

Adyr Mulinari
Prof. Adyr Mulinari.
-------------------------------
Cibele: Que cargos o senhor já teve?
Prof. Adyr: Eu saí daqui de Curitiba como professor assistente. Fui Assistant Professor da Universidade de Washington em Seattle. Ao retornar para a UFPR fiz concurso para professor adjunto, que era o equivalente a professor associado. Mais tarde, fiz um concurso para professor titular de Clínica Médica com um trabalho pioneiro sobre Neuropatia Periférica em pacientes com insuficiência renal crônica, tratados por diálise peritoneal ou por hemodiálise. Na administração, fui chefe do departamento de Clínica Médica, fundador e coordenador da pós-graduação em Medicina Interna - nível mestrado e diretor do Setor de Ciências da Saúde da UFPR. Fora da Universidade, fui Presidente da Associação Brasileira de Educação Médica, a ABEM, e da Sociedade Brasileira de Nefrologia.
Sebastião: O concurso de professor titular foi tranqüilo, só neurologista, não tinha nenhum nefrologista na banca?
Prof. Adyr: Não foi. Disputei o concurso de professor titular de clínica médica com um candidato para a especialidade de reumatologia, mas acabamos passando com notas iguais. A banca tinha titulares de outras especialidades.
Sebastião: Quando o senhor aposentou-se da universidade?
Prof. Adyr: Eu era médico do Sérviço de Nefrologia do Hospital de Clínicas e professor titular do Departamento de Clínica Médica. Eu me aposentei como professor titular pouco antes de chegar aos 70 anos e dois anos depois como médico. Na ocasião, começava a mudar o aspecto político dentro do Hospital de Clínicas e eu achei que era a hora certa. Sou filho de fascista e sou fascista, tinha sido fotografado com bandeira dos Estados Unidos e tirado fotografia com o Kennedy (risos).
Muitas universidades pioraram por causa da política. A política dentro da universidade não era mais política acadêmica, ela fazia parte da política extra-universitária. Uma ocasião, enquanto diretor do Setor de Ciências da Saúde, fui entrevistado para ser candidato a reitor. Na ocasião, a política de esquerda era do PMDB e me disseram que eu certamente seria eleito, mas que o cargo já vinha com algumas indicações políticas. A política externa à universidade acabou com a meritocracia da universidade e hoje não é diferente.
Sebastião: Esta de fascista o senhor vai cortar depois ou não?
Prof. Adyr: Eu corto depois (risos). Meu pai era fascista. Ele trabalhava em uma companhia americana, a Standard Oil do Brasil, mais tarde chamada de ESSO. E como filho de italianos, ele era do eixo. A definição de fascista é “dono do corpo”. Como fascista e imperialista (risos), o ambiente dentro do hospital ficou muito difícil. É muito difícil trabalhar na medicina: medicina decente e medicina de trabalho, e na medicina acadêmica mais difícil ainda. Hoje não sei, mas foi muito difícil lidar com isso. Sair da medicina também foi um abalo enorme para mim.
Sebastião: Como? Em que ponto?
Prof. Adyr:A Universidade era muito importante para mim. Eu saía e ia fazer palestra e curso Brasil afora. Naquele tempo, o Augusto Laffitte ficava lá agüentando e havia muito entusiasmo em todos os nós. Em 1979, eu tive um acidente de motocicleta e a minha mulher disse que se eu não começasse a trabalhar mais fora da Universidade poderíamos ter problemas. Mas, o pai dela era rico e essa foi a minha sorte (risos). Foi muito difícil sair da vida acadêmica, porque ficou um vazio.
Sebastião: Essa não vai cortar não, né?
Prof. Adyr: Vai. Tem que cortar isso aí (risos). A minha mulher cuidava dos meus filhos. Ela chama-se Brasília, ela cuidava do dinheiro e eu cuidava da Universidade. Quando tive o acidente ela me alertou: se você não começar a trabalhar, para ganhar um pouco de dinheiro, você vai morrer aí, ainda mais agora sem a perna!
Sebastião: O senhor já estava aposentado quando teve o acidente?
