Prof.
Aluízio da Costa e Silva
Professor Dr. Aluízio
da Costa e Silva durante toda a entrevista esbanja lembranças e poesias
de maneira farta. As recordações da sua infância e adolescência são
imagens que constróem um painel real e lúdico ao mesmo tempo.
Considerado no meio médico e acadêmico, esse ex-Professor da
Universidade de Brasília concede uma entrevista memorável à Med On
Line. Participaram desse encontro, numa manhã azul de Brasília, os
colegas: Francisco de A. R. Neves, Ralff C. J. Ribeiro, Istênio José
F. Pascoal e Marcelo A. M. Almeida
Agradeço a todos
Sebastião
Rodrigues Ferreira Filho, editor
Sebastião:
Dr. Aluízio, a vocação médica... como surgiu?
Prof. Aluízio:
Na realidade, eu nasci no Recife, em 1935, no coração do movimento
urbano. Todas as vezes que penso na minha casa, lembro que na minha rua
passava um bonde, que me deixou muitas lembranças e muita experiência
de vida. Nesse local, nasci e cresci aprendendo muito sobre as pessoas,
as circunstâncias do desenvolvimento das comunidades e da experiência
de vida. O interesse por medicina, na realidade, está muito ligado à
importância que as famílias dão a assistência médica. Sou o 12o
filho, caçula de uma família de 12, e a presença do médico na minha
casa nos momentos necessários era muito prestigiada, tinha algo assim
mitológico. Também tenho uma irmã que casou com um médico, pessoa
muito bem sucedida, que influenciou muito a nós todos. Hoje, na minha
família, temos um irmão médico, minha mulher médica e vários
sobrinhos médicos.

Sebastião:
O bonde passava em frente à sua casa.
Como é que era isso ? Nós estamos falando do Recife de 1935 ?
Prof. Aluízio:
É, 1935 é o ano em que eu
nasci. O bonde, até certo ponto, era uma alegria, uma festa, que
transitava com muita freqüência.
Sebastião:
Era menino de correr atrás do bonde ?
Prof. Aluízio: Não.
Um pouco mais velho, eu tentava pegar e saltar do bonde em
movimento, essa era uma experiência lá da garotada. Cheguei a tomar um
tombo muito grande, mas não disse em casa o que tinha realmente
acontecido e tive que contar uma história diferente. Existia uma
recomendação de não tentar pegar carona no bonde em movimento, nem
subir no bonde, a não ser acompanhado. O bonde era um negócio muito
bonito, muito rico em fantasias. Chaplin
disse que a vida é um assunto local, então, aquela rua e aquele bonde
preenchiam totalmente o universo da nossa imaginação e de nossas emoções.
Outra recordação forte está ligada à 2ª grande
guerra mundial. Tinha um rádio na minha casa, Telefunken, pelo qual meu
pai passava horas e horas ouvindo os relatos da guerra, a BBC de Londres
em português. Aquilo entrava nas conversas e no cotidiano da minha casa
com muita força. Era uma casa muito cheia de irmãos e primos e, embora
eu não tivesse nenhum conhecimento da concepção e da gravidade de uma
guerra, relembro de muitos episódios, inclusive, muito claramente, do
dia da vitória dos aliados em maio de 1945,
quando eu tinha 10 anos de idade.
Sebastião:
O que aconteceu nesse dia, que marcou tanto o senhor ?
Prof. Aluízio:
Marcou muito porque o Recife, embora com características de província,
possuía muita riqueza intelectual, pois é uma cidade que tem quase 500
anos de porto, uma economia no
passado muito próspera por causa do açúcar, formou uma elite
diferenciada, produziu muitos intelectuais, escritores, cientistas e
lembro que houve uma grande comemoração.
Marcelo:
Dentro de sua casa ?
Prof. Aluízio: Não,
nós fomos para a principal rua do Recife, a rua da Imperatriz, onde se
comemoravam os grandes eventos, e houve uma grande passeata.
Lembro que fui levado pelas mãos dos meus pais e meus irmãos .
A alegria daquele momento contagiava muito a população.
Sebastião:
E o senhor na época sabia a exata razão daquela alegria ?
Prof. Aluízio:
Eu não tinha noção da profundidade, mas, obviamente, o espaço de
importância da guerra na minha cabeça estava presente. Via meu pai até
altas horas da noite tentando ouvir as notícias da guerra pelo rádio
Telefunken, com muita dificuldade e cheio de ruídos.
Sebastião:
Como era o nome do seu pai ?
Prof. Aluízio:
José da Costa e Silva e o da minha mãe era Eugênia Ribeiro Costa.
Sebastião:
E ele fazia exatamente o que ?
Prof. Aluízio:
Meu pai era uma pessoa egressa da pequena burguesia pernambucana, era um
comerciante de tecidos, medianamente próspero, pessoa extremamente econômica.
Para alguns, um avaro, mas hoje eu entendo profundamente as razões
dele. Hoje eu entendo que a responsabilidade de criar 12 filhos era
muito grande. O curso primário
nós fazíamos no sistema público, mas o curso secundário era todo
pago. Lembro que no cotidiano do trabalho na loja ficavam sobras,
restos de fios e ele
os levava para casa. Então, reunia os filhos e produzia cordão de má
qualidade, para embrulhar pacotes de segunda categoria. O
cordão de qualidade tinha que ser reservado para pacotes mais
sofisticados. Outra coisa desta sua faceta econômica era o hábito de
dividir os palitos de fósforos ao meio. Ele comprava os fósforos Fiat/Lux
e para cada uma caixa de fósforo fazia duas
Istênio:
Partia no meio.
Prof. Aluízio:
Partia no meio cada palito. E
partia com muita precisão.
Sebastião:
O senhor o ajudava nas vendas ?
Prof. Aluízio:
Se o meu pai estivesse vivo estaria com 100 anos. Ele
morreu em 1952, com 65 anos, com insuficiência renal crônica.
Algumas pessoas já me alertaram que provavelmente fiz nefrologia
por causa disso. Ele era
egresso de uma família de 3 filhos homens e 1 filha mulher, que morreu
tuberculosa. O pai dele era um proprietário de sítio de coco numa
praia próximo ao Recife, que hoje é uma praia até muito badalada
-Nova Cruz - defronte à praia de Maria Farinha.
Meu avô tinha barcaças de velas grandes que transportavam coco
para a cidade do Recife e voltava com outros gêneros. Essa cidade era
meio que uma ilha. Minha mãe me contava que o meu avô paterno era também
um homem extremamente econômico, pois guardava o dinheiro no bolsos e
os costurava (risos).
Istênio.
......... O sogro dela ?
Prof. Aluízio: O
sogro dela (risos). Acho que a tendência, no lado prospero da nossa família
é mais para costurar o dinheiro no bolso (risos) do que para a
prodigalidade. No início da puberdade, esse meu avô, dava uma quantia
em dinheiro e mandava os filhos
irem embora para o Recife afim de ganhar a vida. Desse modo,
meu pai foi para o Recife e montou uma loja, a Casa América,
muito bonita, num prédio muito bonito. Era uma loja muito sofisticada,
com tecidos importados etc. etc e, através dela, sustentou os filhos.
