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Entrevista

Domingos Otávio D'Avila.

Em 30 de maio de 2003 agendei uma entrevista com o Dr. Domingos e, contando com a colaboração dos Professores Ivan Antonello e Noêmia Goldraich, realizamos um bate papo de quase 2 horas, dentro da PUC-RS, exatamente no laboratorio de pesquisa do Professor. Nesse tempo, o Dr. Domingos contou um pouco da sua vida, planos, conquistas e tudo mais que foi perguntado. Ao pretender montar um retrato pessoal dos grandes nomes da nefrologia brasileira, Med On Line tem sempre abordado, nesses encontros, as questões referentes às características humanas e deixado de lado - propositalmente- os tópicos referentes à produção cientifica do entrevistado. Prof. Domingos foi Presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia no biênio 1993/94 e se doutorou em Nefrologia na UNIFESP em 2002. É Titular do Departamento de Medicina Interna da PUCRS desde 1978. Como vocês verão abaixo, esteve como fellowship em Chapel Hill, na Carolina do Norte- USA, em 69. Porto Alegre estava um pouco frio, mas o carinho do Professor e as amizades do Antonello e da Noemia esquentaram o ambiente.

Editor

           Sebastião: Prof. Domingos, quantos anos, onde nasceu e como surgiu o interesse pela Nefrologia?

                        Prof. Domingos: Quantos anos? Muitos!!! (risos): 63. Vou fazer 64 em novembro.

                        Sebastião: Muitos? O senhor acha muito 63?

                        Prof. Domingos: Sebastião, são quase 64 anos! Nasci em Pelotas e vim para Porto Alegre com - mais ou menos - 1 ano de idade.

Sebastião: E o senhor veio de Pelotas para...?

Prof. Domingos: diretamente para Porto Alegre.

Noemia: Teu pai é de Porto Alegre?

Prof. Domingos: Não. Meu pai era natural de Itaqui.

Noemia: É mesmo?

Prof. Domingos: É. A família de meu pai é de Itaqui.

Noemia: Que é a aristocracia rural...(alfineta)

Sebastião: Quantos irmãos?

Prof. Domingos: Só tenho um irmão, que é 8 anos mais moço que eu.

Sebastião: E aí, a vida toda foi em Porto Alegre, desde o início?

Prof. Domingos: É, praticamente. A não ser o período que estive no exterior, como Fellow do American College of Physicians/Kellogg Foundation.

Sebastião: Como é o nome da sua esposa?

Prof. Domingos: Maria Araci. O pai dela foi professor de Oftalmologia.

Sebastião: Foi seu professor?

Prof. Domingos: Foi.

Sebastião: Conheceu antes de ser estudante de medicina?

Prof. Domingos: Não. Eu estava no primeiro ano da faculdade, quando conheci minha mulher

Noemia: naquela época já havia a Católica? (NR: PUC-RS)

Prof. Domingos: Não. Quando entrei na Faculdade, além da UFRGS, só havia Santa Maria. Eram só duas faculdades.

Sebastião: Fez o curso namorando a filha do professor? (suspeitando de favoritismo para livrar-se do exame final).

Prof. Domingos: Não. Nós namoramos só alguns meses, nesse período. Só fomos voltar a namorar no final do curso. Aliás, já tinha me formado, e estava iniciando a Residência Médica...

Sebastião: Aí o senhor já sabia que ela era filha do professor?

Prof. Domingos: Sabia desde o começo.

Sebastião: Ahhhhh (desconfiado)

Prof. Domingos: Os irmãos dela eram meus amigos. (justificando)

Noemia: O irmão dela – Paulo - que mora nos Estados Unidos, é teu contemporâneo de faculdade?

Prof. Domingos: Sim, mas estudou na Católica.

Noemia: Ele é mais moço?

Prof. Domingos: Sim. É dois anos mais moço que eu.

Sebastião: O senhor se formou quando?

Prof. Domingos: Eu me formei em 1963. Minha turma completa 40 anos de formatura, este ano.

Sebastião: E em 63 já tinha idéia de fazer Nefrologia?

Prof. Domingos: Quando me formei, já me interessava por Nefrologia há, pelo menos, 3 anos... Desde o 3o ano da faculdade freqüentava um serviço que era uns dos dois grandes serviços de Medicina Interna, no Rio Grande do Sul: a Enfermaria 29 da Santa Casa - Serviço do Prof. Rubens Maciel - onde o Prof. Antônio Azambuja era responsável pela área de Nefrologia, da disciplina de Clínica Propedêutica Médica.