Prof. Adyr: Não, estava no auge da atividade. Tive o acidente quando terminei de preparar o meu discurso de posse de Diretor do Setor de Ciências da Saúde. Eu assumi já amputado. Fui ver a motocicleta de um amigo, sai para andar e um automóvel me atropelou. Perdi uma perna biológica. Mas hoje a minha perna eletrônica é maravilhosa e mais inteligente que a outra: ela tem dois motores, uma bateria recarregável, dois amortecedores e 10 sensores guiando tudo. Esta custa 50 mil dólares. O primeiro modelo, bem mais simples, custava 1200 dólares.
Sebastião: O senhor disse que ela anda sozinha, mas aonde ela vai o senhor vai atrás? (risos)
Prof. Adyr: Eu vou atrás. Não posso perder a prótese (risos). Com ela trabalho, viajo, ando de bicicleta de três rodas, faço tudo.
Prof. Adyr: Quando eu tive o meu acidente, o Dr. Scribner soube e ligava para minha casa muitas vezes. Certa vez me disse assim: vou mandar um amigo meu, que também foi acidentado, conversar com você. Eu respondi que não mandasse, pois eu estava numa fase difícil, meio depressiva. Lembrava que em Seattle havia uma comissão de avaliação comportamental, com 13 profissionais diferentes e inclusive um padre, para analisar os médicos que trabalhavam na diálise, mas não para modificar o comportamento dos médicos. Achavam que nós não podíamos ser solidários. Tinhamos de ser considerados dentro da norma, não normal, mas dentro da norma. Na ocasião, Dr. Scribner me mandou conversar com o psiquiatra.
Mas um psiquiatra acabou vindo aqui e eu comecei a conversar com ele. Depois de algumas sessões, ele me disse: “Olhe doutor, eu vou embora. Você não vai melhorar comigo e eu posso piorar.” (risos).
Istênio: Nada a ver.
Prof. Adyr: Em Seattle nós passamos a ter uma visão puramente médica e não comunitária. Quem é que decide entre um motorista de trator no transplante ou na hemodiálise ou um cientista importante? Qual é a preponderância? Certa vez, fui ao aeroporto de Seattle buscar um físico famoso que vinha de Londres em insuficiência renal crônica. Mas havia um lavrador americano que estava na sua vez de entrar na hemodiálise. Havia apenas uma vaga na hemodiálise.
Istênio: Como resolveram isso?
Prof. Adyr: Colocamos os dois. Arranjamos outra vaga. O físico era um homem brilhantíssimo, um gênio. O outro indivíduo era um fazendeiro americano de Seattle. Não havia vaga por falta de financiamento. Várias empresas doavam recursos e uma destas deu verba para o cidadão braçal, enquanto o governo da Inglaterra doou dinheiro para manter o físico. O inglês ficou em diálise por 8 ou 10 meses conosco, até que um nefrologista inglês apareceu e treinou hemodiálise crônica durante 9 meses e o levou de volta ao retornar.
Cibele: Se não fosse a sua esposa, Dona Brasília, o senhor acha que não teria voltado ao Brasil?
Prof. Adair: Tenho certeza que não. A minha mulher é filha única e a minha sogra gostava muito de mim, porque fui o filho que ela não teve. Começou a sentir muita saudade de nós e tivemos que voltar. Nós não poderíamos levá-los e, provavelmente, eles não iriam ficar felizes.
Sebastião: O senhor casou quando?
Cibele: Há quantos anos?
Prof. Adyr: Foi em 1954, há 52 anos. O Rogério nasceu 1 ano depois.
Istênio: Nasceu antes do casamento?
Prof. Adyr: Não, antigamente poucas mulheres ficavam grávidas antes do casamento.
Cibele: Normal
Prof. Adyr: As minhas três filhas não casaram grávidas porque fui eu quem escolhi os noivos (risos) e dizia para eles: olha se você fizer alguma safadeza com minha filha, depois ela vai fazer para você (risos). Você nunca mais vai ter confiança nela (risos).
Sebastião: Quer que risca a sua idade? (risos)
Prof. Adyr: Não, tenho 78 anos e nós fizemos 52 anos de casados em família. Não sou muito de festa.