Tinha uma clientela muito diferenciada.
Mas ele não gostava muito que a gente trabalhasse na loja,
queria que ficássemos em
casa estudando. Apesar de ser apenas semi alfabetizado, meu pai lia
muito e achava que toda a conjuntura de desenvolvimento humano,
intelectual e material estava ligada ao estudo. Lá em casa tínhamos
violino, piano, uma série de instrumentos para o ensino de música, que
era uma paixão do meu pai. Porém, ninguém aprendeu música lá! Todo
mundo abandonava a música já nas primeiras aulas.
Ele fez um grande esforço para formar os filhos em curso
superior, mas a graduação de apenas seis dos filhos já ocorreu
tardiamente. Eram os mais jovens .
Sebastião:
Que tipo de emoção o senhor sente quando recorda esses fatos ?
Prof. Aluízio:
É uma emoção muito misturada, híbrida, porque o esforço fantástico
que ele fez, foi mais ou menos frustrante, no inicio, na primeira metade
do tempo de vida dedicado a gerência do processo educacional da prole.
O processo para alcançar objetivos de graduação dos filhos, naquela
época, era muito difícil, complicado, principalmente quando você
tinha uma pequena rede de ensino superior. É também muito complexo
entender o procedimento pedagógico
e orientar os filhos quando você não passou por
curso universitário.
Sebastião:
E a figura materna ?
Prof. Aluízio:
Minha mãe era uma figura meio estigmatizada, mas eu tenho recordações
muito positivas da minha mãe.
Ela era parkinsoniana.
Istênio:
A partir de que idade ?
Prof. Aluízio:
Olha, desde que eu me lembro, desde as minhas primeiras impressões do
universo que me cercava, lembro dela parkinsoniana. Mãe de 12 filhos,
uma grande trabalhadora, porque assim logicamente tinha de ser.
Sebastião:
O senhor foi o último ?
Prof. Aluízio:
Fui o último, o caçula. Nós fomos 13, perdeu-se um irmão e ela criou
12. Carregava consigo todo o estigma do mal de Parkinson. Sob o ponto de
vista da atividade motora, a paralisia não era tão grave. Morreu aos
61 anos, dois anos antes da minha graduação. Minha mãe era
considerada uma figura santificada, mãe de 12 filhos, muitos
netos e extremamente paciente. Ela deixou uma marca muito grande
na família, tanto que o nome dela se reproduziu em
filhos e netos:
Isabel Eugênia, Maria Eugênia, Eugênia Maria, Eugênia e meu irmão
que morreu, o Eugênio. Meu filho mais velho tem o nome Eugênio em
homenagem à minha mãe e a esse meu irmão.
Então, ela foi uma figura muito marcante sob ponto de vista da
imensa grandeza e do estigma da doença. Já meu pai deixou também uma
recordação muito boa. Todavia, era um homem extremamente rígido e
muito polarizado em política. Por exemplo, era um homem conservador e
tinha amigos do governo, da situação política.
Quando vieram as leis trabalhistas, ele passou a ter uma grande
implicância contra o Getúlio. Na loja do meu pai, no final da tarde,
tinha sempre uma reunião desse pessoal. Freqüentavam
outros de oposição como Osório Borba - que era presidente do
partido socialista brasileiro, e um tal de
Dourado que era um contador do partido comunista. Embora ele
fosse um homem conservador de direita, nessa reunião ao final a tarde
ele passou a discriminar quem aderia ao governo de Getúlio .Depois de
um certo tempo ficou pôr lá
apenas o pessoal do
partido socialista e do partido comunista (risos).
Istênio:
Situando geograficamente a sua infância, Recife é uma metrópole litorânea
hoje e com praias integradas à sua própria dimensão urbana. Na sua época,
as praias eram um pouco distantes.
O senhor as freqüentava como os recifenses de hoje ou ia mais em
épocas de veraneio ?
Prof. Aluízio:
Bom, a praia é aquela coisa, não é Istênio ?, você conhece.
Realmente, o maior impasse para nós de lá é a falta da
gratificação estética, sob o ponto de vista da paisagem.
Nós, nordestinos de beira de praia, sofremos em Brasília com a
falta de praia. A praia era
uma constante muito forte na nossa infância, mas não a freqüentávamos
quotidianamente ou com
regularidade nos fins de semana. Isso
era privilégio de poucos. O
que nós fazíamos era o seguinte: todos os anos, meu pai alugava uma
casa em Olinda e nós veraneávamos
por dois meses. Era
curioso, porque a nossa mudança era feita de bonde, tinha um bonde que
passava pela Av. João de Barros e ia até
Olinda. Mandávamos
a mudança num bonde e íamos no outro.
Istênio:
O senhor jogava bola nessa época ?
Prof. Aluízio:
Sim. Mas eu fui um
jogador de bola muito incompetente...
Istênio:
... incompetente em que posição ?
Prof. Aluízio:
Deixa eu contar uma história. O
meu pai, com o puritanismo e o vigor dele, reprimia muito meus irmãos
mais velhos porque eles eram adeptos do Sport Clube do Recife, onde
praticavam esportes, alguns inclusive foram chamados para jogar em posições
mais diferenciadas. Mas meu pai achava que futebol era uma coisa de
cafajeste; ele discriminava um pouco a atividade esportiva em geral.
Dentro da cultura rotineira do futebol brasileiro, eu tentei muito jogar
futebol. A minha casa ficava muito próxima à patota da rua que jogava
num campo chamado Leão do Norte. Lá
jogavam o Vavá (ex campeão do mundo) e o irmão do Vavá.
O pai do Vavá, seu Odilon, era um investigador de polícia, um
cara muito boa gente. Como
eu era assim da pequena burguesia e ali tinha gente pobre jogando,
misturada com a pequena burguesia da rua, da região, etc., o pai do Vavá
punha uma grande esperança em meu futuro no futebol.
Eu era do Grupo Escolar João Barbalho, por isso ele me chamava
de Barbalho e tentava me privilegiar.
Às vezes, dizia: "quem
bate o pênalti é o Barbalho" ... e eu errava todos os pênaltis
(risos).

Marcelo:
Sua carreira de desportista terminou pôr ai ?
Prof. Aluízio:
Depois, tentei jogar tênis, vôlei, golfe e em todas as
atividades esportivas eu fui um fracasso total, mais do que nas outras
coisas. Eu atribuo isso
talvez ao meu componente competitivo.
Ele existe, mas não é uma coisa obsessiva.
Aprendi com alguns amigos meus bem sucedidos em esportes que você
para ser um bom esportista tem que ser um competidor muito pertinaz.
Sebastião:
E o Recife como cidade, o que lhe parece ?
Prof. Aluízio:
Eu não sei se você conhece, Sebastião, mas eu tenho um conhecido que
hoje voltou para o Recife, ele fez carreira
diplomática e foi embaixador em alguns lugares.
Ele tem uma grande paixão pelo Recife e uma vez conversando
comigo, faz muitos anos, ele disse: "Olha, Aluízio, as duas
melhores cidades do mundo são Recife e Amsterdã.
