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Entrevista

 

 Prof. Dr. Eduardo Távora: Um Contador de Histórias

Um encontro dentro do Instituto Mineiro de Nefrologia, numa Belo Horizonte de noite fria, com um dos maiores nefrologistas do país. O clima frio da cidade contrastava com o calor humano do entrevistado que é pioneiro no transplante de órgãos e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia. O Professor Távora mostra bom humor e vivacidade nessa entrevista de quase 2 horas. Na foto acima, os dois filhos médicos, Paula e José Eduardo que demonstram uma amizade sem limites pelo pai famoso. Alem deles, as presenças de Euler Lasmar e Eduardo Silveira nessa entrevista exclusiva a Med On Line. Acompanhem abaixo.

O Editor

 

(Belo Horizonte, junho de 2002, entrevista com o Dr. Eduardo Távora)

Sebastião: Eduardo Rubens Fernandes Távora... O pessoal estava inspirado quando escolheu seu nome, hein?

Prof. Eduardo: Na realidade, eu ia me chamar Carlos Rubens, mas o escrivão errou e botou Eduardo Rubens. Eu nasci numa pequena cidade de Goiás, fronteira com Minas, a 60 km de Araguari e 80 km de Uberlândia, chamada Corumbaíba.

Sebastião: Pertinho da Med On Line, sô!

Prof. Eduardo: Pertinho... Filho de um cearense (Adérito) e de uma goiana (Cecy). Morei pouco tempo lá e passei então a peregrinar, até chegar a Belo Horizonte, em 1952 (janeiro), depois de passar por Araguari e Uberlândia, como últimas paradas. Aqui, entrei para o colégio Estadual (o melhor da época, embora público) e topei com um professor chamado Mário de Oliveira (matemática), que me tirou das exatas e me apontou para a Medicina. É que ele “ferrava” todo mundo no 1° semestre, mas “abria as pernas” no 2°. Não adiantou; tomei horror à matemática e fui então para a Medicina.

Sebastião: Com que idade?

Prof. Eduardo: Entrei com 17 anos e me formei com 23 anos.

Sebastião: Mas não saiu nefrologista, né?

Prof. Eduardo: Não, clínico apenas. A especialização começou a ser feita em 60, em São Paulo (Eletrocardiografia com o Dr. J. Tranchesi, HC), outra vez em São Paulo (Dr. J.B. Magaldi, 62) e depois (68) em Los Angeles, UCLA, com o Dr. R. Goldman, as últimas na área renal.

Sebastião: O senhor entrou na faculdade com 17 anos?

Prof. Eduardo
: Sim, em 1953.

Sebastião: Turma de quantos?

Prof. Eduardo: 83 alunos, dos quais eu era o mais novo.

Sebastião: Na Federal?

Prof. Eduardo: Na Federal. Nem sei se a Ciências Médicas já existia na época.

Sebastião: O senhor veio sozinho para Belo Horizonte?

Prof. Eduardo: Não. Eu vim com a minha família. Meu pai era um autêntico “beduíno urbano”, sempre em movimento. Mas sempre em função da profissão.

Sebastião: Qual era a profissão dele?

Prof. Eduardo: Era funcionário público federal (antigo fiscal do imposto de consumo) e vivia transferido de um lugar para outro. Me lembro de ter morado em Goiás, Minas, Mato Grosso e até no Rio Grande do Norte. Para todos os lugares, ia a família toda. Mas isso só foi possível por causa de minha mãe. Era uma mulher impressionante, dessas que não nascem mais. Soprava e batia, era cacete mesmo (risos) nos 9 filhos, 7 homens e duas mulheres quando terminou a produção. Teve outra menina, mas morreu logo depois de nascida, acho que com atresia de vias biliares.

Sebastião: Dos 9, o senhor era o... ?

Prof. Eduardo: O terceiro.

Sebastião: O senhor morou no Rio Grande do Norte (Mossoró) e como saiu de lá sem sotaque? (risos)

Prof. Eduardo: Ah, isso eu nunca tive. Sabe por que? Porque nunca morei num lugar (exceto Belo Horizonte) por mais de 2 anos.

Sebastião: Nem no Rio de Janeiro?

Prof. Eduardo: No Rio, eu peguei uma vez, mas minha mulher me gozou tanto... Comecei a puxar o “s”, igual ao pessoal de Juiz de Fora, que se considera carioca.... Dizem aqui em Belo Horizonte que o pessoal de lá dá o endereço tipo Avenida Brasil, 9 milhões, 582 mil etc. (risos) Foi na época em que servi o Exército no Rio em Magalhães Bastos, subúrbio.

Sebastião: Não entendi. Com 17 anos o senhor não estava na Faculdade?

Prof. Eduardo: Estava, mas o CPOR (Curso de Preparação de Oficiais da Reserva) era feito nos fins de semana e nos períodos de férias. Nessa época serviamos no Rio. A propósito, foi uma época maravilhosa, pois eu nunca ri tanto. Em compensação, fui preso muitas vezes.

Sebastião: É? Por conta de quê?

Prof. Eduardo: Eu sou, por parte de pai, de uma família de militares, como Fernando, Joaquim e Juarez Távora, esse o mais famoso. Mas no Exército eu só fiz “merda”, daí estar preso freqüentemente. Uma das minhas transgressões mais citadas era o uso de cabelo comprido (oposto às normas militares). Um dia, um cabo (um crioulo) meu amigo me avisou que o Coronel comandante ia mandar tosar o meu cabelo em forma. Me antecipei, fui ao cabeleireiro e me apresentei. Nunca vi um cara tão “puto” na minha vida...Fiz também muita música irreverente, de muito sucesso entre a tropa...mas não entre o comando.

