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CAPA |
Noemia: Tu falavas bem inglês? Prof. Domingos: Noemia, eu pensava que sim! Hoje, eu sei que falava mal...Minha filha, que mora há 11 anos nos Estados Unidos, vive me corrigindo! (risos) Noemia: É que me deu vontade de perguntar. Sebastião: Como é o nome da sua filha? Prof. Domingos: Chama-se Martha. Sebastião: Aí, o senhor chega de volta a Porto Alegre e assume a profissão de professor... Prof. Domingos: Não. Não professor: apenas Auxiliar de Ensino... Sebastião: Auxiliar de Ensino. Prof. Domingos: Era o nível inicial da carreira docente. Noemia: Isso em que ano foi? Prof. Domingos: Em 1970. A essa altura, já existia o Instituto de Cardiologia, que era um órgão do Estado (da Secretaria da Saúde). Como eu era funcionário efetivo (tinha feito concurso público antes de sair para o exterior), fui requisitado pelo Prof. Rubem Rodrigues, diretor do Instituto, para trabalhar lá. Sebastião: Mas o senhor também era da Federal? Prof. Domingos: Sim. Em tempo parcial. Sebastião: De manhã? Prof. Domingos: De manhã trabalhava na Enfermaria 29 e à tarde no Instituto de Cardiologia. Meu trabalho, nos primeiros dois ou três anos, no Instituto de Cardiologia, foi montar o Laboratório de Análises Clínicas, que acabou sendo o melhor laboratório de análises clínicas do Rio Grande do Sul, à época: nós já fazíamos até controle de qualidade... Noemia: É mesmo? Prof. Domingos: Sim. Sebastião: Voltando só um pouquinho: lá nos Estados Unidos, o senhor desenvolveu o que, em termos de pesquisa? Prof. Domingos: Eu trabalhei, primeiro, com acidificação tubular em pacientes urêmicos, num experimento que não foi muito adiante. Depois, trabalhei mais com William Blythe e Hillel Gitelman (o da síndrome), em busca do “fator natriurético - o 3º fator”. Muito experimento em cães: indução de hipervolemia, coleta de sangue, cromatografia em coluna, do plasma do animal expandido, concentração, liofioização das frações, e injeção do concentrado em artéria renal, para avaliar o efeito sobre a fração de excreção de sódio, etc... Sebastião: E esse trabalho é o que o senhor levou para a Suécia? Prof. Domingos: É, acabou sendo apresentado no Congresso Internacional de Nefrologia, na Suécia, e depois foi publicado no Circulation Research. Sebastião: E, com essa experiência, o senhor veio para o Brasil. Conseguiu implantar isso aqui, ou não? Prof. Domingos: Não. Sebastião: Dificuldades...tentou?. Prof. Domingos: Não, porque quando eu cheguei, não fazia tempo integral. Tive o azar de ter saído do país em um momento acadêmico errado: se tivesse sido nomeado 1 ano antes, poderia ter feito concurso de Livre-Docência. Quando cheguei, ter pós-graduação (mestrado ou doutorado) era a única opção de ascensão acadêmica, e que não havia em Porto Alegre, ainda. Sebastião: Deixou isso mais para a frente? Prof. Domingos: Sim. Fiquei em tempo parcial na Universidade. Acabei optando por ser professor, fazer clínica e, eventualmente, pesquisa clínica. Nada mais experimental. Na verdade, tenho sido um nefrologista clínico, apenas. Sebastião: Correto. Prof. Domingos: E aí, o que acabou acontecendo? Foi esse negócio do laboratório do Instituto de Cardiologia. Em seguida, começamos com hemodiálise crônica no Instituto de Cardiologia, que foi pioneiro no Rio Grande do Sul Noemia: O primeiro rim artificial era aqui, não é? Prof. Domingos: Na verdade, o primeiro rim artificial com que trabalhamos foi o do Hospital São Francisco, desde 1962. Eu ainda era aluno. A família Chaves Barcellos doou uma máquina para o Hospital São Francisco, e criou-se um serviço de hemodiálise para pacientes agudos. Sebastião: Era daqueles de placa? Prof. Domingos: Não, era um Kolf-Watchinger, com tanque de Sebastião: O Scliar é o Moacir? Prof. Domingos: É, Moacir Scliar, o escritor. Sebastião: Ele é nefrologista? Prof. Domingos: Quase foi... Noemia: Depois ele foi ser sanitarista. Prof. Domingos: Trabalhamos juntos por quase 5 anos, entre a escola e a Residência Médica. Antonello: Ele foi professor de Nefrologia? Prof. Domingos: Sim, foi professor, junto comigo, na Faculdade Católica, onde trabalhamos com o Prof. Azambuja. Noemia: Ele não foi diretor da Católica? Prof. Domingos: Foi, mais tarde. Sebastião: Professor, então, na