Recife, porque é Recife mesmo e Amsterdã porque Maurício de
Nassau copiou tudo igual ao Recife" (risos)
Istênio:
Sua pernambucanidade ainda está muito presente, não ?
Prof. Aluízio:
Olha, Istênio, é uma coisa que eu não perdi e acho que à medida que
eu vou envelhecendo minha paixão pelo Recife aumenta mais.
Cidade da minha infância, onde eu tive um elenco de frustrações,
mas muitas alegrias, grandes emoções, amizades muito interessantes e a
convivência com a cultura pernambucana, que é extremamente singular. O
pernambucano é muito mordaz, às vezes perverso.
Em essência, não acredito que seja
perversidade, é uma coisa cultural do pernambucano de, às
vezes, amar ou agradar com uma ironia muito perversa.
Por exemplo, é totalmente impossível você ter um defeito físico
no Recife e no primeiro mês de seu curso primário não ter um apelido
depreciativo. Eu, por
exemplo, tenho uma mão muito enrugada, de velho, desde pequeno, não
sei bem a razão. Na
primeira semana de aula no jardim da infância me puseram o
apelido de mão de velha. Quando
eu comecei a perder os cabelos, passaram a me chamar de cabeça de bola
e quando, na adolescência, com a vida muito reprimida na minha região,
na minha rua, a gente tinha que namorar, às vezes eu andava com domésticas,
então me botaram o apelido preconceituoso de “Aluízio pai das negas"
(risos)

Istênio:
E o senhor merecia o apelido ?
Prof. Aluízio:
Provavelmente sim, mas acho que eles tinham inveja, muita inveja de mim
(risos)
Sebastião:
Se o senhor morasse em Recife que apelido acha que teria hoje ?
Prof. Aluízio:
Olha, sem dúvida seria uma coisa depreciativa, é difícil dizer qual
porque eles escolhem isso com muita pertinência.
É uma maneira de você ser psicanalizado muito cedo ou mesmo
tardiamente, quando você não nasceu lá.
Você imagina que eu tenho dois grandes amigos no Recife, eu não
quero dizer o nome, mas um teve paralisia infantil, é um homem muito
bem sucedido, ocupou altos cargos aqui em Brasília.
O outro hoje é um cara muito bem sucedido também.
Um é médico, o outro advogado. Nos finais de semana nos reuníamos
na casa de um deles. Era
uma casa de praia muito agradável.
A turma se reunia para tomar uma cerveja, tinha um bate-bola na
frente e um dia um dos nossos amigos disse: "Olha, seria uma coisa
muito interessante que Fulano e Beltrano participassem do jogo, nós
poderíamos botar Beltrano no gol e Fulano batendo pênalti".
Ambos têm defeito físico importante, então você vê a
crueldade do pernambucano. O
humor do pernambucano é extremamente criativo, mordaz e contundente.
Não obstante ser o pernambucano
um povo muito carinhoso, muito leal.
Istênio:
Na apreciação de Goethe, nada é mais revelador do caráter de uma
pessoa do que as coisas que a fazem rir.
Se fosse possível coletivizar esse conceito...
Prof. Aluízio:
... você quer saber como é o caráter do pernambucano ?
Istênio:
Precisamente.
Prof. Aluízio:
Muito bom caráter, embora eu ache que o melhor caráter do nordestino
é do cidadão paraibano.
Sebastião:
Estávamos comentando que o Recife é uma cidade realmente linda, eu
conheço. Como era o jovem,
o adolescente Aluízio no meio daquele burburinho. Como é que foi essa
vivência lá ? O senhor
falou em namoradas, praias, etc., mas, do ponto de vista cultural, de
engajamento, na época em que essas coisas eram muito solicitadas, como
é que era o seu comportamento lá ?
Prof. Aluízio: A
minha história é muito sinuosa, porque eu fui um aluno medíocre no
curso primário, apenas o suficiente para terminar o curso.
Na minha casa, como eu falei, o meu pai tinha uma atmosfera de
promoção do ensino, da cultura, ele comprava livros, coleções, ele
lia, para a gente e lia muito jornal, lia em voz alta, hábito que eu
também adotei na convivência com meus filhos.
Na minha adolescência
eu fui para o Colégio Marista e meu pai morreu quando eu estava no início
do curso ginasial. Eu era
mau aluno do Marista e agora eu entendo que provavelmente a morte do meu
pai, quando eu tinha 14 anos, me deixou deprimido.
Então, eu que já era mau aluno, piorei ainda mais.
Sebastião:
Porque que era mau aluno ?
Prof. Aluízio:
Eu era reprovado. Na época
do curso ginasial eu ia todo dia para a escola, mas não estudava, não
me interessava, brincava muito na aula.
Eu fiz o ginasial em oito anos, repeti o 1o, o 2o, o 3o e o 4o
anos, mas nesse período nós tínhamos uma turma de amigos que era
muito interessante. Por
exemplo, eu tinha um amigo, o Syleno Ribeiro, que era de uma família
modesta, porém muito intelectualizada, que lia muito.
Na minha casa se lia razoavelmente.
Na casa do Syleno a gente convivia muito com pessoas mais velhas
e eruditas. Liamos muita poesia, literatura, embora eu menos do que
eles. Este era um
assunto que tinha espaço na convivência da gente e isso levou alguns
de nós a fazer política estudantil e depois política partidária.
Quando eu fui reprovado pela última vez no Marista, era o final
do 4o ano ginasial, o padre me expulsou.
Minha turma toda já estava na faculdade e aquilo me deixava
muito frustrado, eu estava marcando passo enquanto todo mundo estava
indo para frente. Isso aí
me faz lembrar, ainda com muita tristeza, um acontecimento, um dissabor
muito grande que eu causei para meus familiares nesse episódio da
reprovação. Quando
reprovado no Marista, esse amigo Syleno Ribeiro tinha um grande
prestígio na Escola. Ele tinha sido um aluno muito bom e ele foi
negociar exaustivamente com os padres para não me reprovarem e não
obteve êxito. Era uma
besteira, eu aprendi muito mais sendo reprovado do que sendo aprovado.
O fato é o seguinte: eu cheguei em casa com a reprovação, o
meu pai já tinha morrido e eu tenho três irmãs que tomaram conta da
minha educação e foram pessoas de extrema importância no meu projeto
de vida humana e profissional. O
fato é que duas das irmãs mais velhas discutiram e brigaram gravemente
com os padres, dizendo que eles tinham sido profundamente injustos
comigo, que eu tinha competência para ser aprovado, etc.
Realmente elas assumiram uma posição ridícula na minha defesa,
porque eu era realmente o pior aluno da turma, eu era o último mesmo, não
tinha como passar (risos).
Marcelo:
Que autocrítica...
Prof. Aluízio:
Eu acho que essa experiência escolar, secundária, foi extremamente
enriquecedora, em razão
disso eu desenvolvi uma autocrítica severa, eu aprendi muito. Esse
constrangimento das minhas irmãs até hoje me leva a dizer: "Olha,
você nunca pode envolver, induzir um amigo, um familiar em tua defesa
se a situação for totalmente extemporânea.
