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CAPA |
Noemia: Não tínhamos nada que fazer... Prof. Domingos: Não tínhamos nada que fazer, e fomos aprovados, não é Sebastião? (riso) Sebastião: Foram dar uma voltinha ...e...olha alí um concurso!. Prof. Domingos: É. Fomos aprovados, e acabamos nomeados. Obviamente, como eu não mais fazia parte de qualquer grupo, fui designado para trabalhar em um serviço em desagregação física, na Santa Casa, em lugar de trabalhar no Hospital de Clínicas. Durante 1 ano fiquei lá, até que um dia achei que era ridículo. Não fazia sentido perder meu tempo novamente. Pedi demissão, outra vez. (risos) Antonello: Se o senhor estivesse no Hospital de Clínicas? Prof. Domingos: Ah! Talvez me demitisse também, pois àquela altura quem não tivesse doutorado não tinha futuro na UFRGS. Noemia: Isso lá não conta. Prof. Domingos: De qualquer forma, a progressão na Universidade Federal era tão desestimulante, que achei não valer a pena perder tempo. Sebastião: E aqui na PUC, o senhor acha que é diferente? Prof. Domingos: Acho que sim. Aqui temos um grupo que hoje é muito produtivo, temos pós-graduação, produção científica não desprezível... Sebastião: Quem faz parte do grupo? Prof. Domingos: O grupo é constituído pelo Ivan, o Poli, o Abaeté, o David Saitovitch, o Rubens Oliveira, a Ana Maria Verçosa e o Moacir Traesel. Sebastião: É chefe da Clínica Médica? Prof. Domingos: Não. Sou apenas regente da disciplina de Nefrologia. Sebastião: Coordenador da disciplina? Prof. Domingos: Aqui se chama professor regente. Sebastião: Professor. E aí ficou só aqui? Prof. Domingos: Aqui, e no consultório. Noemia: Quando tu saístes do Instituto de Cardiologia? Prof. Domingos: Corrijo. Na verdade continuei no Instituto de Cardiologia até 95, mas sem o envolvimento que havia antes. Sebastião: Rubens Maciel era do Instituto de Cardiologia? Prof. Domingos: Não. Rubens Maciel foi professor na UFRGS. Sebastião: Ah. Correto. Professor, o senhor tem esse grupo que se mantém ao longo do tempo; existe a preocupação de renovação? Prof. Domingos: Sim. O David foi um dos últimos a entrar, bem como um dos nossos ex-residentes, o Moacir. Antonello: Na realidade, tudo começou aqui, com o Dr. Domingos e o mesmo pessoal do Instituto de Cardiologia. Noemia: Menos o Aquino. Prof. Domingos: Sim. O Aquino e o Goldani não vieram. Sebastião: Professor, mudando um pouquinho de assunto, é o seguinte: andei perguntando por aí...; olha, vou entrevistar o Prof. Domingos. Quem tiver uma perguntinha, manda aqui, escondido aqui para mim. Eu juro que não conto o nome, mas me falaram que o senhor entende muito da história do Rio Grande do Sul. Que o senhor estuda e tal... Qual que é o hobbie do senhor? Tirando a Nefrologia, o que o senhor lê? Prof. Domingos: Sebastião, leio bastante. Gosto de ficção (o António Lobo Antunes, que descobri há pouco, é genial), mas acho que o que mais tenho lido, ultimamente, é filosofia política e filosofia da ciência. Sebastião: E nessa história toda, também recebi uma perguntar sobre golf. O senhor gosta de jogar golf? Prof. Domingos: Gosto. Sebastião: É a primeira vez que eu estou entrevistando alguém que joga golf. Prof. Domingos: É. Eu gosto de golf. Jogo há 28 anos, mas não sei se posso dizer que “jogo” golf... Sebastião: Tenta... Prof. Domingos: Eu apenas bato na bolinha, por que meu handicap é alto. Para tu teres uma idéia, o Tiger Woods deve ser handicap +8, ou +10. Ele dá 10 tacadas para a cancha: ele tem que jogar a cancha toda com 10 tacadas a menos do que o jogador “normal”. Eu, que não sou “normal”, recebo 20 tacadas, acima do esperado, da cancha: meu handicap é -20 (posso retirar 20 tacadas...). Noemia: Diz aonde tu jogas. Prof. Domingos: Jogo em um dos dois clubes que há em Porto Alegre, o Porto Alegre Country Club. Sebastião: Hoje, o senhor joga ainda? Prof. Domingos: Jogo. Jogo quase todas as quartas-feiras à tarde. Sebastião: Quarta feira ninguém segura. Prof. Domingos: É, quarta à tarde, a menos que exista algo muito importante, sempre jogo. Sebastião: O que poderia ser muito importante? Prof. Domingos: Se tiver que comparecer a alguma reunião, um paciente que deva ser visto... Sebastião: Nessas últimas quartas-feiras houve alguma que o senhor não foi jogar? Prof. Domingos: Não lembro. Sebastião: Consultório é no final da tarde? Prof. Domingos: Das três às seis. Venho