Aviso Importante
1997-2006

Adyr Mulinari

Prof. Adyr Mulinari.

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Istênio: Era o Ney Braga?

Prof. Adyr: Não, o Ney Braga também era meu amicíssimo. Na época, o senador e o Ney Braga eram meus amigos e eu era médico dos dois. Eles vinham conversar na minha casa. O Ministro da Educação era Jarbas Passarinho.

 

Sebastião: E o Ney Braga ajudou?.

Prof. Adyr:. O Ney Braga morava aqui neste bairro. Ele também foi importante para o progresso Nefrologia paranaense.

 

Cibele: Quantas pessoas o senhor já formou?

Prof. Adyr: Não sei, perdi a conta, mas tem gente por todo o Brasil e alguns pela América do Sul.

 

Istênio: Esse Centro aí que o senhor fundou e que atraiu tantas possibilidades de estudo, de pesquisa, atraiu muita gente da universidade?

Prof. Adyr: Atraiu, mas criou também muita dificuldade e ansiedade. O Augusto participou disso. Estou numa idade que cheguei à conclusão de que ninguém faz nada sozinho. Também não tem coisa difícil nesse mundo, só é difícil aquilo que ainda não se sabe. Estes dias, eu estava lendo algo que me tocou, dito por um filósofo francês, chamado Jean-Toussaint Desanti: “Os filósofos, os cientistas, os médicos e os civis não imaginam como um homem pode surpreender o próximo, porque ele toma posições e decisões de aprendizado que nenhum daqueles letrados imagina, e ele vence”. A coisa é assim. Se você não enxergar que um profissional ou um professor pode realmente ser líder, isto fará toda a diferença num concurso.

 

Sebastião: Então como é que uma pessoa com "sangue forte" convive numa universidade aonde as decisões, muitas vezes, vão mais pela política do que pela competência?

Prof. Adyr: Não, eu não concordo. Eu acho que quem tem força, tem força e acabou-se. Eu fui forte e respondi a algumas situações difíceis. Um dos diretores tentou me colocar para fora, porque achava que eu recebia muita verba, mas eu entregava tudo direitinho na Universidade. O senador estava ali junto e cuidava para que toda a verba fosse investida lá. Por outro lado, eu acho que o mestre nas relações entre universidade e comunidade foi o Oswaldo. Ele foi o que melhor conduziu os rumos dentro da comunidade.  Nós nunca brigamos uma briga que não valia a pena.

 

Sebastião: Mas brigavam com o senhor...

Prof. Adyr: Não. Não brigavam comigo, porque eu era meio boca dura. Um diretor me disse uma vez assim num dos processos: “O senhor está cuspindo pra cima!” Respondi: “Tudo em cima de vocês aí!” (risos). Do meu lado estava o meu chefe, que Dr. Arnaldo Moura, cardiologista e professor de propedêutica. Nesta ocasião, Dr. Heinz Rücker, professor de ortopedia e que estava do meu lado, disse: Ótimo, vocês tirem o Adyr Mulinari da universidade. Ele vai para fora e vocês vão ver como ele vai ficar feliz. Vocês é que vão acabar com vergonha”. Eu fiquei na universidade, mas suspenderam o meu ordenado.

 

Sebastião: Quem tinha o poder?

Prof. Adyr: Era a Congregação da Faculdade. O Arnaldo Moura me perguntou o que eu queria fazer. Eu disse não queria brigar com a minha universidade porque aquilo era a minha vida. O Moura, que chamávamos de “medigado” pois sabia muito de Medicina e Advocacia, e eu preparamos documento dizendo que eu não concordava com aquilo e mandamos para o Ministério da Educação pelas mãos do senador. Afinal era o meu ordenado. Muitos anos depois eu estava na praia nas férias e o Rogério me ligou e disse que havia um dinheirão depositado na minha conta corrente.

 

Sebastião: Era o retroativo?

Prof. Adyr: Era sim. Sabe o que eu fiz? Comprei uma Mercedes Benz S500 que está aí no jardim (risos). Depois do meu acidente, eu precisava ter alguma coisa assim.

 

Cibele: O senhor disse que era grosseiro, mal educado. Considera isso uma qualidade ou defeito?

Prof. Adyr: Grosseria é péssimo. Mas algumas situações, como aquela grosseria do diretor dizer que eu estava “cuspindo para cima” estimulam uma resposta grosseira. Afinal, ele era um professor titular. Anos mais tarde, quando eu fui diretor, ele apareceu na minha sala e conversamos como se nada tivesse ocorrido. Eu acho que hoje o poder esta no comportamento da pessoa, na calma e na tranqüilidade ao tomar decisões. Aquela era uma outra época.