Isso também me levou a aprender muito o seguint: No tempo da
faculdade de meus filhos, algumas vezes eles diziam: "O professor
está me perseguindo". Eu
dizia: "Que negócio de professor perseguindo, rapaz, de aluno ruim
eu entendo tudo (risos), não
venha me falar isso". Depois
de ter sido expulso do Marista, eu cheguei em casa da minha mãe e ela
disse: "Aqui não
deixa de estudar de jeito nenhum, é obrigação" Eu disse "Não
quero estudar, quero trabalhar".
"Não, você escolha a escola que quiser ir, que eu pago e
você aproveita para fazer uma reflexão".
Eu fui para escola mais folgada de Recife, chamava-se Colégio Leão
Treze, um nome muito bonito (risos).
Sebastião:
Leão Treze, mas sem garras.
Prof. Aluízio: E
o Leão Treze era um negócio incrível, porque como eu tinha uma certa
experiência de ler literatura, isso até hoje ajuda muito, eu às vezes
fazia, vamos exemplificar, uma prova de história e eu dizia para os
meus colegas: "Eu vou citar dois autores estrangeiros, eu chamava
Mr. Ford, Mr Philips, coisa
assim. Depois, o professor comentava:
"O Aluízio é um aluno de história incrível , citou
autores estrangeiros e tal, coisa desse tipo (risos).
Eu morria de vergonha, muito constrangimento, mas isso fazia parte do
deboche pernambucano.
Istênio:
Dr. Aluízio, como é que se operou essa transição de um aluno
ginasial relapso para um estudante de medicina na melhor faculdade de
medicina do Nordeste ?
Prof. Aluízio:
Quando saí do Marista aquilo me deixou uma seqüela grande, muita
frustração, eu senti que estava perdendo meu grupo de amigos.
Todos estavam na Universidade.
Eu fizera quatro anos em oito anos e aquela angústia foi se
transformando em uma grande motivação.
Quando eu comecei o cursinho foi uma tarefa quase intransponível,
porque nas primeiras aulas eu senti que não sabia praticamente nada.
Para dar um exemplo, um dia o professor disse: "Vamos fazer
o exercício aí, Aluízio, bota o símbolo do sódio e o símbolo do
cloro". Eu escrevi sódio
SO, um S e um O (risos), também
lá todos riram. A partir
dessa humilhação, eu passei um ano praticamente sem sair de casa,
estudando obsessivamente e quando eu cheguei perto do vestibular, senti
que tinha condições de ser aprovado.
Marcelo:
No primeiro vestibular ?
Prof. Aluízio:
Sim, no primeiro vestibular.
E, efetivamente, fui aprovado.
Ralff
Ribeiro: Aluízio, quando nasceu o teu interesse pela nefrologia ?
Prof. Aluízio:
Bem, a minha formação intelectual médica, dependeu muito do Prof.
Amaury Coutinho, que foi professor de clínica médica e era um
profissional que conhecia muito o método de trabalho em medicina.
Se você ler a tese do Amaury defendida no ano de 1960, eu acho
que é até um exercício que devia ser levado para os alunos, você verá
uma tese muito moderna, extremamente bem feita, sobre esquistossomose.
Eu sofri uma grande influência do comportamento do Amaury.
Ele era clínico e foi o titular da primeira médica. Por influência
dele, fui para São Paulo treinar.
No Recife não tinha nefrologistas, mas já se discutia muita
doença renal. A atmosfera
do HC-SP me influenciou muito nesse sentido, mas eu demorei lá fazendo
cardiologia, que era uma área de muito destaque no HC.
Acho que o ensino do HC para o interno, estagiário e residente
sempre foi e é extremamente forte, em muito pouco tempo se aprende
muita coisa,.
Istênio:
E como o senhor cambiou para
a Nefrologia ?
Prof. Aluízio:
Eles tinham lá o negócio do rim artificial, aquele Drum Kidney, isso
em 1963, 64. Eu achei que
se aprendesse nefrologia, contribuiria muito na volta ao Recife, mas
alguém me falou que eu fiz nefrologia porque meu pai morreu com
insuficiência renal crônica. Então,
eu não sei o que pesou mais aí.
Francisco
Neves: Aluízio, já que você começou a falar em nefrologia, na sua
opinião porque que a especialidade
hoje está atraindo menos os recém-formados em medicina ou mesmo
aqueles que querem se dedicar a uma especialidade ?
Prof. Aluízio:
Olha, Chico, eu acho difícil responder
sua pergunta, porque a gente interpreta esse tipo de
acontecimento com muita subjetividade, mas eu diria que o fator econômico
está pesando muito fortemente. Nós
temos uma especialidade que tem uma área básica de rara beleza científica
e intelectual, com muitos apelos, tanto na parte de fisiologia renal
quanto no terreno da biologia molecular e celular.
Como sabemos, o rim é o único órgão que pode ser substituído
artificialmente. Milhões e milhões de dólares foram aplicados na
tentativa de substituição do coração e nada se conseguiu. O fígado
não tem um órgão substituto e o pulmão
artificial é muito
precário. Nós temos a
beleza da área de transplante, o fascínio clínico da uremia, que é
uma doença sistêmica, toxêmica e altera praticamente toda a economia
do organismo. Então, eu
acho que deveria estar havendo um excesso de demanda para a nefrologia,
mas, dá-se o contrário, ao meu ver paradoxalmente.
Sem dúvida, hoje a variável econômica é o fator básico e
determinante da escolha da especialidade.
Istênio:
Acabou-se o idealismo ?
Prof.
Aluízio: Não sei se você lembra do Alexander Leaf, que foi chefe de
Departamento de Medicina da Harvard, era um homem muito interessante e vários
brasileiros treinaram com ele, entre eles o Roberto Santos.
Depois, o Roberto Santos foi Reitor na Bahia,
por duas vezes. Um
das vezes, eu fiquei um dia com o Alexander aqui em Brasília e ele
manifestava preocupação com a influência da mitologia e do
mercantilismo das especialidades. Um
dos grandes equívocos, dizia ele, é o preço de uma consulta médica
clínica ou pediátrica ser muito mais barata do que uma hora de um
cirurgião plástico. Ele
dizia que a hora de um cirurgião plástico pode custar 3.000 dólares,
enquanto a de um clínico no consultório custa 50.
Ele achava que não deveria existir tanta diferença.
Você, às vezes, como clínico, toma conta de um doente
exaustivamente, a família fica muito
bem impressionada com seu trabalho, etc. mas quando você entrega
o paciente para operar, o seu prestígio desmorona em favor do
cirurgião. E o
cirurgião, às vezes com um pequeno gesto do bisturi, ganha o paciente
e o prestígio. O cirurgião fica naquela sala azulejada, escondida,
vestido de máscara, gorro e roupas especiais, enfim, com toda a
mitologia que envolve os procedimentos.
Assim, eu acho que cada vez mais a variável econômica vai ser o
fator de atração das vocações especializadas.