Sebastião: O senhor já era casado?

Prof. Eduardo: Não, eu tinha... 18 anos e só me casei com 26.

Sebastião: O senhor casou-se depois de formado?

Prof. Eduardo: Depois de formado, 3 anos depois, com a Dinorah.

Sebastião: E a Dinorah? É de Belo Horizonte?

Prof. Eduardo: Não, é do sul de Minas, Monte Santo.

Sebastião: Como vocês se conheceram?

Prof. Eduardo: Nós dividimos o sobrenome Távora, portanto, somos parentes, mas eu não sei o grau de parentesco. Certa vez, um amigo, Milton Freitas (cirurgião, inteligência privilegiada) me perguntou qual era o meu parentesco com o Olympio (cunhado, médico). Eu respondi que as nossas relações advinham de eu ser casado com a irmã dele, e ele com a minha irmã. Depois de alguns segundos de reflexão, ele foi taxativo: “Caso típico de vingança, né?” (risos)

Paula Távora (filha): Na família, tem mais um caso de “vingança”: um irmão mais novo dele casou-se com uma irmã mais nova da mamãe... (risos)

Sebastião: Era falta de opção? (risos)

Prof. Eduardo: Em parte, apenas. Era o que tinha na época. (risos)

Sebastião: Olha que ela vai ler isso, hein!

Prof. Eduardo: Não tem importância, ela está adquirindo um senso de humor, que nunca teve antes. Atualmente, mesmo trocando nomes, ela já morre de rir. Por exemplo: ainda hoje, uma das minhas netas, a Bebel, mostrou a ela um composição sobre a seleção de futebol penta campeã, com o título Luiz Felipe Scolari. Quando ela me contou o caso, trocou o sobrenome do Felipão, de Scolari para Colares, sob espanto da neta. (risos) Nessa área, o seu caso mais famoso, contudo, aconteceu há muitos anos. Ao ser apresentada a um político respeitável, conhecido carinhosamente pelo apelido de “Andradinha”, introduziu-se com essa “pérola”: Muito prazer, seu Andorinha (personagem do Chico Anísio). (risos)

Paula (filha): Mas a característica marcante dela é a fertilidade, pois em 2 anos e 11 meses de casada, ela teve os seus 4 filhos! E o orçamento do papai era de recém-formado. (risos)

Sebastião: Como é que foi isso?

Prof. Eduardo: O drama foi com os dois primeiros (gêmeos), Eduardo e Rubens. Eu morava em São Paulo, onde fazia pós-graduação no HC em Nefrologia, e vivia com um orçamento muito apertado. A Dinorah estava grávida, e numa noite em que passou mal, examinei sua barriga e levei o maior susto: tinha “perna” para tudo que era lado! Pensei: se não for gêmeos é centopéia! (risos) Eram gêmeos. Levei outro susto: só tinha verba para um enxoval, mas comuniquei à matriz, e o “velho” quebrou o galho. Quando, alguns meses depois eles nasceram, já em Belo Horizonte, o meu pai ficou tão emocionado que ficou “surdo” 24 horas: ele, até então, só tinha netas e vieram 2 netos de uma vez! (risos) Paralelamente, outro drama eram os vômitos da Dinorah durante a gravidez: só apareciam de 2ª a 6ª, desaparecendo, como por encanto, no fim de semana, quando vínhamos para Belo Horizonte, de carro! As viagens eram autênticas tragédias, já que meu carro, era um Morris (inglês), tinha um problema com a bomba d’água, que parava de funcionar com o aquecimento. Daí, que eu tinha que trazer comigo um galão de água para resfriar a dita e prosseguir viagem. Todo sábado (vinda) e domingo à noite (volta). E nunca ganhei o prêmio de maior marido da história! (risos)

Sebastião: De São Paulo para Belo Horizonte. Já veio direto para a Faculdade?

Prof. Eduardo: Sim, eu tinha ido já “encomendado” pela Clínica Urológica, exatamente pra criar uma Nefrologia paralela. Por essa razão, embora clínico, eu sempre trabalhei no Departamento de Cirurgia.

Sebastião: Mas já como professor?

Prof. Eduardo: Já, admitido como assistente. Só depois progredi para adjunto.

Sebastião: E a sua saída para fora?

Prof. Eduardo: Foi em 1968, mas para treinamento em transplantes renais. Fui levado pelo Professor Apparicio, que à época tinha muitos contatos importantes nos States. Eu penso que a nossa ida conjunta resultou numa parceria uro-nefrológica que até hoje é a marca registrada dos transplantes renais no Brasil. A primeira parada foi em Los Angeles (UCLA), mas de tempos em tempos, eu retornava para Davis (UCD), onde acompanhei o S. Chattergee, cirurgião, à época (± 1980) chefe do serviço de transplantes renais. Por razões um tanto obscuras, o Chattergee foi demitido da chefia, algum tempo depois. Falou-se à época em assédio sexual, mas eu, conhecendo o racismo americano, tenho minhas dúvidas.

Paula: Ah!.. foi assédio?

Sebastião: O assédio já existia nessa época? (risos)

Prof. Eduardo: O assédio existe desde que o mundo é mundo...

Sebastião: Mas passou a ser crime de uns tempos para cá... (risos)

Prof. Eduardo: Se você pegar o Velho Testamento, o que tem mais lá é assédio.

Sebastião: É?

