraram que ondas de choque não afetam as calcificações
arteriais. (5) A gravidez é ainda contra-indicada, por não
se saber se as ondas de choque apresentam algum efeito teratogênico
e também pela exposição aos Raios-X durante o tratamento.
Aqueles pacientes portadores de marca-passo cardíaco e arritmias
devem ser cuidadosamente avaliados pelo cardiologista antes de se submeterem
à LECO, sendo importante a presença Desse especialista durante
o procedimento.
As contra-indicações urológicas são devidas
a alterações anatômicas ou funcionais que dificultam
a saida dos fragmentos: como estenose distal ao cálculo, cálculos
em cálices crônicamente distendidos, alteração
funcional da mobilidade ureteral e anomalias anatômicas graves.
As contra-indicações por dificuldades técnicas são
variáveis dependendo do tipo do litotritor. A obesidade pode ser
uma contra-indicação, por não se conseguir colocar
o paciente no ponto focal das ondas de choque. As anomalias esqueléticas,
rins ectópicos, o tamanho dos pacientes também podem apresentar
as mesmas dificuldades técnicas.
O cálculo radiotransparente pode trazer alguma dificuldade, principalmente
se o equipamento não apresentar ultra-som ou se o cálculo
se encontra em nível de ureter médio, onde se torna difícil
a visualização também pelo ultra-som.
A posição do cálculo, principalmente em nível
de ureter médio, é uma contra-indicação relativa,
em vista da dificuldade de fragmentação devido à
atenuação das ondas de choque pelos ossos do quadril. Quando
aplicadas por via anterior, pode existir a interposição
de alças intestinais com ar em seu interior, alterando a onda e
reduzindo sua capacidade de fragmentação, além dos
riscos de lesão nessas alças.
Efeitos Colaterais
Apesar do grande avanço tecnológico alcançado no
tratamento dos cálculos urinários com o uso da LECO, esse
procedimento não está isento de efeitos colaterais, que
podem ser divididos em renais e extra-renais.
Os efeitos colaterais renais podem ainda ser divididos em agudos e crônicos.
Os efeitos colaterais renais agudos como a hematúria são
muito freqüentes e sugere lesão parenquimatosa e não
somente lesão de uroepitélio (25).
A lesão renal freqüentemente é vista após LECO
e pode variar entre discreta contusão renal a grandes hematomas,
associados a sangramentos profusos, nescessitando às vezes de transfusão
sangüínea. (26, 27, 28) Vários trabalhos usando ressonância
magnética e cintilografia renal têm estimado que 63 a 85%
de todos os pacientes submetidos a LECO apresentam uma ou mais formas
de injúria renal. (28, 29, 30)
Áreas de fibrose podem-se desenvolver um mês após
o procedimento. (31) Tais alterações envolvem a cápsula
renal e podem ter efeitos consideráveis em longo prazo. Sabidamente
fibrose da cápsula renal pode levar a compressão do rim,
causando alterações na hemodinâmica renal, com conseqüente
hiper-reninemia e hipertensão arterial. (32, 33, 34)
Outras alterações renais observadas após LECO são
o aumento do tamanho renal e a perda da demarcação corticomedular,observadas
pela ressonância magnética. (26, 28, 29, 35) Essas alterações
sugerem lesões no néfron e na vasculatura renal, levando
ao extravasamento de urina e sangue no espaço extracelular, podendo
causar seqüelas tubulo-intersticiais e compressão intra-renal.
Perda da função renal transitória também já
foi observada. (26, 36)
Elevações séricas e urinárias de várias
enzimas também já foram observadas, após a LECO.
Essas alterações incluem elevações de bilirrubinas,
desidrogenase lática, transaminase glutâmica oxalacética,
N-acetil glucosamidase, beta-galactosidase e gama-glutamil transpeptidase.
(37, 38, 39) Tais alterações sugerem trauma renal e nos
tecidos adjacentes e podem persistir por vários dias.
Lesões em outros órgãos podem ocorrer durante a LECO,
principalmente no pulmão e nas alças intestinais, devido
ao ar existente dentro desses órgãos. (40, 41, 42)
Foi também descrita a presença de pancreatite aguda, com
elevação de amilase e lipase em alguns pacientes submetidos
à LECO. (37)
As ondas de choque podem também induzir extra-sistolia, necessitando,
por essa razão, que os disparos sejam sincronizados com a onda
R do ECG. Os efeitos renais crônicos podem aparecer dentro de três
categorias: a. alterações na função renal;
b. alterações na circulação renal; c. aumento
na taxa de recorrência de cálculo.