Ralff
Ribeiro: Aluízio, o que te levou a procurar uma pós-graduação nos
Estados Unidos e o que esse
período trouxe para tua vida profissional e mesmo pessoal ?
Prof. Aluízio: A
minha experiência de treinamento no exterior novamente veio em decorrência
da influência do Prof. Amaury Coutinho, por ser ele um homem muito
ligado à Fundação Kellog's,. Naquela época, era praticamente impossível
você treinar nos Estados Unidos com bolsas institucionais.
Existiam bolsas de CNPq e CAPES,
mas eram prioritariamente destinadas aos físicos, biólogos básicos,
à astronomia. Então, você
dispunha de duas vertentes de possibilidades: uma era fazer o ECFMG
(exame de proficiência para exercer atividades de médico nos EUA) e
cumprir o programa de internato e de
residência nos Estados Unidos.
A outra era fazer o mesmo ECFMG e aplicar para uma bolsa da Fundação
Kellog's ou da Fundação Rockfeller. A Fundação Rockfeller não tinha
ligação com o Recife, mas era forte em Minas e se você olhar a história
de Minas, da qualidade médica mineira, que é muito boa, tem muito a
ver com o pessoal que treinou financiado pela Rockfeller, que tem muito
a ver também com São Paulo e particularmente com a Escola Paulista de
Medicina. A Kellog's fazia
um procedimento semelhante no Recife, como também
em alguns outros centros: Rio, Paraná e Rio Grande do Sul.
Então, eu apliquei e fui bolsista da Fundação Kellog's.
O treinamento da Kellog's era de muito prestígio e praticamente
garantia o local da sua opção de trabalho na volta. Quando aplicava
para treinar nos EUA, você escolhia três centros e eles praticamente
garantiam que num desses três você seria aceito.
O Domingos D'Ávila também foi bolsista da Kellog's e eu o
conheci no mesmo local de trabalho nos Estados Unidos.
Ele chegou um ano depois de mim .
Ralff: E quais
foram suas opções ?
Prof. Aluízio :
Na época, tinha três centros que me agradavam: o Serviço do
Maxwell em Los Angeles, o do Louis Welt em Chapel Hill e do Neal Bricker
em Saint Louis. Mas, minha
escolha tinha muito a ver com a diferenciação da área de hematologia,
porque a Meirione, minha mulher, hematologista, também estava na
parada. Na verdade, os três
centros tinham uma hematologia muito forte, mas ela tinha um interesse
maior pela área de coagulação. Ela tinha trabalhado com Michel (Abujamra)
em São Paulo e lá em Chapel Hill tinha o Brinkaus, que liderava um
grande centro de estudos da coagulação,
com muita ênfase em hemofilia. Então,
a escolha final foi por Chapel Hill.
Istênio:
Quanto tempo ficou lá ?
Prof. Aluízio:
Passei três anos, eram 4 meses em Nova York e o resto em Chapel Hill.
O Welt na época era um homem de extremo prestígio, tinha
produzido o livro texto que era mais lido na área.
Vocês devem ter estudado
no livro do Strauss & Welt.
Francisco:
Qual o impacto pessoal desta experiência lá ?
Prof. Aluízio:
Realmente a minha passagem pêlos Estados Unidos me trouxe um impacto
muito grande, muito maior do que seria hoje, porque as diferenças entre
nós e eles diminuíram. O
Hospital tinha muitas pessoas famosas: O Welt e o grupo dele, o
Gottschalk da micropunção, que era uma pessoa interessantíssima e
publicava muito. Na época,
o Welt tinha muito prestígio, tinha acabado de descobrir o defeito da
ATPase nas celulas urêmicas e, daí, um elenco de trabalhos
importantes.
Istênio:
Como foram os primeiros dias ?
Prof. Aluízio: O
impacto dos primeiros quinze dias foi muito grande.
Primeiro, me senti muito inferior, principalmente ao ver que nas
discussões científicas os clínicos tinham muita senhoridade, domínio,
dos temas básicos. Qualquer
nefrologista ali discutia aspectos sutis de reabsorção tubular, do
metabolismo de hidrato de carbono, etc.
O Welt achava que você não tinha que ir para lá aprender clínica,
tinha que aprender ciência, porque se você tivesse um bom livro, clínica
médica você podia ir para o interior do Amazonas que você terminava
aprendendo. Porém,
para aprender ciência você tinha que se engajar na atmosfera,
entrar no laboratório, botar a mão no tubo de ensaio.
Entretanto, a concepção toda que eu levei daqui era a seguinte:
"Olha, os galegos vão te botar num laboratório, não aceite,
queira só ver doente". Isso
criou conflito conosco. Comigo
e com o Domingos também, mas depois eu acreditei no discurso deles.
Marcelo:
Algum episódio marcante ?
Prof. Aluízio:
Quando eu estava lá já há uns quinze dias, aconteceu um caso
exemplar: tinha dois fellows canadenses muito bem treinados, um deles é
hoje um cara muito importante lá no Hospital
for Sick Children de Toronto, o Bill Balf.
O Bill era um sujeito arrumadinho, bem vestidinho, e o Welt
implicava um pouco com ele. Durante
as visitas na enfermaria, o Welt costumava perguntar sobre a bancada,
sobre os experimentos, sobre os dados, etc.
Naquele dia ele se dirigiu ao Bill: "Essa semana os
experimentos não deram muito certo, não é, Bill ?, Olha eu não
simpatizo muito com você mas isso não quer dizer que você não
trabalhe bem". Aí
o Bill respondeu: "Eu sei que o senhor não gosta muito de
mim, Dr. Welt, mas se gostasse eu lhe garanto que seria mais fácil eu
trabalhar bem" (risos).
Ralff:
E o aprendizado científico propriamente dito ?
Prof. Aluízio:
Um grande impacto também foi ver, na época, a riqueza do laboratório.
Eu fui para os Estados Unidos em 66, eles estavam vivendo um momento de
grande prosperidade econômica e científica.
Por exemplo, para ir a um congresso eu chegava na secretária e
dizia: "Eu quero que
você tire uma passagem e libere minhas diárias que eu vou para tal
congresso". Ela
preenchia, o Welt autorizava. No
laboratório eu tinha autorização para gastar até um X sem consultá-los;
tinha o número do “grant", eu telefonava para a “sigma,” por
exemplo, e pedia tal e qual reagente diretamente.
Naturalmente, a partir de um certo valor eu tinha que ter
autorização. Então, eu
tinha saído de uma pobreza pernambucana incrível, o Hospital das Clínicas
em Recife tinha uma tradição rica de médicos e tutores muito
competentes, mas procedimentos básicos eram ainda muito limitados.
Sebastião:
E o Welt, pessoalmente, como era ?
Prof. Aluízio:
Era muito erudito e competente.
Estava fora da bancada já há algum tempo, mas a conhecia
profundamente.. Como eu era
o cara que menos sabia mexer com laboratório, por mais de uma vez o
Welt desceu para fazer o experimento comigo.
Ele era um craque no laboratório, um homem extremamente
rigoroso, sob o ponto de vista de metodologia científica.