Prof. Eduardo: O livro é de alto conteúdo erótico (no bom sentido...). Era comum o nego providenciar cinto de castidade pra mulher quando viajava. Esse hábito parece que já começava naquela época. Mas a turma que ficava, sempre descobria a chave, né? (risos)

Sebastião: Você sabe que essa é também a opinião do Jaime Landman (nefrologista carioca). Quando o entrevistei, ele me disse que não tem coisa mais erótica que o Velho Testamento. E disse mais: que o livro tem até noções de profilaxia, higiene, essas coisas. Os guerreiros quando voltavam tinham até de queimar roupas, etc.

Prof. Eduardo: Deixem eu contar uma piada pertinente. Certa vez, já muito tempo depois, o rei Arthur saiu pras Cruzadas. Instalou na mulher um cinto tipo guilhotina. Quando voltou, reuniu toda a corte e constatou, apavorado, que todo mundo tava sem pênis, exceto Sir Lancelot. Convocou então Lancelot para uma cerimônia de louvor à sua fidelidade, mas esse não conseguiu agradecer com palavras: tava mudo!... (risos)

Sebastião: Voltando ao sério, quando o senhor voltou para a Faculdade, como se deu o desenvolvimento da nefrologia em Belo Horizonte?

Prof. Eduardo: Quando eu voltei a Belo Horizonte, já estavam aqui o Paolucci (Alberto) e o Douglas (Andrade). Mas eles não se interessavam tanto pela clínica, de tal modo que, efetivamente, o primeiro a se lançar fui eu. Sucessivamente, vieram outros que eu poderia chamar de pioneiros: O Abrahão, o Euler, o Silveira, o José Silvério (nefrologia pediátrica), sem esquecer o Bara, em Juiz de Fora.


Dr Eduardo Távora e Dr. Euler Lasmar



Sebastião: Quando é que o senhor saiu da Faculdade para montar um serviço fora?

Prof. Eduardo: Na realidade, eu fui convidado pela Diretoria do Hospital Felício Rocho (da época) para organizar a nefrologia lá, o que fiz prontamente com o Euler, que já trabalhava no hospital. Isso ocorreu por volta de 1973. A clínica nefrológica atendia nefro clínica e diálise. Mas o transplante só foi iniciado pouco tempo depois e, curiosamente, também pela equipe do HC, também por convite da Diretoria do Hospital Felício Rocho. A equipe das Clínicas retirou-se 2 ou 3 anos depois, e eu continuei a atividade com uma equipe local que tinha o Euler (nefro), o Lydston e o Bamberg (uro) e o Carlos Figueiroa (vascular). Esse cenário persistiu inalterado até 1990 quando a Diretoria do Hospital Felício Rocho dividiu a Nefrologia em duas (I e II) e até 2001, quando substituiu a equipe de transplantes.

Sebastião: Então, quer dizer que a vida médica do senhor foi a Faculdade e o Felício Rocho?

Prof. Eduardo: Não, paralelamente, desenvolvi a atividade nefrológica no Hospital dos Servidores do Estado (IPSEMG, Hospital Israel Pinheiro), onde me aposentei depois de 27 anos de serviço. Em resumo, atividades clínicas no Felício Rocho e IPSEMG, e atividades apenas docentes na Faculdade de Medicina da UFMG.

Sebastião: Como foi a saída do Hospital Felício Rocho?

Prof. Eduardo: Não, eu não saí do Hospital Felício Rocho. Continuo lá, como chefe da Nefrologia I. Saí apenas do transplante renal, e quase imediatamente depois fui convidado pelo Abrahão para assumir a consultoria de transplantes renais do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da UFMG, onde ele é coordenador.

Sebastião: A saída do transplante foi sem traumas?

Prof. Eduardo: Sem traumas, sim, mas sem surpresa, não. Isso porque, no caso dos transplantes, a Diretoria (Conselho Técnico) permitiu (e até incentivou) a participação no procedimento de cerca de 20 médicos, sobretudo cirurgiões. O resultado final ruim não poderia ser outro, pois não há na história da transplantação mundial, uma equipe de transplante com tal número de participantes. Mas na hora da “caça às bruxas”, só os médicos foram “queimados”. Era um jogo de cartas marcadas, com um vencedor já escolhido, uns dois anos antes...Este, tão logo assumiu, demitiu todo mundo, e se tornou a "equipe de transplantes". Avisado de que a decisão era ilegal, readmitiu todo mundo perante o SNT, sigilosamente. Ou seja, resolveu o problema dele (com um equipe fictícia) e sem autorização de ninguém, de tal modo que oficialmente passamos a ser solidários com seus atos. Ah! Ética... onde estás que não respondes? Até que responda, vamos nos resguardar.... porque ninguém nasceu ontem, né?

Euler: Tenho a acrescentar o seguinte: além do número espantoso de médicos, principalmente cirurgiões, eram eles que decidiam quem ira operar os nossos pacientes. Uma inversão da conduta ética também permitida (e incentivada) pelo Conselho. Apesar dos nossos protestos (os clínicos), a decisão foi contrária às nossas expectativas. Da mesma forma que com o Eduardo, também eu fui recrutado para o Mater Dei, onde organizei a equipe de transplantes.

Sebastião: Prof. Eduardo, mineiro não cita nomes? (risos)

Prof. Eduardo: E nem pergunta, pois você é tão mineiro quanto eu, aliás, até mais, pois eu sou goiano... (risos)

Sebastião: Como o senhor encarou tudo isso?

