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UMA BREVE HISTÓRIA DOS TRANSPLANTES
DE RIM EM BELO HORIZONTE
( UM RECONHECIMENTO DA COMUNIDADE URO-NEFROLÓGICA
A APARÍCIO SILVA DE ASSIS )
A história
do transplante renal (que é também a do primeiro transplante
de órgãos no Estado ) é uma façanha de um
grupo de jovens médicos, de várias especialidades, comandado
por outro, já veterano, Apparício Silva de Assis, à
época professor titular de urologia da Faculdade de Medicina da
UFMG.
Em meados da década
de 60, a realidade dos pacientes renais crônicos, e também
de seus médicos, era dramática em todo o mundo, face à
ineficácia dos meios terapêuticos disponíveis. Os
métodos de diálise ainda eram incipientes e o transplante
apenas uma esperança que surgia.
Tal cenário não era, portanto estranho à enfermaria
de urologia do Hospital das Clínicas (HC), chefiada pelo professor
Assis, e que me tinha como único assistente clínico, em
meio aos urologistas. A minha principal função, além
de didática, era operar uma máquina de hemodiálise
(a primeira no nosso meio) recentemente ofertada ao serviço pela
Fundação Rockfeller americana. Mas as técnicas de
hemodiálise de repetição não eram ainda disponíveis,
razão para que os renais crônicos seguissem sempre o mesmo
curso, ou seja, evoluíssem inexoravelmente para a morte, não
sem antes passar por um sofrimento lento e silencioso, capaz de sensibilizar
os cirurgiões, especialmente o professor.
Havia, portanto, algo a fazer, e esse algo começou a ser feito
no início do ano de 1968. Com efeito, valendo-se de suas relações
de amizade com W. Goodwin, então renomado urologista americano,
o professor Assis decidiu-se por um estágio em transplantes renais
na UCLA (Universidade da Califórnia Los Angeles) e ao concretizá-lo
levou-me em sua companhia, talvez inaugurando ai, uma parceria uro-nefrológica
que viria a ser a marca registrada dos transplantes renais brasileiros.
No seu retorno, no início do ano de 1969, e depois de um curto
período de reciclagem técnica em cães (com parte
da equipe que viria a ser pioneira alguns meses depois) sentiu que o grupo
estava pronto para o desafio maior de nossas vidas: adentrar um mundo
cheio de perguntas e vazio de respostas.
O primeiro transplante da história mineira ocorreu em 16/12/1969
no HC de FMUFMG, mas só foi oficialmente registrado alguns anos
depois(1). No Brasil, até então, apenas o Estado de São
Paulo tinha transplantado: intervivos em 1965 (Campos Freire GJ, Sabbaga
E, Cabral AD e cols. no HC da USP) e com cadáver em 1968 (Ciconelli
AJ, Martins ACP, Corrado AP e col. no HC, FM de Ribeirão Preto).
Os nossos pacientes eram irmãos, Osvaldo (receptor) e Nair (doadora),
eram jovens (32 e 40 a, respectivamente), ABO idênticos (grupo "O")
e não reagiram entre si na prova cruzada clássica. Seu grau
de compatibilidade HLA, contudo, só foi conhecido muitos anos depois
(pois a possibilidade técnica de fazê-lo não era ainda
disponível entre nós) e mostrou que eram HLA parcialmente
(50%) idênticos.

Apparício Silva de Assis, Oswaldo Pinto Cunha (Receptor do Rim)
e Eduardo Távora em 18/12/1997 por ocasião do 29º aniversário
do 1º Transplante Renal de Minas Gerais
Alguns detalhes técnicos merecem ser lembrados: o preparo do receptor
foi feito com DPI (diálise peritonial intermitente) de repetição,
e por tentativa mal sucedida de drenagem do ducto torácico, visando
a depleção de linfócitos e redução
da imunogenicidade do enxerto; a perfusão pré-TX do rim
foi feita com Ringer-lactato gelado, pois não havia ainda soluções
sofisticadas (Collins, Belzer) e também não eram previstos
tempos de isquemia prolongados (a isquemia quente foi de 1 min, e a isquemia
fria de 22 min); o reimplante ureteral obedeceu à técnica
de Leadbetter Politano; o tempo total de cirurgia não ultrapassou
5 horas e o rim transplantado funcionou imediatamente (diurese de 15 litros
nas primeiras 24 horas); o paciente foi imunossuprimido com hidrocortisona
EV, seguida de azatioprina e predinisona, e assim continua até
hoje.
A evolução posterior do paciente foi excelente, e persiste
muito boa até aqui, 32 anos depois. Isso torna o nosso paciente
um dos mais, senão o mais antigo transplantado de todo o mundo.

No quadro
1, a equipe médica que se responsabiliza pela façanha é
nominada. Dos 13 participantes, 11 estão vivos. A doadora (Nair
Cunha) infelizmente faleceu em conseqüência de esclerose múltiplas
em 1993.
Depois deste salto inicial, o crescimento dos transplantes renais em Minas
Gerais, e especialmente em BH, foi impressionante, tanto que o Estado
mantém-se, há muito, no 2° lugar do "ranking"
brasileiro em números absolutos, atrás apenas de São
Paulo.
Na
capital, a evolução pode ser medida em 3 períodos
sucessivos: 1969-81 (primeiro), 1982-90 (segundo) e 1991-2000 (terceiro),
quando foram transplantados respectivamente 164, 915 e 1701 pacientes,
principalmente pelo HC no primeiro período, pelos HC, HFR e HVC
(Vera Cruz) no
segundo período, e por esses mais o HSF (São Francisco)
no terceiro período, onde contribuíram também, em
menor número, a Santa Casa, o Hospital Evangélico e o Biocor.
Embora essa evolução quantitativa deva ser sempre louvada,
a evolução qualitativa do procedimento é, em grande
parte, ainda desconhecida. A única publicação a respeito
vem da referência (2), e deve ser imitada, pois deverá ser
uma das exigências do SNT (Serviço Nacional de Transplantes)
nos próximos tempos.
Apesar desta limitação, é inegável que perto
da metade dos pacientes transplantados desde 32 anos atrás estão
vivendo às custas do TX, seja com rim de vivo (um pouco mais de
50%) e de cadáver, o restante.
É bom ressaltar que se não fora pelo TX renal, 100% desses
enfermos estariam mortos em curto prazo de tempo.
Em 1969, portanto, sedimentou-se no TX renal a máxima de que "em
medicina, podemos mais do que sabemos". È certo que o Prof.
Assis absorveu melhor essa mensagem,e por isso, à sua memória
este depoimento é muito justamente dedicado.
(*) Prof.Eduardo Rubens
Fernandes Távora
Nefrologista /Consultor Científico do Grupo de Transplantes Renais
- Hospital das Clínicas FM-UFMG
Referências:
(1) Távora - ERF, Salomão Fº A. Assis AS e cols.
Transplante Renal:
Registro 1º caso em Minas Gerais.
An. Fac. Med, UFMG 1976: 22-3,105
(2) Távora - ERF- Uma experiência
clínica em transplantes renais:
Resultados de 531 casos consecutivos
J. Brasilerio de Nefrologia. 15(1): 43,1993.

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