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AMILOIDOSE POR HEMODIÁLISE: O QUE PODE MUDAR COM OZÔNIO E ÁGUA ULTRA-PURA ? João C. Biernat, Fernando dos Santos, Ana M.G dos Santos, Maria E.L.dos Santos, Áurea A. Raubach, Álvaro N.Cruz, Salete S. Demin e Karen P.Fengler.
"Não oferecemos Hemodiálise fisiológica e nossos pacientes sofrem".
Carl Kjellstrand (1)
I- AMILOIDOSE POR HEMODIÁLISE
II- BIOFILME E ENDOTOXINA
III-ÁGUA ULTRA-PURA
IV- OZÔNIO
I – AMILOIDOSE POR HEMODIÁLISE
A AMILOIDOSE por HEMODIÁLISE ,causada pelo acúmulo de ß2-microglobulina oriunda de endotoxinemia, constitui-se numa tardia e freqüente complicação que incide sobre pacientes submetidos à Hemodiálise .A sua expressão clínica dá-se através de ARTRALGIAS , ARTROPATIAS DESTRUTIVAS, SÍNDROME DO TÚNEL DO CARPO e DEPÓSITOS VISCERAIS de material amilóide.
A existência de AMILOIDOSE por HEMODIÁLISE ( AH ) é conhecida desde 1975 ,quando Warren e Otiendo relataram os primeiros casos de SÍNDROME do TÚNEL do CARPO (STC )( 2 ). Inicialmente a STC foi considerada como uma complicação local decorrente da colocação de acessos vasculares ;mais tarde,em 1978 Kenzora( 3 ) comprovou que ,na realidade , o que acontecia era a deposição local de material amilóide , com compressão do nervo mediano e também teno-sinovite do túnel do carpo. Neste mesmo ano, Charra e Assenat relatam pela primeira vez a associação entre depósitos de material amilóide , encontrados na STC, com a ocorrência de artrite escápulo-humeral, também por amilóide, num mesmo paciente em Hemodiálise (4 ).
Estes achados iniciais foram fartamente confirmados com a descrição de dezenas de casos em que a presença de material amilóide depositado no ligamento transverso do carpo era lugar comum. A identificação do componente primário do depósito amilóide ,que passou a ser um novo tipo de proteína , denominada ß2-microglobulina (ß2M) ocorreu em 1985 ,sendo descrita por Gejyo (5).
Mas até hoje há controvérsias quanto ao verdadeiro significado da deposição de ß2M em pacientes renais crônicos. Há vários relatos de que virtualmente todos pacientes com mais de 7 a 9 anos de Hemodiálise apresentam algum tipo de depósito (7 ) . Já os achados de necrópsia , com estudos específicos , demonstraram a presença de AH em quase 100% dos casos avaliados( 8 ).
E o curioso é que nem todos pacientes relatam sintomas , havendo a impressão de que a presença isolada de ß2M, ainda que necessária , não é suficiente para determinar sintomas. Conforme relatado por Strihou ( 9 ), de Bruxelas , a deposição de fibrilas ß2M começa a ocorrer 2 anos após o início de Hemodiálise, evoluindo de forma assintomática por cêrca de 5 anos após, quando se iniciam os sintomas . Por volta de 7 anos de diálise a prevalência de AH alcança 100% dos pacientes.
A prevalência da Amiloidose por Hemodiálise aumenta com o tempo em diálise , havendo relato de 65 % em pacientes dialisados por mais de 10 anos ( 10 ).A idade em que o paciente inicia diálise também é um fator de risco importante para desenvolver a doença , atingindo mais cedo e mais frequentemente os pacientes mais velhos do que os jovens (45 ).
Atualmente considera-se o principal constituinte do amilóide a ß2-microglobulina , que é uma microproteína circulante com 11,8-kDa ( 9 ).
A doença progride em 3 estágios :
Estágio 1:Fibrilas de amilóide são depositadas como uma fina camada numa cartilagem.