Prof. Eduardo: Com naturalidade, pois embora tenha sido atingido, não discordo da substituição dos mais velhos pelos mais novos. É a lei natural das coisas. Mas a maneira como é tradicionalmente feita no Rocho é lamentável. Não custaria nada nos agradecer pelos 26 anos de trabalho na área, desde a fundação. Ou instruir o "ïnterventor" a nos tratar, se não cordialmente, pelo menos com ética...Parece que lá igualmente a Deontologia também não é popular... Isso explica porque, ao contabilizar minhas produção científica até hoje ( cerca de 180 trabalhos, entre publicados e apresentados em reuniões, sempre com a chancela Felício Rocho), jamais tenha recebido um cumprimento sequer, mesmo verbal, da direção.

Euler: Deixando de lado a política, gostaria de fazer um depoimento sobre o Eduardo, com quem convivo estreitamente há quase 30 anos, lá no Hospital Felício Rocho. Identifico nele 3 características predominantes: 1. a sua capacidade didática, pois consegue transformar um conceito difícil numa coisa simples, especialmente nas áreas de fisiologia e de água e eletrólitos; 2. a sua facilidade para redigir, para escrever, de que me valho freqüentemente, quando tenho que escrever ofícios, e coisas assim; 3. o seu senso de humor, seu talento para contar casos, piadas, etc. Principalmente depois de algumas cervejas, que constituem sua bebida favorita, eu acho até que única. A par de tudo isso, sempre foi um convivência inteligente, culta e, sobretudo, honesta, ética e correta.

Prof. Eduardo: A propósito de minha preferência etílica, vou contar um caso engraçado, acontecido comigo nos Estados Unidos. Eu morava em Sacramento, Ca, e próximo à minha casa tinha um bom supermercado, onde diariamente, à tardinha, eu ia comprar, entre outras coisas, algumas latas de cerveja, sempre da marca “Coors”, do Colorado. Passado algum tempo, uma tarde, fui surpreendido por uma homenagem da direção da loja, com uma cesta brinde da fábrica em reconhecimento ao “maior consumidor da região nos últimos 20 anos”. (risos) Ainda bem que era lá, uma cultura valorizadora do consumo e o episódio uma comemoração capitalista. Aqui, sei lá... Detenção, teste de bafômetro, etc. (risos)

Eduardo Silveira: A minha convivência com o Eduardo foi pequena, pois sempre trabalhamos em hospitais diferentes. Mas sempre muito profícua. A primeira foi como seu aluno na Faculdade de Medicina. Depois de formado, fui pros Estados Unidos (Detroit) para fazer cardiologia, mas por influência do meu irmão, também médico, mudei para nefrologia e quando voltei, lhe procurei, lembra? E você me deu uma carta de apresentação pro Sabbaga, em São Paulo. Fui muito bem recebido por ele, mas era apenas uma formalidade social.

Prof. Eduardo
: Logo que você chegou, nós o convidamos para expor o mecanismo de contra-corrente dos rins, lá no Hospital das Clínicas, lembra? Antes, eu tinha transplantado a Teresinha, sua paciente e esposa de um colega, com sucesso.

Eduardo Silveira: Sobre esse transplante, eu me lembro de um fato pitoresco, mas não surpreendente, quando o Apparicio (cirurgião chefe) deu um chute numa enfermeira, que saiu da sala ameaçando-o de processo, mas eu acho que não deu em nada. (risos) Outra oportunidade de convivência ocorreu quando do tratamento de um paciente importante, de fato um banqueiro, cuja cirurgia de colo, lá no Hospital Vera Cruz, complicou-se de IRA pós-sepse. No período de anuria, a família chamou outros colegas, como o Prof. Sabbaga, o Prof. Caio B. Dias e o Eduardo, mas no final fiquei eu sozinho. (risos) Como a anuria se prolongasse (passou de 30 dias), resolvi biopsiar seu rim. Mas dei um azar danado. Só veio medular no laudo. (risos) Quando ele finalmente urinou, decidiu prosseguir o tratamento em Cleveland (E.U.A) e a nefrologista que o acompanhou foi a Dra. Page (Dustan Page).

Prof. Eduardo: A respeito desse episódio, eu tenho duas histórias engraçadas. A primeira refere-se à Dra. Dustan, que me encheu de elogios para a família, embora eu nunca a tivesse visto. (risos) Essa tática de “marketing” dos médicos americanos é muito comum e sempre funciona, porque amacia o seu “Ego”... A segunda é sobre biópsia renal. Certa vez, o Euler e eu estávamos tentando biopsiar uma paciente, mas não conseguíamos retirar os fragmentos. O caso era estranho, porque tratava-se de uma paciente magra, calma, etc. Aí, passou pela enfermaria o Lydston, urologista, (para os íntimos, Zé Pequeno), tomou ciência do que acontecia, pediu luvas, tomou a agulha e, em 5 minutos, retirou 2 belos fragmentos. Retirou as luvas, nos olhou com profundo desprezo, e se foi. Quando o laudo do patologista veio, a conclusão foi a seguinte: “Biopsia renal: fígado normal”. (risos)

Sebastião: E os filhos?

Prof. Eduardo: São 4, os dois primeiros gêmeos, como já falei, e uma moça (que está aqui, Paula) e mais um rapaz. O Marcelo. Os apelidos são: Zega, Crioulo, Tereza e Rato. Apelido lá em casa é festa. Parece que é uma herança do meu pai, cearense de Aracati, terra dos apelidos.

Sebastião: Tem médicos?

Prof. Eduardo: Dois, Zega e Paula.

Sebastião: O senhor influenciou os médicos?

Prof. Eduardo: Nunca. Aliás, o relacionamento meu com meus filhos não foi de pai pra filhos, mas de amigo. Todos queriam ser médicos, mas só 2 foram perseverantes.