 

Sebastião: O senhor falou que escolheu, eu estava achando que era uma coisa assim meio literal.

Prof. Adyr: Não foi bem assim. Morávamos nesta casa, mas os tempos eram outros pois não havia tanto banditismo.

 

Sebastião: Como era essa casa?

Prof. Adyr: Não tinha grade, não tinha muro. A calçada da rua e a frente eram continuas. Os moços passavam, encostavam o carro e paravam para conversar. Minhas filhas diziam que iam sair. Mas, eu dizia a eles que não podiam ficar com a minha filha pela rua.

 

Sebastião: E assim foi até o senhor dar o ok?

Prof. Adyr: Assim foi.

 

Sebastião: Alguma contrariou?

Prof. Adyr: Às vezes ficanvam contrariadas, mas eu convidava o moço para ficar nessa sala, eu sentava aqui e ele sentava ali e ficávamos conversando. A sabatina não era só minha. Os irmãos Rogério e o Leonardo também davam a sua contribuição, a coisa era brava.

 

Sebastião: Os irmãos.

Istênio: Alguém conquistou o senhor? Virou o jogo? Tem algum deles com que o senhor inicialmente não simpatizou?

Prof. Adyr: Claro.

 

Istênio: Inicialmente, ele virou o jogo?

Prof. Adyr: Não, acabou-se. Tinha um sujeito muito rico que vinha trazer coisas da fazenda aqui para minha filha. Uma noite eu estava estudando e  disse: “Você me vem de novo com essa caminhonete e eu te dou um tiro (risos).” Não, mas muitos se assustaram. Os que foram embora não mereciam minhas filhas.

 

Sebastião: Professor, agora a gente quer um pouquinho mais. Como é o seu dia-a-dia? O que o senhor faz? A que horas acorda? O que faz durante o dia?

Prof. Adyr:  Hoje, eu acordo muito cedo e vou a tarde para o consultório.

 

Sebastião: Fora da universidade...

Prof. Adyr: Ao longo dos anos fui deixando as hemodiálises,  os transplantes e os internamentos para meus assistentes, porque eu tinha uma clínica grande na época.  A boa medicina na época era toda particular. Eu tenho uns 30 e tantos mil.

 

Sebastião: Só um minutinho. Trinta e tantos mil o quê?

Prof. Adyr: Fichas de pacientes.

 

Sebastião: Pacientes?

Prof. Adyr: Sim, pacientes. Obviamente, não quer dizer que o cidadão seja meu cliente até hoje. Desde o começo eu aprendi com o Dr. Átila a guardar tudo sobre o cliente. Apesar disto, certa vez eu tive um processo no Conselho Regional de Medicina.

 

Sebastião: Sobre o que?

Prof. Adyr: A mãe de uma paciente me telefonou e disse que eu havia atendido sua filha quando pequena no Hospital Nossa Senhora das Graças, onde tinha o meu serviço privado de nefrologia. Eu lhe contei que o arquivo deveria estar no Hospital. A moça agora estava grávida e o obstetra queria saber o que ela teve. Descobrimos que o Hospital tinha jogado fora os arquivos. Ela me telefonou e eu disse que não me lembrava mais da sua filha e que não podia me lembrar de detalhes de tantos milhares de pessoas. Contei que a ficha havia sumido.

 

Cibele: Extraviou?

Prof. Adyr: Desapareceu do arquivo e da memória, e ela me mandou um processo no Conselho Regional de Medicina porque eu não tinha conservado o arquivo. O presidente do Conselho Regional de Medicina era um colega do Nossa Senhora das Graças e me orientou a fazer um relato, pois o arquivo era de mais de 20 anos antes.  Por outro lado, me lembro de um cidadão que tinha uma úlcera na pele e já tinha consultado oito médicos, feito um monte de exames, perdido muito tempo e não adiantado nada. Examinei, diagnostiquei e prescrevi. Ele reclamou que chegou aqui e eu lhe disse o que era em 2 minutos. (risos). Me disse: ”Como é que eu vou pagar pela consulta ?“

 

Sebastião: Mas e aí, como é que é o dia-a-dia? O senhor levanta a que horas, por exemplo?

Prof. Adyr: Eu levanto 5:30 – 6:00 horas e vou para o computador.

 

Sebastião: Fazer o que?