Todo Sábado, de 9 da manhã até o tempo perder de vista, ele
discutia todos os trabalhos, de todos os fellows.
Todos tinham que estar presentes, não podiam sair e a discussão
era extremamente rica. Quando
voltei pro Brasil percebi que eu tinha adquirido muita informação
metodológica. Porque não
era brincadeira, todo mundo trabalhando no laboratório, o laboratório
era grande, na época era um laboratório com 6 centrífugas
refrigeradas, a gente tinha que fazer agenda semanal de utilização, do
contador gama, da centrífuga etc.
Ele tinha uma peculiaridade, era um sujeito meio ranzinza. Quando
a turma chegava toda engravatada para a reunião científica do Sábado
e ele sabia que iriam sair de lá direto para o
jogo de futebol, ficava atrasando a reunião científica.
Atrasando até não poder mais.
Sebastião:
O senhor foi casado para os Estados Unidos?
Prof. Aluízio:
Sim, eu fui casado com minha primeira e única mulher (risos).
Sebastião:
Casou no Recife?
Prof. Aluízio:
Casei no Recife. Minha
mulher é minha colega de turma.
Sebastião:
E ela já foi para os Estados Unidos junto com o senhor ?
Prof. Aluízio:
Havia uma regra na Kellog's que proibia a viagem da mulher nos primeiros
4 meses, porque era um treinamento que eles davam.
Era um treinamento muito fraco, botava a gente um tempo num
Hospital e treinavam alguma coisa na linha da semiologia.
Tinha um curso de inglês, também muito fraco, inglês para
medicina. Eles diziam para
não levar a mulher, mas eu levei minha mulher e eles ficaram meio
contrariados. Naquela idade
passar quatro meses em Nova York sem mulher era muito duro (risos).
Sebastião:
E o senhor foi com filhos ? Já tinha filhos ?
Prof. Aluízio:
Eu tinha um filho de poucos meses. Acho que eu e minha mulher éramos
muito imaturos, porque quando a gente foi imaginou que logo mandaria
buscar o menino. Bem, eu
tenho um irmão que não tem filhos e ele ficou tomando conta do meu
filho. Quando a gente se
acomodou lá, meu filho tinha 7 meses e eu mandei busca-lo.
Então, meu filho foi tirado dos braços do meu irmão e da minha
cunhada onde ele estava totalmente adaptado, não me conhecia mais,
chegou lá, foi um trabalho para adaptar ele de volta. A felicidade era
que ele me confundia com meu irmão, que parece comigo, muito mais feio
do que eu, mas parecia, careca também (risos)
essa foi uma fase difícil para gente. .
Sebastião:
E o senhor ficou quanto tempo nos Estados Unidos ?
Prof. Aluízio:
Em Chapel Hill fiquei dois anos e alguns meses.
Sebastião:
Voltou direto pro Recife ?
Prof. Aluízio:
Voltei pro Recife e na realidade o impacto da volta foi complexo porque
eu tinha me adaptado com o método americano de trabalho. Tinha hora
para começar, toda uma organização, recursos, tempo integral, etc.
Lá no Recife eu tinha que ter consultório, não havia dedicação
exclusiva, dedicação exclusiva é uma coisa recente no Brasil.
Aí eu tive dois convites, um para ir para Botucatu
e outro para a UnB. Para o casal.
Eu vim visitar a UnB e achei que a UnB tinha uma estrutura muito
forte de trabalho, o salário era muito
bom, tinha apartamentos funcionais, tinha uma série de coisas e nós,
finalmente, optamos Brasília.
Sebastião:
Não foi uma decisão fácil, imagino, sair do Recife, que é uma
metrópole praiana e sua cidade natal.
Prof. Aluízio:
Olha, eu costumo dizer o seguinte: para você manter o casamento eterno,
você tem que mudar de emprego ou de cidade a cada 10 anos (risos).
Isso é uma brincadeira, claro.
Eu ainda tenho uma grande paixão pelo Recife, porque eu não saí
com raiva da cidade. É
muito fácil você se adaptar noutro lugar quando você sai mal.
Então, como eu era muito querido lá, tudo me era favorável no
Recife, a saída foi uma coisa extremamente difícil sob o ponto de
vista de minha afetividade e adaptação.
Afetividade das emoções humanas, da paisagem, do mar, da praia,
do sol pernambucano. O que
nos moveu mais foi realmente o apelo profissional. Eu tinha a impressão
de que seria um cara muito competente em ciências, o que não tinha
nada a ver (risos).
Eu achava que ia desabrochar como uma peça muito importante no
país. Foi o narcisismo que
prejudicou a decisão. Hoje
eu acho que foi uma decisão extemporânea.
Acho que se tivesse ficado no Recife tinha
dado certo, não tinha problema nenhum.
Agora, depois que
você vem e que tudo acontece, acho
que rachar com suas origens é uma coisa extremamente enriquecedora, até
sob ponto de vista de tua felicidade.
Você aprende muito com o julgamento do teu passado e da tua região
quando você está distante deles.
Sebastião:
Professor, eu vejo no senhor uma autocrítica muito forte, a maneira
como o senhor falou do curso primário, a maneira como o senhor colocou
algumas questões, inclusive da carreira, da vida, eu diria que o senhor
é um crítico muito forte do senhor mesmo, esse é um traço mesmo ou
é só impressão minha ?
Prof. Aluízio:
Sebastião, quem conviveu comigo, e quem mais conviveu comigo no laboratório
foram o Ralff e o
Chico, que estão aqui, sabem que eu acho que a autocrítica é uma
qualidade que a gente deve desenvolver e aprimorar continuamente.
Não estou sofismando. Eu
realmente acho que o homem inteligente é aquele que aprendeu a se
medir, e a pessoa que deu certo é aquela que aprendeu a si medir certo.
Isso não implica que você não deva ter ousadia.
As origens dessa minha visão está no fato de eu ter sido um
cara que se frustrou muito no início de sua vida estudantil, no curso
secundário, com reprovações, muita nota ruim e mesmo zeros.
Embora eu ache que a autocrítica seja uma coisa fundamental, ela
me criou um problema. Perdi o componente narciso e eu também considero
que o sujeito não pode viver sem ele.
Um narcisismo moderado é um motor muito importante.
Marcelo:
Aluízio, como é que foi a sua chegada em Brasília ?
Você chegou muito motivado e em seguida veio a repressão.
Como é que foi esse período, como é que você viveu tudo isso
?
Prof. Aluízio:
Como eu estava falando, Marcelo, a primeira fase aqui foi de muito
deslumbramento, as instalações, os recursos, a experiência do HU em
Sobradinho, que foi uma experiência muito boa, muito bem imaginada.
O Hospital era simples, nós éramos 70 professores, mas conseguíamos
oferecer um curso eficiente. Os
caras aprendiam e depois iam lá para fora, se davam bem e tal, mas
realmente vivia-se no país uma época autoritária nos comandos dos
cargos, das chefias. O
autoritarismo vazava, se capilarizava até chegar na ponta.
A atmosfera autoritária era muito neurótica, isso entrava
fortemente na disputa intelectual.