Sebastião: Tem um “preferido”? (risos da filha)

Prof. Eduardo
: Dizem que é o Zega, mas não é verdade.

Paula: Ele nega, mas é o Zega mesmo. Aliás, ele até tem uma lista de prioridades: o Zega, a Juliana (neta mais velha), o Baixo, meu cachorro sul-africano, e depois o resto. (risos)

Prof. Eduardo: Não é nada disso. Duvido que um pai goste mais de um filho que de outro. Acontece, contudo, que alguns são mais “chegados”. No caso do Zega é porque ele tem uma característica muito boa: mesmo que ele tenha que mentir para me dar uma notícia boa, ele mente. (risos) E procura sempre acompanhar os meus gostos. Por exemplo: torce pro Galo (Atlético), principalmente pra me agradar. Certa vez, a Paula pode confirmar, fui convidado a participar de um Congresso em Juiz de Fora e viajamos de carro. Ao chegar lá, fomos para o Hotel Ritz, onde tínhamos reserva. Enquanto eu estacionava, pedi ao Zega para confirmar os quartos. A recepção tava um autêntica “zona”, era um Congresso de Evangélicos. O Zega dirigiu-se à recepção do hotel, mas acabou na recepção do Congresso, sem perceber o erro. Disse que tinha uma reserva e a atendente lhe perguntou: “O senhor é Gedeão?” No que ele respondeu, surpreso: “Não senhora, eu sou atleticano”... (risos) Só depois ele soube da existência dos “Gedeões”.

Sebastião: Então, o Atlético é uma paixão?

Prof. Eduardo
: É.

Sebastião: E como começou?

Prof. Eduardo: Foi através de um grande amigo, o Rennó, amigo desde os bancos de escola, primeiro no Colégio Estadual, e depois na faculdade. Era (e é) “doente” e uma noite me levou para assistir a um jogo do Galo, não me lembro contra quem, e pela primeira vez vi jogando o Ubaldo “Miquica”, centro-avante, talvez o maior ídolo do time no passado. Sua principal característica era perder gols na frente do goleiro e marcar outros, por exemplo, da linha de fundo, os chamados gols espíritas. No domingo seguinte a essa 4ª feira, fomos ao Independência para um clássico Atlético-Cruzeiro. Aí, aconteceu um fato memorável, a torcida da coligação (Cruzeiro e América) jogou um foguete que, aparentemente, atingiu o Miquica, no momento em que o Galo entrava em campo. Levado de maca ao vestiário, retornou momentos depois, quase totalmente enfaixado, mais parecendo uma múmia preta... E marcou os 3 gols do jogo (3 x 0 pro Galo). O Miquica foi carregado do estádio até a Praça Sete, um cortejo que viria a se tornar turístico nas noites de domingo... (risos) A atmosfera me contaminou e virei atleticano, também “doente”. Muitos anos depois, cheguei a prestar serviços médicos ao Atlético, sem receber, é claro, (risos) na condição de auxiliar clínico do saudoso ortopedista Carlos Alberto Grossi. Foi na gestão do Eduardo Magalhães Pinto, quando o técnico era o Paulo Amaral, ex-preparador físico da seleção brasileira campeã do mundo na Suécia. Nesse período, travei contato com vários psicopatas “figuras de livro” (risos) entre os quais destaco um atacante, chamado Toninho, um autêntico craque.

Sebastião: O Toninho Cerezo?

Prof. Eduardo: Não, um Toninho bem anterior. Esse deve ter matado, de raiva, uns 10% da torcida do Atlético da época. (risos) Sabe por que? Era comum ele driblar toda a defesa adversária, chegar ao gol vazio e, ao invés de marcar o gol, voltar driblando todo mundo de novo. (risos) Quando assumi o Departamento Clínico do Clube, fui cadastrar o Toninho, e uma das perguntas rotineiras era: “Qual o momento mais emocionante para você durante uma partida?” A resposta foi incisiva: “Quando entro em campo e a massa inteira grita ‘filho da puta, filho da puta’”... (risos) Conclui que era um caso perdido. (risos) Essas anomalias psiquiátricas não eram raras entre os jogadores da época. Acho até que continuam não sendo até hoje. O Neylor Lasmar, irmão do Euler, me contou uma história bem representativa do que eu estou falando. Certa vez, quando era médico do Cruzeiro, o time tinha um atacante chamado Jésum. No auge da carreira, ele foi vendido para o São Paulo por uma pequena fortuna: 900.000 dinheiros da época. Com a sua parte, ele comprou um carrão e o restante em “long-plays” (CDs da época). Quer dizer, jogou tudo fora. Logo depois da transação, o Cruzeiro foi jogar em São Paulo, e uma noite no hotel, o Neylor o surpreendeu andando no corredor, com uma nota de mil presa à extremidade de um barbante, posicionado nas costas, e repetindo em voz alta: “A vida inteira andei atrás de você. Agora você vai andar atrás de mim.” (risos)


Drs Eduardo Távora e Eduardo Silveira



Sebastião: (dirigindo-se ao Dr. Eduardo, o Zega) Como é ser o filho predileto? (risos)

Zega: Isso é história, conversa fiada do Crioulo (irmão gêmeo). Aliás, lá em casa o que mais tem é lenda a meu respeito. Eu acho que é porque eu e o “velho” conversamos muito sobre medicina: eu sou uro e ele nefrologista. Os não médicos são frustrados (risos) e por isso inventam essa história. Por exemplo, a mamãe sempre receitou por telefone, tipo o cliente telefona e ela recomenda “nos casos assim, ele receita isso”. (risos)

Prof. Eduardo
: O caso mais recente dela é tragicômico. Uma paciente ligou desesperada para atendimento urgente (não tinha me localizado, ainda). A Dinorah fez a anamnese (risos), e quando soube que o paciente tinha um diagnóstico de lupus e uma previsão prognóstica sombria, não titubeou: “Minha filha, você não poderia ter procurado um médico melhor, ninguém entende mais de lupus do que ele, aliás a mãe dele morreu de lupus.” (risos)

Sebastião: Professor, o senhor tá com quantos anos?