para o hospital às 8 da manhã, saio às 13, almoço em casa, e vou para o consultório às 15 horas. Noemia: Dorme uma sesta, ou não? Prof. Domingos: Invariavelmente. Sento numa poltrona e durmo 20 minutos, meia hora. Antonello: Cochila um pouco. Noemia: Ah, eu acho legal isso. Prof. Domingos: É. Também, invariavelmente, tomo vinho no almoço. Sebastião: O Nestor mandou eu perguntar para o senhor sobre vinhos. (risos) Prof. Domingos: Eu sabia que o Nestor ia sugerir isto! Sebastião: ...Fale sobre vinho, pergunte sobre vinho... Prof. Domingos: O Nestorzinho... Sebastião: E aí, gosta de vinho mesmo? Prof. Domingos: Eu bebo vinho todos os dias... Sebastião: Aprecia, conhece? Prof. Domingos: Não sei se conheço, Sebastião. Eu gosto. Sebastião: Mas é aquele que pede, tem que provar antes, aquela coisa, ou não? Prof. Domingos: Não. Eu gosto de vinho mas, no mínimo, um vinho razoável. O vinho tem que ter alguma qualidade, para ser bebido, não é? Sebastião: Por exemplo, nós temos um monte de leitor que vai aprender agora, culpa do Nestor. Prof. Domingos: Atualmente, tenho bebido muito vinho chileno e argentino. Há vinhos de excelente qualidade, chilenos e argentinos, ainda a um preço razoável. Sebastião: Qualquer um? Prof. Domingos: Não. Qualquer um, não. Acho que a gente tem que escolher! Sebastião: Por exemplo? Prof. Domingos: Tem que escolher. Sebastião: Me dê uma dica, estou precisando. Qual é o que o senhor está tomando? Prof. Domingos: Estou tomando um vinho chileno, que se chama Equis: é uma mistura de uvas cabernet sauvignon e merlot, produzido por um francês que separa a produção de uma vinícola, não sei bem qual, e engarrafa esse vinho. O nome dele é Villard. Sebastião: Quando o senhor vai tomar um vinho, estuda ele primeiro? Prof. Domingos: Eu, mais ou menos; já sei quais são as vinícolas, e o que produzem... Sebastião: Mas tem essa preocupação? Prof. Domingos: É, eu gosto de experimentar. De repente tu encontras um vinho excelente, por um preço razoável. O contrário também é verdade: há vinhos caros que não merecem o preço. Sebastião: Um vinho bom custa quantos reais? Prof. Domingos: Eu diria que um vinho bom não custa menos de 50 reais a Sebastião: Quando o senhor viaja, a passeio ou a congresso, o senhor costuma comprar e trazer vinho? Prof. Domingos: Não, raramente. Sebastião: Escolhe alguma coisa, ou não? Prof. Domingos: Eu acho muito chato trazer pacotes. Sebastião: Não compra nada? Prof. Domingos: Não. Quando eu estou em viagem, procuro beber o vinho local. Sebastião: Visita algum vinhedo? Prof. Domingos: Quando estivemos na Borgonha, visitamos muitos vinhedos. Sebastião: E sente um interesse mesmo? Prof. Domingos: Eu acho que é gostoso. Em viagem, eu gosto de beber e comer. Acho que as duas coisas vão juntas, não é? Sebastião: E só por curiosidade: qual que é a pressão arterial do senhor? Prof. Domingos: Não tenho a menor idéia, Sebastião. (risos) Sebastião: Sério? Prof. Domingos: Absoluto. Não tenho a menor idéia. Noemia: Tu não vais a médico? Prof. Domingos: Olha, a última vez que eu medi a pressão, deixa-me ver, quando foi... Antonello: A última vez que foi ao médico? Prof. Domingos: A última vez que fui a um médico... Noemia: Que não seja oftalmologista... Prof. Domingos: A última vez, deixa-me ver. Acho que foi quando eu tive “câncer de pâncreas”. É brincadeira! Na verdade, eu estava nos Estados Unidos e comecei a ter sintomas digestivos muito desagradáveis: dor epigástrica, uma sensação extremamente desagradável. Obviamente, sou o hipocondríaco que não vai a médico, e a primeira doença que pensei foi a pior possível...Cheguei, e fui ao médico. Antonello: O gastro? Prof. Domingos: É, o Mazzolleni. Fiz endoscopia digestiva, ecografia abdominal, e uma série de exames. Antonello: Isso quando o senhor foi aos Estados Unidos, há pouco? Prof. Domingos: Não, foi há uns dois ou três anos Sebastião: Mas isso era só uma neurose? Prof. Domingos: Acho que sim. Noemia: Quer dizer que nunca foste a um urologista? Prof. Domingos: Só na juventude, Noemia. Sebastião: Grava. Tem coisa que não se pode cortar (risos). Noemia: Pode cortar. Mas tu foste fazer exames de próstata, não? Prof. Domingos: Não. Noemia: Não? Prof. Domingos: Não. Sebastião: Professor, Prof. Domingos: Na verdade, é. Acho que, do ponto de vista pessoal, era uma necessidade.
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