Prof. Adyr: Leio notícias de todas as agências na internet, até as estrangeiras do Times e da Reuters. Fico ali mais ou menos uns 20 ou 30 minutos. Depois faço umas consultas sobre assuntos médicos na internet. Não assino mais revistas médicas, porque tem tudo na Internet. Só não tem o que é muito específico, mas tem o que é genérico. Ali pelas 7:00 horas, a Brasília levanta, nós descemos e tomamos café. Ai eu parto para o meu hobby. O hobby faz parte do meu critério do sucesso das pessoas. O que é sucesso? Sucesso muita gente diz que depende de sorte. Não acredito. Para ter sucesso é necessário e importante ter uma boa genética. Segundo, é ser muito bem educado. Depois, ter muito esforço, intelectual e físico. Alguns têm mais intelectual, outros mais físico, e o bom é até uma mistura dos dois. Aí é que  vem a sorte. Só ai é se que começa a ter retorno, de prestígio, de respeito e financeiro. Sucesso é ser leal e ter amizades. Amigos são poucos, companheiros são alguns, colegas são muitos. Sucesso é ter um lugar para morar, um lugar para trabalhar, ter conforto e ter dinheiro para sustentar os seus prazeres e o seu hobby. Eu tenho um hobby.

 

Cibele: Qual é?

Prof. Adyr: É recuperar automóvel clássicos ou “antigos”.

 

Sebastião: Ah, é?

Cibele: Quantos o senhor tem?

Prof. Adyr: Acho que tenho poucos. São 4 da Ford e 3 da Chrysler.  Eu tenho um Ford 1929, modelo A - Tudor, tipo limusine ou cristaleira, que é raríssimo e um Ford 1930 modelo A Phaeton, conversível 4 portas. O meu filho mais velho me pediu um carro. Comprei um Fordinho 1930 para ele (risos). Disse: “Está aí o seu automóvel, pode começar a mexer nele”. Ele andava com o carro na chácara, guiava ali com 16-17 anos de idade. Apelidamos o carro de Cappone.

 

Sebastião: Cappone?

Prof. Adyr: É, é do tipo do Al Cappone. Depois, comprei um Ford 1948 Cupê, um sonho da minha juventude, e mais tarde um Ford Landau 1983 blindado (comprado de cliente que foi vítima de uma tentativa de assassinato no início dos anos 90).  Depois tenho 3 da Chrysler. Tenho um Dodge Kingsway Cupê, 1952, um DeSoto quatro portas também de 1952  e Chrysler Windsor, 1948, que é único no Brasil. Tenho ainda um triciclo Inoccenti-Lambretta do início dos anos 60. Mas isso não é nada, comparado com os colecionadores.

 

Cibele: Qual o predileto?

Prof. Adyr: Gosto de todos, mas a limusine 1929 é especial.

 

Sebastião: Mas o senhor anda com ela na cidade?

Prof. Adyr: Ando. Mas o gostoso é viajar com eles.

 

Sebastião: Com qualquer um deles?

Prof. Adyr: Quase todos. Porque alguns não estão bem prontos ainda. A gente leva de 3 a 4 anos para completar, e tem que ir conversar com vários mecânicos especializados, mandar buscar algumas coisas nos Estados Unidos, mas tem que ser hobby. Se o cidadão envelhecer sem um hobby, mesmo que ele tenha recursos, vai acabar no banco de praça, na bebida alcoólica, na depressão. Eu não tenho depressão, mas fico triste quando o a coisa não fica pronta ali na hora, não fica bom, aí eu fico meio deprimido (risos).

 

Istênio: Se um neto, um filho, perguntasse, tivessem duas opções, fama ou fortuna? Bem que depois construísse, a partir de uma a outra, mas qual seria uma opção mais sensata?

Prof. Adyr: Há 3 ou 4 anos participei de uma reunião na Universidade da Califórnia em São Francisco, onde um dos meus genros trabalha como professor de cirurgia. Eu era um dos professores estrangeiros mais maduros ou velhos. Pediram para que nomeássemos 10 aspectos mais importantes na vida. A maioria identificou o respeito como mais importante. Porque junto com o respeito, vêm outras coisas importantes. Depois naturalmente vieram fama e dinheiro. Muito poucos escolheram condições físicas.

 

Sebastião: Professor, aí o senhor levanta, vai para o computador ...

Prof. Adyr: Depois saio e vou, eventualmente, no Hospital Nossa Senhora das Graças , se tiver algum cliente especial lá.

 

Sebastião: O senhor vai ao hospital? Isso é diário?