Estágio 2 : os depósitos se estendem até as cápsulas e sinóvia.
Estágio 3 : macrófagos circundam os depósitos , levando à erosão marginal do osso e inflamação ( 9 ).
Na Figura I, abaixo,observa-se a deposição de amilóide na superfície de fibroblasto sinovial(44). 
FIGURA1 : Depósitos de ß2M em fibroblasto sinovial como uma linha mais escura assinalada por seta.
Os depósitos têm predileção para o túnel do carpo , ombros , colo de femur e tornozelos. Acredita-se que os depósitos de ß2M estejam relacionados , pelo menos em parte , com os níveis plasmáticos elevados de ß2M, característicos de pacientes com Insuficiência Renal Crônica (10 ).A concentração normal de ß2M situa-se entre 1 até 3 mg/ml ,sendo de 5 a 10 vezes maior em pacientes em Hemodiálise (6).A ß2-M é um composto de cadeia leve das moléculas do MHC,de classe I, estando presente em quase todas células nucleadas.Numa pessoa normal , 95% desta proteína é degradada pelos túbulos renais,havendo retenção com Insuficiência Renal.O acúmulo é sugerido pela presença de pools extra-vasculares e pelo aumento da meia-vida da ß2-M,fatores importantes para amiloidogênese inicial (27).
FISIOPATOLOGIA DA LESÃO ÓSSEA e ARTICULAR
Dados mais recentes sobre a fisiopatologia de ß2M sugerem que esta anormalidade progressiva inicia-se bem antes do esgotamento funcional renal .Já em fase pré-dialítica começa a ocorrer a retenção de ß2M e sua deposição no tecido sinovial das grandes articulações , como punhos , ombros e quadris( 12 ).Numa segunda fase , nos locais de deposição ,passa a ocorrer a formação isolada de fibrilas de amilóide. Nesta etapa não há ainda a modificação da ß2M por produtos finais de glico-oxidação (AGE- ß2M), nem ocorre resposta inflamatória local.
Mais tarde , numa terceira fase , é que a modificação da ß2M por produtos finais da glico-oxidação induz a uma resposta inflamatória local , atraindo macrófagos quimiotaticamente , bem como estimulando estes macrófagos a produzir e liberar mais Citocinas. Além disso , a ß2M não modificada também induz atividade inflamatória , pela sub-regulação de Ciclooxigenase-2 e Metaloproteinase-1
A intensidade da inflamação local parece ser o fator determinante do grau de destruição ósteo-articular , iniciada pela deposição de ß2-microglobulina (12 ).Na Fig. 2 vê-se a captação de ß2M-AGE, através endocitose, por fibroblastos sinoviais(44).
Figura 2: A-Captação de ß2M-AGE por endocitose em fibroblastos de sinóvia. As células aparecem como imagens escuras e os pontos brancos o evidenciam processo de endocitose de ß2M-AGE.B-Controle , sem endocitose de ß2M.
Hoje é sabido que vários outros fatores , tanto locais como sistemicos , estão envolvidos na gênese desta complicação , como a transformação de ß2M por produtos finais de glicação e oxidação de proteínas , além de compostos de fosfato sérico, ubiquitina , cristais de cálcio , citocinas , imunoglobulinas de cadeias leves , proteases e anti-proteases , bem como colágeno modificado e glicosaminoglicans. (11). Na Figura III,abaixo,observa-se a progressiva deposição ao longo do tempo, de 3,5 até 8 horas, em micro-fotografias seriadas.Os depósitos de ß2M (pontos claros) ,nas imagens A, B e C , passam do padrão superfície da célula para intra- nuclear.Da mesma forma AGE-ß2M infiltra-se da superfície da célula para dentro do seu núcleo,por endocitose(44).