Istênio: Fale um pouco dos seus pais e irmãos, vamos dar uma marcha-ré.
Prof. Adyr: Aí vem a história do meu pai. Depois do acidente fiz uma amputação da perna direita e estava meio deprimido. Um dia meu pai chegou e disse: “Deus te tirou o único pedaço que ele podia tirar. Você ponha essa prótese e vai para o consultório, porque o que eles querem é que você fique aqui, se martirizando.” Eu tinha 15 adversários naquela ocasião, todos na universidade. Hoje, uns oito já morreram (risos). Na época um aluno, que nós tínhamos reprovado há uns 6 anos, me telefonou perguntando sobre o meu acidente. Disse-lhe que tinha perdido um pedaço da perna e então ele falou: “Sabe doutor, eu queria que o senhor tivesse perdido as duas pernas e os dois braços. O senhor perdeu pouco”. Isso foi um grande estímulo para mim. O meu pai disse: “Olhe, coloque a prótese e vai trabalhar”. E eu fui. Comecei a trabalhar no dia seguinte (risos). A primeira cliente que chegou no consultório me deu um bilhetinho que dizia assim: “Deus dá a carga específica para cada um”. Aí eu passei a trabalhar e nunca mais parei. Deu para ganhar um dinheirinho.
Istênio: Mas quantos anos o senhor tinha quando fez a amputação?
Prof. Adyr: Eu tinha 52.
Sebastião: E, com o tempo, a perna acabou virando um charme?
Prof. Adyr: Acabou. Eu fui filmado recentemente porque eu tenho uma prótese alemã Otto Bock. Essa prótese é a melhor do mundo, toda eletrônica, tem garantia de cinco anos. Um dia eu estava no consultório e a prótese velha apagou, justamente 5 anos e 2 meses depois (risos). Aí eu troquei por essa aqui. No momento, eu sou o homem mais velho no Brasil que anda com essa prótese e que faz todas as barbaridades.
Cibele: Vai entrar no Guinnes Book?
Prof. Adyr: Acho que não! (risos)
Istênio: O senhor tem mais dois irmãos médicos? O pai foi uma figura forte assim na influência intelectual dos filhos?
Prof. Adyr: Não foi tanto, meu pai não era um homem muito rígido, apesar de ser italiano, fascista, ele era um homem quieto, bom, muito trabalhador e que tinha muito prestígio aqui em Curitiba. Ele trabalhava em uma companhia americana e conhecia todo mundo. Nos deu essa segurança, mas não tinha posses. Fui o primeiro Mulinari médico dessa leva de imigrantes que veio para cá. Depois, veio meu irmão Acir que tornou-se patologista e morreu recentemente de infarto do miocárdio. Depois veio o Augusto, que é pediatra. Mais tarde vieram o Rogério e o Leonardo e a Fabiane, que também casou com médico. Dois primos e um sobrinho, filho do Acir, também se tornaram médicos. Uma de minhas filhas é casada com médico e mora em San Francisco e a outra é casada com filho de médico. Meus três genros são filhos de médicos meus amigos.
Sebastião: O professor veio de onde da Itália?
Prof. Adyr: A família veio do região do Veneto.
Sebastião: Seu pai já veio de lá?
Prof. Adyr: Não. Meu avô veio com seus irmãos. Chamava-se “Joanim”.
Sebastião: Veio direto para o sul?
Prof. Adyr: Não. Inicialmente foi a Buenos Aires na Argentina. Logo depois, todos vieram para o Brasil. Nós não sabemos muito como é que foi essa história. Pouco antes de meu pai falecer, fomos numa festa da igreja da Colônia Imperial de Nova Tirol, onde a imigração se estabeleceu. Estacionei o carro na frente de uma casa e quando eu voltei conversei um cidadão que me contou ter comprado a casa de meu avô Joanim. Foi uma emoção grande!
Cibele: E a sua mãe?
Prof. Adyr: Minha mãe chamava-se Maria da Luz, filha de descendentes de portugueses, mas era uma brasileira brava, uma fera. A sua irmã da Maria Augusta era mãe do Augusto Laffitte. O meu avô materno era do Porto e também era muito bravo.