Prof. Eduardo: 66

Sebastião: Quando foi presidente da SBN, estava com quantos?

Prof. Eduardo: Fui presidente de 84 a 86, portanto tinha 48 anos quando assumi, mas trabalhei mais quando fui vice, de 82 a 84.

Sebastião: Foi vice de quem?

Prof. Eduardo: Do Emil. (risos) O Emil Sabbaga é visto como uma personalidade autocrática, estilo terrorista árabe, pela maioria de todos nós, nefrologistas brasileiros. Mas é uma verdade apenas parcial!(risos) Na convivência que tivemos, eu colecionei muitas histórias que mostram um terrorista com muito senso de humor. (risos) Eu vou contar duas histórias dele. A primeira se passou em Montevidéu, estávamos (eu e ele) estrategicamente posicionados no “hall” do hotel, de trás de uma pilastra, de onde podíamos ver a entrada principal, mas de lá ninguém nos via. Pura coincidência. De repente, estacionou um carrão, dirigido por uma tremenda “chica”. Logo em seguida, se aproximou um colega que vou identificar pelo nome fictício João, que já ia embarcando. Nesse momento, ressoou uma voz barítona, aterradora para o João (e a maioria): Joããoo!!! O jovem apavorado, disse qualquer coisa à moça, recuou, enquanto ela arrancava. Nesse ínterim, procurou localizar o Professor Sabbaga, já que a voz lhe era muito familiar. Passados 10 minutos, a cena se repetiu e a mesma voz ecoou: Joããoo!!! O jovem nefrólogo, a essa altura, aparentemente sem qualquer controle esfincteriano, respondeu: Professor!?... esperando a sentença final. A sentença foi antológica: Nota 8! (risos) A segunda se passou em Santiago (Chile), durante uma visita nossa a um museu indígena, com um acervo artesanal polinésio bem interessante. Ao final da visitação, uma pergunta lapidar: “Távora, você já viu uma exposição dessas no Brasil?” Respondi que não. Concluiu: “Parece que assim que o Brasil foi descoberto, os índios brasileiros se aposentaram pelo INPS.” (risos)

Sebastião: Então o senhor foi o único presidente da SBN originário de Minas?

Prof. Eduardo: Não, muitos anos antes tivemos o Professor Caio Benjamim Dias, que não era nefrologista, apenas “nefrolófilo”.

Sebastião: Então, o último mineiro?

Prof. Eduardo: Acho que sim.

Sebastião: E me conta uma coisa, professor, sua visão da SBN hoje?

Prof. Eduardo: A SBN está no ápice de uma crise, gerada por interesses materiais contrariados de diretores da nacional. Para se entender esse epílogo é necessário regredir cerca de 20 anos na nossa história. Com efeito, até 1984, a SBN era uma sociedade técnica científica. A partir desse anos, alguns nefrologistas-empresários de diálise perceberam a necessidade de introduzir um componente sindical dentro dela, com o objetivo de melhor negociar com o INPS os preços do procedimento, já que o governo era o comprador único desses serviços. A legitimação técnica dessa filosofia passou pela criação do Departamento de Defesa Profissional, pela primeira reforma do Estatuto (que foi levada a cabo na minha gestão) etc. A SBN tornava-se assim uma sociedade híbrida (científica e sindical). Nasceu fraca sindicalmente ao contrário que sempre fora cientificamente. Passaram-se os anos, nos quais a detenção do monopólio da diálise permaneceu com os nefrologistas, que até criaram um outro “sindicato”: a ABCDT, muito atuante, independente da Defesa Profissional da SBN. Em resumo, o cenário da disputa comercial resumia-se em médicos contra o governo. Há cerca de 10 anos, entrou em cena um terceiro personagem nessa disputa: as empresas multinacionais de diálise, com o objetivo óbvio de lucro, mas com a clara possibilidade de oferecer qualidade de serviços muito superior à existente. A comunidade dializadora nacional viu-se às voltas com um dilema: vender ou não vender suas unidades. E em caso positivo, por qual preço? O desacerto no ajuste de preços (segundo uma versão a mim passada) originou uma dissidência paulista (bem conhecida de todos), cujas armas de luta têm sido a denúncia de ilegalidade constitucional dessa prática, uma “cortina de fumaça” tradicional para encobrir os reais motivos. A crise atual na SBN decorreu do fato de que a Diretoria se posicionou ao lado dessa última facção, principalmente contra os de Minas Gerais, denunciados oficialmente como “inconstitucionais” por uma diretoria Nacional que sequer respeitou a sua Diretoria Regional, aqui representada pelo Silveira. Esta é a minha visão da crise atual, um visão bastante isenta, pois jamais fui (e o Euler também) dono de Centro de Diálise. Sempre trabalhei por honorários, como ainda faço agora.

Sebastião: Alguma solução possível?

Prof. Eduardo: A meu ver, teoricamente, duas: ou rachar a SBN, criando uma outra Sociedade, ou afastar democraticamente esta atual direção na próxima eleição. Vamos ver como os atuais caciques se posicionam.