Prof. Adyr: Isso não é diário, isso hoje é raro. Às vezes, eu mando o doente para o Rogério e o doente quer que eu dê uma olhadinha. Vou e faço uma visita de cortesia, dou um agrado, uma paparicada, pois a maioria dos doentes hoje são conveniados dos seguros e eu ainda sou um médico particular.

 

Istênio: O senhor vai dirigindo?

Prof. Adyr: Sim, vou dirigindo. Tem uma adaptação nos meus carro, com acelerador do lado esquerdo e caixa automática ou com caixa convencional com embreagem computadorizada. Nas 2ª, 4ª e 6ª feiras vou para o consultório à tarde. Na 3ª e 5ª feira, os colegas do Veteran Car Club se reunem, eles também são todos veteranos. Lá conversamos e contamos histórias. Eu tinha aprendido com Dr. Scribner a não freqüentar sociedade só de médicos, porque o teu conhecimento geral diminui muito. Os veteranos são juizes, advogados, engenheiros, técnicos, de todas as classes, mais sofisticados ou menos. A gente sempre aprende algo novo.

 

Sebastião: E o senhor volta para casa?

Prof. Adyr: Volto pra casa no final da tarde e fico com a minha boneca, a minha mulher. Ficamos ali juntos. Poucas vezes saio. Tenho alguns amigos e saímos para jantar fora. A minha mulher vai fazer ginástica no clube pela manhã e durante o dia ela sai. À noite ficamos em casa, os filhos vêm muito, os netos vem quase todos os dias na nossa casa, e eu coloquei uma casa de Tarzan no jardim para os menores brincarem. Eu tenho um salão onde estaciono os automóveis na garagem do fundo da casa, e tenho uma oficina com todo o ferramental para recuperar e reparar as peças mais delicadas dos carros. Invisto tanto tempo no meu hobby, que só recentemente um de meus netos descobriu que também sou médico. Visitei minha filha que mora em San Francisco e participei de uma sessão na escola de meus netos onde os avós descreveram suas profissões. Ao chegarmos em casa, o meu neto falou: “Me diga uma coisa: então você é médico que nem meu pai, pensei que você fosse um consertador de carros!” Ele lembrava dos tempos quando moravam em Curitiba e ele passava as manhãs na minha casa. Me via como mecânico, sempre na oficina. Ele não me via de roupa formal ou de avental, uma barbaridade...

 

Sebastião: Professor, eu queria algumas opiniões suas a respeito de política. O que acha do Lula?

Cibele: Pode falar a verdade

Prof. Adyr: Veja bem, eu saí da Universidade quando a esquerda tomou conta. Foi devagarinho, por conveniência. Sou da época da Ditadura, foi nomeado até Diretor, pelo General Figueiredo. Naquele tempo era o Presidente da República que escolhia dentro de uma lista tríplice. O PT foi tomando conta, brigavam entre si e resolvi sair por causa disso, certo? O que eu penso do Lula? Eu penso mal por que demonstrou ser contra a educação e a cultura, haja visto que o pessoal das relações exteriores não precisa mais sequer falar uma língua estrangeira. Obviamente, nós entendemos que se for para falar javanês vai ficar difícil, mas inglês, francês e espanhol nem tanto. A nossa segunda língua é o inglês e parece que somos imperialistas, não é? Acho que ele é totalmente culpado pelo que aconteceu no governo recente. Essa história de dizer que nada sabia do Presidente do Partido é difícil de aceitar. Isso para o meu conceito é uma falta de qualidade. Mas não diria que ele é pior ou melhor do que os outros presidentes. Se nós formos considerar a atuação dentro da vida, vamos observar que algumas vezes estamos melhores, mas outras vezes somos surpreendidos por outras pessoas. Quando alguns amigos disseram que o Lula ia ganhar, achei ótimo. Eu acho que tinha que ganhar mesmo, precisavamos experimentá-lo. Mas, não podemos permitir que a insegurança perdure. Eu tenho que trabalhar todos os dias. Se o cidadão vier aqui na minha casa e no meu terreno armar uma barraca, eu dou um corridão nele (risos), porque é isso que você deve fazer. Eu defendo aquilo que eu conquistei. Meu pai, italiano filho de imigrante, e minha mãe trabalharam bastante. Nós tínhamos pouco dinheiro e eu comecei a minha vida de trabalho aos 13 anos vendendo verdura nos botequins colados na minha casa na rua. Meu pai tinha uma horta e nós íamos vender, levava um carrinho de roda ali e ia vender.

 

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