Sebastião: Já trabalhava, enquanto estudante?

Prof. Domingos: Desde o 3o ano.

Sebastião: Trabalhava dentro da faculdade, ou na clínica dele?

Prof. Domingos: Na Enfermaria 29 e, às vezes, no consultório do Prof. Rubens Maciel (realizando a anamnese de pacientes em primeira consulta).

Noemia: Mas, lá na 29 não havia uma tradição de Nefrologia...

Prof. Domingos: Não. Era um serviço de Medicina Interna, com maior ênfase em Cardiologia. Havia o Prof. Azambuja e o Moisés Lerrer que se interessavam por Nefrologia.

Noemia: Sim, mas não tinha o Scliar?

Prof. Domingos: Sim. Na época, o Moacir Scliar (que se formou em 62) participava do grupo da Nefrologia, junto com outra colega, Ana Maria Maciel Alves. Todos fizemos Residência na 29, com bolsas da Kellogg Foundation.

Noemia: Eu pensei que a Ana Maria sempre tivesse sido da patologia...

Prof. Domingos: Não, ela sempre fez Medicina Interna.

Noemia: E porque tu nunca fostes para a Enfermaria 2?

Prof. Domingos: Por que foi o Prof. Azambuja que me introduziu à Nefrologia, na Enf. 29.

Sebastião: Professor, e o que é que tinha nessa Enfermaria 2? (querendo saber o misterio)

Prof. Domingos: A Enfermaria 2 foi o serviço que desenvolveu a Nefrologia no Rio Grande do Sul - na década de 60 - e onde a Dra. Noemia veio a trabalhar, muito mais tarde...

Noemia: Era coisa de nefrologista.

Prof. Domingos: Era “a Enfermaria de Nefrologia”, onde o Prof. Oly Lobato reuniu um grande e produtivo grupo.

Noemia: Eu acho que a Enf. 2 começou como Nefrologia, e as coisas na 29 como Clínica Médica.

Prof. Domingos: Não. Na verdade, todas ensinavam Clínica Médica: a Enf. 2 era a 3ª Cátedra de Clínica Médica (se não me engano), e a 29 era a Clínica Propedêutica Médica. Na verdade, o Prof. Azambuja foi o primeiro que deu atenção ao rim, na 29. No final dos anos 50 ele sugeriu ao Moisés que fosse para São Paulo.

Noemia: O Moisés foi para São Paulo?

Prof. Domingos: Sim. Passou um tempo no serviço do Prof. Luiz Décour, onde havia um grupo forte em Nefrologia: lá trabalhavam - entre muitos outros - Israel Nussenzveig e Emil Sabbaga. O grupo tratava insuficiência renal aguda com um dos primeiros (e primitivos) “rins artificiais” do Brasil: um Kolf de tambor rotatório, que eu vi em uso.

Noemia: Será que o Emil estava?

Prof. Domingos: Acho que quando o Lerrer foi para lá, o Emil ainda estava - ainda não tinha ido para Boston. Lembro-me que estive no Hospital das Clinicas, em julho de 63 - no ano em que me formei - e foi quando Emil voltou, acho. Lembro que era um ambiente extremamente agitado, fervilhante. Havia uma certa rivalidade com o serviço do Prof. Ulhôa Cintra, que era muito forte em endócrino.

Sebastião: A sua saída para o exterior, foi para onde?

Prof. Domingos: Foi para Chapel Hill, na Carolina do Norte.

Sebastião: Com quantos anos?

Prof. Domingos: Acho que tinha 27 anos.

Noemia: Já era casado?

Prof. Domingos: Sim.

Sebastião: Casou quando era Residente?

Prof. Domingos: Não, casei quando terminei a Residência Médica e, depois, fomos para os Estados Unidos.

Noemia: O que tu estavas fazendo em 64 (época do golpe militar)?

Prof. Domingos: A Residência Médica.

Noemia: Não foi bem isso que eu queria saber...

Prof. Domingos: O que eu estava fazendo?

Sebastião: Estudando ou guerrilhando?