Sebastião: Alguns nefrologistas mineiros não vão a Brasília em protesto. O senhor faz parte dessa facção?

Prof. Eduardo: Em parte. Na realidade, eu estou iniciando a desativação da minha atividade profissional “pública”, digamos assim, e estou começando pela SBN. Meu objetivo é “desovar” meu conhecimento, minha experiência acumulada nesses muitos anos de atividade, na forma de publicações, consultorias etc. Não ir a Brasília para mim é frustrante, não somente porque adoro a cidade, tenho muitos familiares lá, mas sobretudo porque deixo de prestigiar o Istenio (presidente do Congresso), um amigo novo, uma pessoa muito interessante, inclusive porque conhece mais a história da minha família (Távora) do que eu mesmo. Deve ser porque ele nasceu no Rio Grande do Norte, pertinho do Ceará, né?

Sebastião: Dr. Eduardo, então a questão da SBN é de um impasse entre duas filosofias?

Prof. Eduardo: Não acho que tenha filosofia envolvida nisso, não. São interesses materiais distintos, de grupos bem conhecidos.

Sebastião: Em termos percentuais, qual a distribuição dos 2 grupos?

Prof. Eduardo: Talvez uns 60% pros “constitucionalistas” e 40% pro resto. É preciso notar, contudo, que nos 60% estão incluídos os nefrologistas mais jovens, de pequenos centros, que temem ficar fora desse processo de “privatização” estrangeira. Tenho certeza que mudariam de lado se pudessem trabalhar em condições muito melhores, seguras, tanto pra eles como pros pacientes. Mas reconheço que eles, por outro lado, podem não ser convidados a participar da “festa”. O que reflete o lado ético negativo do processo.

Sebastião: O Abrahão deixou duas perguntas que eu vou repassar.
A primeira é: “Como se sente ao ser tão bem recebido no seu retorno ao Hospital das Clínicas?”

Prof. Eduardo: Há muitos anos atrás, quando de um título mineiro do Galo, um jornal da capital exibiu em destaque a seguinte manchete: “O título volta a Lourdes (antigo campo do Atlético) de onde, aliás, nunca deveria ter saído”. A figura retórica reflete parcialmente o meu estado atual de espírito. De fato, a possibilidade de retornar a um ambiente universitário sempre me seduziu. Principalmente porque vou me lançar nos transplantes duplos fígado-rim, que já iniciamos, e pâncreas-rim, que iniciaremos em breve tempo. Mas devo reconhecer que, do ponto de vista estritamente profissional, a minha ida para um hospital não-universitário foi muito mais compensadora materialmente.

Sebastião: A segunda pergunta é: “A que atribui seu permanente desafio de compreender as enfermidades que envolvem distúrbios hidro-eletrolíticos?”

Prof. Eduardo: Eu costumo dizer em aula que o nefrologista só não pode deixar de saber uma coisa: água e eletrólitos. Por que? Os rins normais resolvem, eles mesmos, quase todos os distúrbios eletrolíticos que se apresentam. Basta uma pequena ajuda do médico no sentido de manter a sua perfusão. Mas nós nefrologistas freqüentemente trabalhamos com rins doentes, funcionalmente avariados. Aí, o “buraco é mais em baixo”, o médico tem que assumir totalmente o comando. Há uns 5 anos atrás, você, Sebastião, me convidou a fazer a conferência final de um Congresso lá em Uberlândia, intitulada “Passado, Presente e Futuro da Nefrologia”. Lamentavelmente, tive de concluir que o futuro da especialidade era muito incerto, pois das 10 ou 11 síndromes renais, 9, seguramente, tinham fugido das nossas mãos, incluindo nessas as síndromes hidro-eletrolíticas, que se bandearam para os intensivistas. Mas o nefrologista tem que auditar o problema de seu paciente internado em CTI e para isso, tem que dominar o assunto.

Sebastião: Dr. Eduardo, no Lancet, há 3 ou 4 perguntas constantes em cada entrevista. Uma delas, que eu pediria pro senhor responder rapidinho, sem pensar, é qual o seu maior medo?

Prof. Eduardo: Morrer!

Sebastião: De que maneira?

Prof. Eduardo
: Lentamente, sofrendo muito, ou admitido, de cara, num CTI. Gostaria de uma morte súbita, tipo por acidente, em paz...

Sebastião: É interessante, pois nas últimas 10 entrevistas, a resposta é quase sempre essa.

Prof. Eduardo: O CTI, o templo da tecnologia, não tem alma. Lá o calor humano, sobretudo dos familiares, não flui. Mas acho que essas contradições, matéria x espírito, naquele ambiente, são inevitáveis, principalmente na nossa cultura latina. A carga emocional da família inviabilizaria o funcionamento do CTI.

Sebastião: E o medo de morrer, tem a ver com Deus, essas coisas?

Prof. Eduardo: É uma pergunta interessante porque medito muito sobre ela, agora que eu estou entrando na “marca do pênalti” (risos). de um lado, se você acredita e segue a cartilha de um Deus, seu ingresso na vida eterna (depois da morte) está garantido. Em sendo assim, esse “continuísmo” grandemente amortece o medo de morrer. É o que acontece hoje no Oriente Médio. Mas se você não acredita, acha que morrer é como “sair do ar, um apagar de luz”, então o medo de morrer aflora. O Deus a acreditar varia com as religiões, pelo menos no nome. Os cientistas atuais tendem a nominar esse Deus como uma Entidade Cósmica (apud Amit Gosmani, professor de Física Quântica da Universidade de Oregon, EUA), ainda não configurada. Observo, com isso, uma aproximação do materialismo ao espiritualismo, o que me parece saudável porque é muito simplista explicar a criação e o funcionamento perfeito dos organismos vivos através do acaso físico ou biológico, sem qualquer ajudazinha “superior”. A resposta a essas dúvidas talvez nunca seja encontrada. Até lá, muita gente vai continuar procurando, enquanto outro tanto vai continuar ganhando muito dinheiro com esse garimpo...