verdade, o senhor veio e ficou em tempo parcial no Instituto de Cardiologia e em tempo parcial na Universidade Federal? Isto durou quanto tempo? Prof. Domingos: Isto durou de 1970 a 1975.Nesta época, a PUCRS iniciava a Faculdade de Medicina... Antonello: Fui seu aluno em 73. Sebastião: Na Federal? Prof. Domingos: Não, aqui. Noemia: Mas quando viestes para cá? Prof. Domingos: Comecei em 73. Noemia: Primeiro, fizestes o concurso junto comigo para Professor Assistente na UFRGS. Prof. Domingos: Não, isso foi bem depois. Antonello: Muito depois. Noemia: É? Prof. Domingos: É. Aconteceu o seguinte: em 1973 me convidaram para assumir a disciplina de Nefrologia na PUC. Sebastião: Aqui na PUC? Prof. Domingos: Sim. Imagina que eu era professor na Faculdade Católica, na UFRGS, funcionário do Estado, e ia assumir aqui... O que fiz? Pedi demissão da Católica. Antonello: Afinal, essa aqui era católica também... Prof. Domingos: Isto aí.As coisas ainda estavam na fase de planejamento, a UFRGS não me atrapalhava, e eu conseguia trabalharem três lugares. Em 75, achei que não havia futuro para mim na UFRGS, uma vez que não era doutor. Pedi demissão. Sebastião: O Antonello foi da primeira turma da PUC? Prof. Domingos: Sim. Sebastião: E como foi essa ligação? Te conquistou, assim, à primeira vista, ou não? (risos) Prof. Domingos: Não, não acredito que tenha sido à primeira vista... Antonello: Não. É que tive síndrome nefrótica quando guri, e quando começou a Nefrologia fiquei encantado com aquelas coisas que podiam explicar o que eu tive. Noemia: Tu te lembras? Antonello: De quando era guri? Noemia: É. Da síndrome nefrótica. Antonello: Claro. Até da Stella Budianski. Noemia: Foi minha pediatra. Sebastião: Foi o professor que olhou você na época? Antonello: Não. Eu era guri, a diferença não era tanta, também. Prof. Domingos: Ele tem quase a minha idade. (risos) Antonello: Vamos com calma. Noemia: Não é bem assim. Sebastião: Mas então, você se apaixonou pela matéria? Antonello: É, quando comecei a Nefrologia, aqui era o Dr. Domingos, o Dr. Abaeté e o Dr. Leonel Lerner, trio que também trabalhava no Instituto de Cardiologia. Eles trabalhavam lá, e começaram a primeira unidade de diálise crônica em Porto Alegre. Sebastião: E aí você se entusiasmou? Antonello: Me entusiasmei com eles etc e tal. Sebastião: Está certo. Professor, então! Antonello: Grande fumante, por sinal! Prof. Domingos: Quem, eu? É. Ontem, minha mulher e eu fizemos 37 anos de casados, e ela me deu uma cópia de uma foto de nosso casamento, em que eu apareço com um cigarro na mão! Sebastião: Nessa época era um charme fumar e tal. Noemia: Sim. Pegava bem. Sebastião: Professor, então o senhor veio para PUC em 73? Prof. Domingos: Sim. Sebastião: E quando é que o senhor se desligou da Federal? Prof. Domingos: Foi em 1975 que pedi demissão. Sebastião: Tem uma certa coragem nessa história, não tem? A gente abandonar um serviço liberal, público, garantido, não é uma coisa fácil. Prof. Domingos: Mas eu não tinha futuro, o que eu ia ficar fazendo lá? Sebastião: Mas não teve nenhum trauma, não brigou com ninguém, não teve dessas coisas? Prof. Domingos: Não. Nada, nada. Simplesmente decidi que não tinha que ficar lá. Antonello: Sebastião: tem duas coragens, porque ele mais tarde fez concurso, entrou de novo, e com o tempo se demitiu de novo... Sebastião: Ah! Então aí eu não entendi (risos). Não entendi. Como é que foi isso? Prof. Domingos: Na primeira vez eu era Auxiliar de Ensino, estava lá há 3 anos, me ofereceram a chefia da disciplina de Nefrologia na PUCRS. Era uma situação muito diferente da que eu tinha na UFRGS. Sebastião: E a outra? Prof. Domingos: Em 1978, a UFRGS abriu concurso para Professor Assistente, talvez para promover um grupo que ainda era Auxiliar de Ensino, havendo vagas para Professor Assistente. Não queriam me deixar participar do concurso, por que eu não era mais professor na universidade. Entretanto, o edital dizia, apenas, que a precondição era “ter sido Auxiliar de Ensino por, pelo menos, 2 anos”, que era o meu caso... Acabaram aceitando. A Dra. Noemia também fez este concurso. Na verdade, o concurso era para acertar a vida acadêmica de dois professores... Nós fomos de metidos, a Noemia e eu.
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