Prof. Domingos: Estava estudando... (Sebastião meio decepcionado)

Noemia: Mas, 1963 foi fervilhante...

Prof. Domingos: Acho que o período mais agitado - que eu me lembre - foi 1961, durante a chamada “Legalidade”.

Noemia: Isso é uma história bonita.

Prof. Domingos: É. Foram dias de grande agitação, com passeatas e manifestações diante do palácio do governador, assembléia geral permanente do Centro Acadêmico, aulas suspensas, chamada às armas, muita agitação...

Sebastião: Como é que o senhor estava inserido nisso?

Prof. Domingos: Em 1961 eu estava no 4o ano; era secretário do Centro Acadêmico (na gestão do Joaquim Kliemmann, que há pouco foi Secretário Municipal da Saúde).

Noemia: O Joaquim já era ativista?

Prof. Domingos: O Joaquim era agitado mas, naquele tempo, acho que não tinha uma posição ideológica definida.

Noemia: Eu acho é que havia alguns intelectuais de esquerda, e outros que entravam sem entender muito o movimento.

Prof. Domingos: Logo após nossa gestão, assumiu a presidência do Centro Acadêmico o João Carlos Haas Sobrinho. Ele era da turma de 64, e fez Residência comigo. Era um sujeito inteligente, com idéias políticas definidas, de posições muito firmes à esquerda, que falava com muita tranqüilidade, sem grande emoção. Por isto, nunca imaginei que fosse desaparecer, ir para Cuba, para a China, e voltar guerrilheiro...

Sebastião: O senhor era secretário do Centro Acadêmico?

Prof. Domingos: Sim.

Noemia: Foi no palácio?

Prof. Domingos: Eu não tenho certeza. Nós todos participamos da agitação.

Sebastião: Como aluno?

Prof. Domingos: Sim, como aluno.

Sebastião: Então, esses 3 anos convivendo lá na Enfermaria 29 foram um fator fundamental para escolher a Nefrologia como especialidade?

Prof. Domingos: Acho que sim.

Noemia: E porque tu nunca foste para a Enfermaria 2? Sabe que é uma coisa que eu sempre tive curiosidade de saber, como é que tu não foste pra lá?

Prof. Domingos: Na verdade eu me desenvolvi dentro da Enfermaria 29...

Noemia: Mas tu não continuaste na 29...

Prof. Domingos: Sim, Noemia, continuei. Continuei na 29 até...

Noemia: Ir para o Instituto de Cardiologia....

Antonello: Prestou concurso?

Prof. Domingos: Isto foi depois. Eu já era professor.

Noemia: Então, muitos anos depois.

Prof. Domingos: Eu nunca deixei de estar envolvido com a Enf. 29: passei até o 6o ano lá, fiz Residência (dois anos) lá, saí para a Fellowship e, quando voltei, fui nomeado Auxiliar de Ensino na Clínica Propedêutica Médica (era condição da bolsa da Kellogg /ACP que, no retorno, o bolsista fosse contratado).

Noemia: Não foi na Nefrologia?

Prof. Domingos: Não. Não existia Nefrologia.

Sebastião: Aí o senhor retornou e foi nomeado professor?

Prof. Domingos: Sim. Na verdade fui nomeado Auxiliar de Ensino.

Antonello: Era nomeação? Não era concurso?. Como é que era isso?

Prof. Domingos: No meu caso foi nomeação, porque esta era a condição para eu ir para os Estados Unidos como bolsista...

Antonello: Ah, correto.

Sebastião: Chegou a encontrar com o Dr. Horácio em Chapel Hill?

Prof. Domingos: Horácio Ajzen? Não. O Horácio esteve lá antes de mim. Ele esteve com o Woods, uma pessoa extremamente amável, também.

Sebastião: Dois anos por lá... Se pudesse tinha ficado mais, ou realmente o senhor tinha “enchido o saco”, e estava doido para retornar?

Prof. Domingos: Não. Eu não “enchi o saco”. Aquilo que o Emil te falou é exatamente assim: nosso único meio de contato com o Brasil era o correio. Era por escrito. Ao longo dos 2 anos, devemos ter trocado umas 150 cartas com nossas famílias. Praticamente, não havia telefone, pois uma ligação podia levar até 48 horas para se completar. Naquela época, meu sogro estava muito doente, e estávamos querendo voltar...

continua

 

 


 

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