Sebastião: Se todos os grandes nefrologistas que entrevistamos até hoje, o senhor é o que mais comentou sobre a família. A família pro senhor é uma coisa muito importante?

Prof. Eduardo: É. E a explicação passa pela minha avó materna, Ana Irinéia da Costa Arantes, falecida aos 90 anos, uma das mulheres mais inteligentes que eu conheci, embora quase sem escolaridade. É dela a seguinte máxima: “Os amigos certos que você terá na vida são seu pai e sua mãe. Todos os demais poderão ser. Ou não.” Agregando minha família, eu nada mais fiz que cumprir a minha parte, sem cobrar nada deles. Vivemos em harmonia, embora eu reconheça que assumi, quase sempre, uma atitude super protetora, eu acho que boa pra mim, mas ruim para eles, algumas vezes. Dentro da família, eu devo destacar a Dinorah, uma companheira sempre dedicada, disciplinadora (os filhos que o digam), autoritária, mas muito amorosa e generosa.


Eduardo Távora



Sebastião: E netos?

Prof. Eduardo: Já são 5, 3 meninas e 2 meninos. Convivo com todos, alguns mais, outros menos, mas, pelo menos uma vez por semana, vejo todos, mais as meninas da Paula (Juliana ou Juca Maria) e Isabela (ou famosa Bebel), pois filhos de filhas são mais chegados... Os outros são o Rubens (Bimba véio), o Arthur (Maramba), ambos do Crioulo, e a Marcela (Cecé) do Rato. Acusam-me de ter preferência pela Juca, mas é impressão. Acontece que ela é a mais velha (9 anos), é estrangeira (nasceu em Johanesburgo, África do Sul), é muito dócil e fala pouco (considerando que é mulher...), características que me agradam muito. Ao nascer na África ela me proporcionou conhecer um país lindo, que me traz belas recordações, entre as quais o seu próprio nascimento. Aliás, posso encaixar aqui uma história engraçada, ocorrida logo após esse evento. A Paula fiou num hospital legal, em um quarto muito bom, com uma varanda anexa, na qual, obviamente, eu estava “testando” uma cerveja local. De repente, uma gritaria vinda de dentro, me permitiu ver a Paula e uma enfermeira abraçadas em cima da cama, em pé! Quando me viu, a Paula pediu-me um telefone e ato contínuo ligou para a manutenção, onde foi atendida por um funcionário. “Meu senhor, tem um rato (na realidade era um camundongo inofensivo) aqui no meu quarto.” No que recebeu uma resposta (que achei ótima) “Um rato? Então temos que providenciar urgente um gato.” A Paula, furiosa, replicou “Dispenso seu humorzinho britânico fajuto! Se o senhor não vier tirar esse rato daqui, agora, eu vou denunciar o hospital à imprensa!” Em 5 minutos, tiraram o rato, e nós todos, que fomos transferidos para outro quarto. (risos) Mas eu levei minha cerveja, né... (risos)

Sebastião: No final, alguma coisa mais?

Prof. Eduardo: Sebastião, eu devo lhe agradecer, pela segunda vez, a gentileza do convite pra participar desse seu trabalho tão importante, de resgate da memória da SBN. Da primeira vez, você me propiciou visitar minha cidade natal, Corumbaíba, lá perto de Uberlândia, num carro importado e com um motorista especial, universitário e fotógrafo, o nosso queridíssimo colega Rondon Hikeda. O Rondon, quando me apanhou no hotel, estava munido de uma câmera e dois filmes de 36 exposições. Assustado, esclareci timidamente que a cidade era linda, muito limpa etc., mas muito pequena, de modo que não exigia mais do que, talvez, 24 fotos. Mas ele gastou todas as fotos, tirou foto até de pequi em árvore. Aliás, essa árvore de pequi estava situada perto do Lageado (um pequeno rio que corre entre pedras) um local onde brinquei muito quando garoto. Quando lá chegamos, tinha um carro bacana, com as portas abertas e um cidadão solitário, contemplando a beleza do lugar... Disse que era um vendedor de São Paulo (Campinas) e que sempre que vinha à cidade, esticava até lá. Achei estranho, e questionei o Rondon: “Mas sozinho!” E ele me respondeu: “A mulher pode estar atrás da moita...” “Ou o homem”, completei, “o cara é de Campinas.” (risos) Paralelamente, ao agradecimento gostaria de parabenizá-lo, Sebastião, pela sua “emergência” no contexto da Nefrologia brasileira.

Paula: Como vocês viram, é uma festa ser filho dele. Mesmo nesse momento de sepultamento da ética tradicional, dos valores éticos dele, permanece com um cérebro hipertrofiado, lendo muito na varanda lá de casa, lendo tudo. Como o Euler, eu também acho que a sua veia humorística é fantástica, ele consegue captar uma coisa engraçada no meio de uma outra totalmente sem graça, e transformá-la em uma história e tanto. Espero poder ter ele (e a mamãe) por muitos anos ainda, pra ele começar a contar as histórias dos netos, bisnetos e assim por diante. Um autêntico “story teller”!

Sebastião: Eu acho, Paula, que você acabou dando o título para essa entrevista: “Um contador de histórias”.



 

 

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