Por exemplo, mais de uma vez no final de semana a turma ia e
esvaziava o laboratório de Meirione e tirava tudo. Quando ela chegava
na segunda feira não tinha com que trabalhar.
Isso aconteceu 3 vezes, a última vez foi quando ela mandou a
tese para defesa de doutorado. Dessa vez, tiraram tudo e mudaram a chave
do laboratório. Havia um tipo de competição absurdamente predatória,
maluca, que não ajudava. Comigo
o pessoal respeitava mais, quer dizer, mexia menos comigo, mas a maneira
de mexer comigo era mexer com a Meirione.
Era uma universidade muito bem administrada, rica, a parte
administrativa funcionava muito bem, competente, mas a atmosfera de
trabalho era muito poluída pôr esse varejo autoritário e doente.
Istênio:
Isso fez do Aluízio secundarista pequeno burguês um homem de esquerda
? Quero dizer, um sujeito
reativo a esta postura autoritária ?
Prof. Aluízio: Não,
não necessariamente. Esse
negócio de idade é complicado. Se
eu fosse começar hoje na universidade, a história seria muito
diferente. Veja, algumas vezes eu aceitei participar de Conselhos e, então,
eu vinha com aquela ideologia, tudo de errado eu brigava, as vezes eu
virava o rumo da votação. Então,
quando a turma viu que eu era rebelde, eles me respeitavam muito sob o
ponto de vista intelectual, mas batiam na Meirione. Eu
tinha muitos amigos de esquerda e de direita.
Na verdade, eu sou muito eclético para essas coisas.
Fiquei estigmatizado como um cara de esquerda, mas na realidade não
era. Sou um anarquista,
sempre tive muitos pontos de contestação às diferentes ideologias.
Como eu disse antes, aprendi tudo nos meus oito anos de reprovação
em curso secundário. Não
foi brincadeira.
Sebastião: Após
a sua saída da UnB o senhor foi para o CNPq ?
Prof. Aluízio: Não,
rapaz, quando eu saí, quando eu vi que não dava mais, eu tinha 46 anos
e decidi que ia sair. Entreguei minha demissão, cumpri aviso prévio e
saí desempregado. Aí
aluguei um consultório e passei os primeiros meses com muito pouco
movimento, depois o consultório cresceu muito.
Então, houve um concurso no Hospital de Base e eu fui ser
nefrologista lá no Hospital de Base.
Foi uma experiência muito interessante.
Depois, quando o Pavan veio presidir o CNPq, me convidou para
coordenador da área de projetos em saúde.
Antes disso, entretanto, como eu estava desempregado e tinha
muitos amigos no CNPq, eles me chamaram para ser médico do CNPq, o que
foi uma experiência até interessante ser médico de repartição (risos).
Sebastião:
E como foi essa sua passagem pelo CNPq ?
Prof. Aluízio:
Talvez tenha sido uma coisa um pouco equivocada, mas acho que era um
pouco de saudosismo acadêmico. Eu
tinha largado a universidade, então no CNPq eu iria mexer com as verbas
de projeto, uma posição de certo prestígio, mas na realidade eu já
tinha optado pela minha atividade privada, que foi muito cerceada pelo
trabalho no CNPq. O meu
consultório a essa altura já era próspero e eu tive que restringir
muito. Eu gostei do CNPq. O
CNPq era uma instituição muito civilizada, tinha técnicos de muito
bom nível, muita gente bem treinada, muitos egressos de universidades.
Sebastião:
Ficou lá quanto tempo ?
Prof. Aluízio:
Eu fiquei lá uns 7 a 8 anos, mas como chefe da área de saúde fiquei 3
ou 4 anos. Na época tinha um presidente que era um homem muito ousado e
com muita abertura, que era o Pavan
Sebastião:
Professor, uma situação que eu queria que o senhor comentasse é a
respeito dessa amizade do senhor com o Dr. Oswaldo Ramos e aquele
discurso que o senhor fez, aquela homenagem que o senhor prestou lá em
Natal. Eu queria que o
senhor comentasse um pouquinho esse relacionamento com ele e como o
senhor vê a Escola Paulista sem ele ?
Prof. Aluízio:
Olha, a minha amizade e o meu relacionamento com Oswaldo Ramos começou
por ocasião do 3º Congresso Mundial de Nefrologia, que foi
em Setembro de 1966 em Washington.
O Oswaldo estava por lá junto com o Horácio, o Emil e o Bernado
Leo Wachemberger, este último endocrinologista que gostava muito de
nefrologia. Eu já era
amigo do Emil e do Bernardo. A
gente se encontrava toda noite e eu passei a conhecer o Oswaldo.
Por coincidência ele tinha uma viagem programada para Chapel
Hill, onde eu já era bolsista. O
Welt fazia experimento em cão, na época estudava o fator natriurético,
o fator 3, era só no que se falava.
Eles queriam ver os experimentos, ele, o Horácio e o Emil.
Foram à Chapel Hill e aí ele foi me ver no laboratório e
conversamos muito. Daí
surgiu uma grande amizade e uma admiração mútua, porque eu acho que o
Oswaldo era um homem muito diferenciado, sob o ponto de vista
intelectual. Tinha uma
concepção de comando extremamente inteligente. Ele colocava a
potencialidade das pessoas acima das disputas localizadas.
Não entrava muito no assunto local, existiam as preferências
dele, mas nenhuma pessoa competente que trabalhasse sob a supervisão do
Oswaldo era tolhida. Pelo
contrário, ele podia não gostar dela mas provia os meios de a pessoa
se desenvolver. Enfim, acho
que o grande impacto que ele causou na nefrologia foi
decorrente dessas qualidades. Aquilo alí na EPM era uma briga
permanente. Não sei se trabalhou na EPM, se você passou por lá...
Sebastião:
... eu fiz o doutorado lá.
Prof. Aluízio:
É ? Então você sabe bem disso. A
disputa interna era muito grande e eu acho que, na estratégia de
administração do Oswaldo, ele estimulava essa disputa para obter
resultados. Ele tinha um método muito especial de comandar.
E muito inteligente. Ele
plantou raízes muito fortes no país e isso vai ser medido ao longo dos
próximos anos ou já é medido pela presença da Escola Paulista de
Medicina na nefrologia no Brasil todo.
Bem, eu aprendi muito com o Oswaldo.
Ele era uma pessoa absolutamente sem rancor, sem inveja e ao
mesmo tempo tinha um comportamento paternalista muito forte com as
pessoas a quem queria bem. Lembro de um episódio interessante. Certa
vez, ele, o Emil e eu estávamos jantando aqui em Brasília e eu
perguntei a ambos qual era o segredo de eles terem sido tão bem
sucedidos, qual era o método de comando, de administração, etc .
O Emil me disse: “Olha,
Aluízio, eu estou há tantas décadas lá no HC e, a não ser por condições
especiais de compromisso profissional, eu nunca cheguei atrasado, nunca
saí antes e não admito que ninguém faça isso”.