FIGURA 3: Endocitose de ß2M e AGE-ß2M da superfície ao núcleo
Myata ( 72 ) comprovou que o complexo AGE-ß2M é o maior componente dos depósitos amilóides na Amiloidose associada à Hemodiálise. O complexo AGE- ß2M induz um estímulo quimiotático aos macrófagos e monócitos circulantes , os quais infiltram a sinóvia e o tecido ósseo , estimulando os macrófagos infiltrados a secretar Interleucina-1 ß e Fator de Necrose Tumoral-alfa. Tanto a IL-1 ß como o TNF-alfa sinergizam suas atividades biológicas para induzir a liberação de colagenases das células sinoviais levando à degradação da matriz e inibição de osteoblastos, resultando em diminuição da formação óssea e promoção da diferenciação osteoblástica , gerando maior reabsorção óssea. Ainda mais : é possível que leucócitos polimorfonucleares , que são pré-estimulados durante uma Hemodiálise com dialisato contaminado , possam liberar mais citocinas em resposta à presença do complexo AGE-ß2M e desse modo agravar a Amiloidose associada à Hemodiálise (73).
QUANDO OCORRE O LINK ENTRE AMILOIDOSE E HEMODIÁLISE ?
O “elo perdido” entre AMILOIDOSE e HEMODIÁLISE aparece de modo claro e definitivo quando se obtém o conhecimento de que ENDOTOXINAS presentes no dialisato são capazes de determinar uma resposta inflamatória aguda e crônica do sistema imune . Assim , estamos diante de mais uma iatrogenia determinada por Hemodiálise. Mais do que 90% do dialisato é composto de água , havendo uma enorme exposição do sangue ao dialisato , suficiente para permitir que produtos derivados de bactérias presentes na água ( ENDOTOXINAS , PEPTIDOGLICANS , EXOTOXINAS) desencadeiem uma acentuada reação inflamatória , mediada pela síntese de citocinas pró-inflamatórias (INTERLEUCINA–1, FATOR DE NECROSE TUMORAL, INTERLEUCINA–6 e INTERLEUCINA-8)(13 ).
Pela ativação de monócitos e macrófagos passa a ocorrer no fígado a produção de MEDIADORES da FASE INFLAMATÓRIA AGUDA , através da síntese desenfreada de PROTEÍNA C REATIVA , FIBRINOGÊNIO e ß2-MICROGLOBULINA. Este processo poderia , especulativamente , também ser gerador de uma forma de ATEROSCLEROSE ACELERADA ,recentemente descrita em renais crônicos como M.I.A (Má nutrição, Inflamação, Aterosclerose ) (13 ).Na Tabela I são elencados os diversos sinais e sintomas de reação inflamatória aguda e crônica induzida por endotoxinas presentes na água ( 71 ).

Tabela I :Complicações da resposta inflamatória aguda e crônica induzida por endotoxinas da água (71 ).
Um estudo de Kaizu ( 14 ) evidencia que os níveis séricos de Interleucina-6 e resposta inflamatória crônica estão significativamente correlacionados com parâmetros que indicam MÁ NUTRIÇÃO , como PERDA DE PESO e redução de ALBUMINA sérica . Como a produção exagerada de Interleucina-6 pode advir de uma alta concentração de ENDOTOXINAS , esta complicação tardia de pacientes dialisados também pode ter sua origem no uso de água bio-incompatível.
Até pouco tempo atrás ,quase toda a ênfase na BIO-INCOMPATIBILIDADE estava direcionada para as membranas de diálise , sendo a água considerada um elemento praticamente neutro , inerte quanto a aspectos de bio-compatibilidade. Porém a partir de ENDOTOXINAS ,presentes no dialisato em grande quantidade, tem-se um poderoso estímulo para a produção exacerbada de MATERIAL AMILÓIDE , que por sua vez , depositando-se em tendões , sinóvias , cartilagens e ossos transfere para estes locais uma reação inflamatória tão intensa que é capaz de destruir predominantemente articulações , produzindo lesões articulares que por vezes assumem gravidade semelhante à artrite reumatóide.
continua

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