As alterações na função renal, são
ainda ponto polêmico na literatura. Chaussy (1986) não encontrou
alteração na função renal por um período
de quatro anos pós-LECO. Já investigadores em Gainesville
estudaram 21 pacientes por um período de 17 a 20 meses e demonstraram
uma diminuição significativa na porcentagem do fluxo plasmático
efetivo do rim tratado. (43)
No estudo realizado no Lithocentro-BH utilizando cintilografia renal dinâmica
(DTPA), com o método de "Gate" modificado, foi demonstrado
que a taxa de filtração glomerular não se alterou
significativamente um ano após a litotripsia. (44)
As alterações na circulação renal de evolução
crônica também constituem um assunto polêmico. Vários
autores encontraram hipertensão arterial pós-LECO. Os primeiros
relatos surgiram em 1986, quando Peterson & Cols (45) observaram a
incidência de 4% de H.A.S. Depois, Lingeman & Kulb, em 1987,
(46) Williams & Cols, em 1988, (43) e Motgomery, em 1989, (47) relataram
H.A.S. em 8% dos pacientes pós-LECO. Em 1992 Yokoyama e Cols (48)
descreveram H.A.S. em 1% dos pacientes 18 meses após LECO e informaram
que havia um aumento médio na pressão diastólica
de 1,2 mm Hg em todos os pacientes. Em 1993, Gifford & Cols (49) sugeriram
no 5o Comitê Nacional de detecção, avaliação
e tratamento de pressão alta nos Estados Unidos ser a LECO uma
possível causa de H.A.S.
Meneses & Cols, (44) em estudo realizado no Lithocentro-BH, observaram
incidência de 3% de H.A.S um ano após LECO, porém
essa incidência foi observada mais freqüentemente na faixa
etária acima dos 40 anos. Também nesse estudo não
foi observada correlação com função renal
unilateral, quantidade e potência de ondas de choque. Portanto,
relacionar LECO como causa de H.A.S é ainda precoce. Trabalhos
prospectivos multicêntricos, indivudualizando os diversos equipamentos
existentes no mercado, são necessários para uma conclusão
mais definitiva desse controverso assunto.
O aumento na taxa de recorrência do cálculo após LECO
também é assunto controvertido. Existem vários fatores
que podem influir nesse índice de recorrência como a presença
de fragmentos residuais pós-LECO, a atividade metabólica
do paciente, e alterações anatômicas, entre outras.
Análises realizadas nos Estados Unidos revelam taxa de recorrência
de 8,4% um ano após LECO naqueles pacientes que estavam livres
de cálculo e de 21,6% naqueles pacientes que apresentavam fragmentos
residuais. No período de um a dois anos após LECO, observou-se
a taxa de 10,6% nos pacientes livres de cálculos e a de 21,7% naqueles
que apresentavam fragmentos residuais. (30)
Na nossa experiência, encontramos diferença significativa
na taxa de recorrência entre os pacientes que se submeteram a avaliação
metabólica e que estavam em tratamento do distúrbio diagnosticado
e entre aqueles que não fizeram o diagnóstico metabólico
e, conseqüentemente, não estavam em tratamento específico.
A média de recorrência um a cinco anos pós-LECO foi
de 27% nos pacientes não tratados metabolicamente e de 2% naqueles
que foram tratados e estavam livres de fragmentos residuais (<5mm).
Complicações
As principais complicações podem ser divididas em causas
relacionadas aos fragmentos dos cálculos, às ondas de choque
ou, ainda, a causas infecciosas.
Das complicações relacionadas a fragmentos de cálculos,
a mais freqüente é a cólica que ocorre, na nossa experiência,
em 87% dos casos. O fenômeno de "steinstrasse", que se
caracteriza por obstrução ureteral, devido a múltiplos
fragmentos, podendo levar a hidronefrose, ocorreu em 10% na nossa experiência.
As complicações relacionadas às ondas de choque foram
hematúria macroscópica, que ocorreu em 79% dos casos, na
nossa casuística. Equimoses no local de entrada das ondas na pele
ocorreram em 23% dos casos. A insuficiência renal aguda não
obstrutiva, devido à injúria renal, é complicação
rara, tendo ocorrido em apenas 1,6% dos nossos pacientes. Rutura renal,
que já foi descrita na literatura, na nossa casuística não
ocorreu em nenhum caso.
As complicações infecciosas mais comuns são as septicemias,
que podem ser muito graves, levando à instabilidade hemodinâmica,
ao choque séptico e ao óbito. A causa mais comum dessa complicação
é a fragmentação de cálculos de infecção
ou em pacientes com infecção urinária não
tratada previamente. Portanto, torna-se imprescindivel a avaliação
de culturas de urina no período pré-LECO, sendo fundamental
o tratamento antimicrobiano, naqueles casos em que se diagnosticou infecção
urinária. (50) Na nossa experiência, septicemia pós-LECO
ocorreu em 2% dos casos.
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