Veja, uma metodologia de disciplina rígida. E o Oswaldo me
falou: “Aluízio, eu
nunca fiscalizei ninguém, eu nunca estou preocupado qual a hora que
chegam e nem a hora que saem, se estão de férias ou se estão
trabalhando. Agora, só não
podem faltar ambulatório, nem aula, e no fim do ano, quando a gente vai
se preparar para o Congresso você tem que medir o produto científico
final deles. Se não
produzirem, vão se dar mal no serviço”.
Eu achei muito interessante, porque são duas pessoas
extremamente bem sucedidas, igualmente bem sucedidas, mas com métodos
de comando totalmente díspares.
Sebastião:
Como o senhor avalia a ausência do Dr. Oswaldo ?
Prof. Aluízio:
Você tinha me perguntado isso e eu esqueci de responder.
Eu acho que a ausência dele fica minimizada porque ele deixou as
bases da concepção do serviço prontas e os grupos que disputam vão
agora comandar as disputas dos seus respectivos subalternos. Eles vão
crescer muito. Eu acho que
em função inclusive dessa competição é que a gente está vendo isso
lá, grupos e subgrupos.
Sebastião:
Mantendo sempre a mesma qualidade ?
Prof. Aluízio:
Olha, aferir a qualidade é sempre complexo, mas é muito pouco provável
que não haja uma melhora da qualidade ao longo do tempo, tanto no
pessoal da USP quanto no pessoal da EPM. Ambos
são suficientemente bem treinados para não permitir solução de
continuidade e ainda têm a FAPESP que não deixa eles na mão.
Sebastião:
Agora, antes de encerrar, o que o Ralff e o Francisco, discípulos,
podem falar sobre o Aluízio ?
Ralff: A gente
tem realmente uma grande admiração pelo Aluízio.
Lembrar que a liderança que ele trouxe para a cidade de Brasília
no terreno nefrológico é patente quando a gente percebe a quantidade
de pessoas que foram influenciadas por ele.
Ele foi a primeira pessoa quando eu entrei na universidade que
mostrava sempre a perspectiva do outro, mostrava sempre as opiniões
diferentes, devolvia sempre os questionamentos que pareciam ser
simples e, na verdade, estavam sempre dentro de um contexto muito
mais amplo. Era também uma
pessoa que exigia muita disciplina no trabalho, exigia trabalho e isso aí
a gente tem uma experiência extremamente agradável daquela época,
porque ele conseguia fazer tudo isso sendo uma pessoa extremamente
exigente, sem nunca ser chato. Pelo
contrário, ele é uma pessoa extremamente agradável.
Eu acho que todo mundo que conhece ele sabe disso e ele nos
motivava de uma forma fantástica para o trabalho.
Acho que ele invutiu isso da gente, mas talvez a gente nunca mais
vá conseguir reproduzir isso. Certamente
marcou minha pessoa, marcou o Francisco, marcou outras pessoas de uma
forma indelével. Hoje a
gente está de volta a Brasília não só pela lembrança mas pela
presença do Aluízio ainda em Brasília.
E a gente está com uma herança muito árdua, qual seja a de
tentar reproduzir agora, na prole da gente, quer dizer, nas pessoas que
estão no circuito da gente, uma estratégia que ele utilizou com a
gente que foi muito bem sucedida. Isto
é, criar uma visão, trazer uma visão de mostrar que a gente é
limitado, mostrar que a gente precisa de trabalhar em equipe e de ver o
que é feito de importante fora do país.
Então, ele realmente plantou essas sementes que estão presentes
com a gente ainda hoje. Ficamos
não só com a gratidão, mas a responsabilidade de devolver aquilo,
aquele tesouro fantástico que ele plantou na minha pessoa e no
Francisco.
Francisco:
Essa nossa volta a Brasília, o Ralff e eu voltamos juntos dos Estados
Unidos para cá, tem muito a ver com o Aluízio.
É interessante, quando ele fala que não está mais seguindo a
literatura, é uma expressão de modéstia, porque ele continua sabendo
tudo o que está acontecendo. Mais:
ele continua cobrando da mesma forma e com certeza foi uma das pessoas
fundamentais para a nossa instalação aqui.
Ele está sempre pronto para conversar, dar palpite de vez em
quando, contestar o que a gente está pensando.
Ele sempre se coloca do nosso lado, mas, ao mesmo tempo,
tentando, com a visão crítica dele, nos alertar para as inúmeras
possibilidades que você tem para nossas concepções.
Então, eu não tenho dúvida nenhuma, foi um privilégio ter
sido iniciado e formado pelo Aluízio
Prof. Aluízio:
Eu acho que você deve ter essa dúvida (risos)
Francisco: Não.
Eu acho até que essa entrevista está mostrando isso.
A questão da erudição, a importância da erudição dentro da
ciência. Erudição, êxito,
ciência básica ou médica, a importância dela para você entender os
fenômenos até da própria ciência.
Sebastião:
Prof. Aluízio, vamos terminando, mas antes de sair tem um pedacinho que
tá faltando aí. Quando eu
estava vindo para cá, no avião, estava lendo um trecho de um livro que
continha a seguinte indagação: “Que tipo de gente é essa que não
se emociona com o soneto, que nunca se emocionou com um soneto, e vira médico,
vira engenheiro, se torna tecnicamente brilhante, mas nunca se emocionou
? Enfim, uma formação super técnica, mas desumanizada.
O que é que é isso ?
Prof. Aluízio:
Eu te falei que na minha formação de adolescente a gente discutia
essas questões, eu não sou erudito, mas gosto de leitura e incutia
isso nos meus alunos. Emocionar-se
com essas coisas depende das oportunidades que você teve e de uma
sensibilidade especial que você pode ter.
Vou te contar uma história: eu falei de minhas reprovações, até
o último ano do curso ginasial eu já tinha sido reprovado três vezes
e seria reprovado a quarta vez. Mas
eu fiquei na dependência de duas recuperações,
em segunda época, como se dizia. A
primeira prova era de português e o padre do Colégio Marista disse:
“Olha, quem chegar aqui e recitar uma poesia certinho, tudo bonitinho,
ganha quatro e já está aprovado”.
Eu não sabia nada de gramática, mas lia muito Manuel Bandeira,
Carlos Drumond, Afonso Guimarães, etc.
Quando chegou na minha vez o padre disse:
“Aluízio, você vai optar pela poesia ou pela gramática ?, Eu
disse, convicto: Poesia! Os estudantes que me haviam antecedido
recitaram poesias religiosas “Nossa Senhora, rezando ao pé do
morro...” . Ele, então, perguntou: “O que é que você vai recitar
?”. Vou recitar uma
poesia de Manuel Bandeira, Andorinha, Andorinha.
E, aí, disparei: Andorinha,
Andorinha / Lá fora está cantando / Passei o dia à toa, à toa /
Andorinha, Andorinha / Minha cantiga é mais triste / Passei a
vida à toa, à toa... Aí o Padre Assunção, reagiu: “preguiçoso,
zero, reprovado! e acabou com a minha competência (risos)
Sebastião:
Professor, quero agradecer ao senhor.
Muito obrigado.
Prof. Aluízio:
Obrigado a vocês.
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