Cibele: O senhor puxou por ela?
Prof. Adyr: Eu? Não. (risos). Mas, nossa filha mais nova, Fabiane, é exatamente igual à minha mãe. Ela é médica e professora de Dermatologia na Universidade.
Sebastião: Seu avô morava em Curitiba?
Prof. Adyr: Morava e o convivi bastante com ele. Mais tarde, mudou-se para uma fazenda próxima de Curitiba e lá brincávamos muito. Foi uma das primeiras a ter luz elétrica captada de um gerador em um riozinho. Meu tio Eduardo, pai do Augusto Laffitte, fez ali uma barragem que acumulava água e movimentava uma turbina. A vazão do rio dava para 3 horas de luz. Na casa havia apenas 3 ou 4 lâmpadas. Meu avô e algumas visitas ouviam a Hora do Brasil, depois ouvíamos um pouco de música. Mais tarde, ouvíamos o Repórter Esso e todos iam dormir.
Istênio: Todo mundo?
Prof. Adyr: Sim, todos. Meu avô fechava a comporta da barragem e isso apagava a luz.
Istênio: Professor, eu queria então resgatar esse circuito familiar e entrar um pouco na Nefrologia que o senhor introduziu aqui em Curitiba. Fale um pouco disso, como é que foi criado, a importância que nós todos reconhecemos.
Prof. Adyr: Algumas coisas foram importantes. Por exemplo, quando cheguei não se fazia estudo histopatológico de biopsia renal. Quando fiz a primeira biópsia percutânea, foi algo inovador. Depois vieram a hemodiálise e a clínica nefrológica. Então inauguramos um andar no Hospital de Clínicas, que nós ganhamos da Endocrinologia, onde construímos um laboratório e colocamos o fotômetro de chama e um gasômetro - peagâmetro que ganhei do laboratório Ciba, daqueles primeiros com gabinete. Tínhamos também os kits que carregávamos para fazer sódio e potássio à beira do leito. Também fizemos um laboratório de anatomia patológica. O patologista era o Dr. Afonso Coelho, que se tornou professor titular com uma tese sobre Nefropatia. Fizemos o primeiro centro de cuidado intensivo. Eu tive duas pessoas importantes na comunidade que ajudaram muito na minha vida universitária: um governador de estado e um senador da república.
Istênio: Qual governador?
Prof. Adyr: Ah, não posso dizer. Mas era de muito trabalho.
Istênio: Era dos anos de chumbo?
Prof. Adyr: Não, ele era um bom político. O segundo foi um senador, portador de uma doença renal. Ficamos muito amigos, ele acabou sendo meu advogado. Era ele era um político de grande prestígio e habilidade.
Istênio: O senhor instrumentalizou essas conexões para que?
Prof. Adyr: Um dia, meu amigo senador me trouxe um livro que contava o caso do resfriado de um governador que se tornou uma pneumonia gravíssima, e através dessa pneumonia, o médico que o atendia tornou-se uma pessoa muito importante. No meu caso, a esposa do governador do Paraná foi operada fora de Curitiba, desenvolveu insuficiência renal aguda e veio a ser atendida em Curitiba. Tratei dela e não cobrei nada. Ela era de uma das famílias mais ricas do norte do Paraná e ele, governador. Ele custeou o Centro de Nefrologia da Universidade. O senador ajudou com todo o instrumental e nós fundamos o Centro de Pesquisas Nefrológicas. Até o Ministro da Educação veio para a inauguração.
Sessões |
OPINIÃO
ENTREVISTAS
ARTIGOS
PÔSTER
PRÁTICA
NAVEGANDO
LER
E LER
FÓRUM
TESES
GALERIA
NOTÍCIAS
DOWNLOAD
UM MINUTO
IMAGEM
ENSAIO
LEITURA
MEMORIA
CATÁLOGO
SUPLEMENTO
ESTATÍSTICA
Contatos |
ESCREVA
E-MAIL
PESQUISE
EDITOR
AVISO
Números
Anteriores |
Formato Antigo
Clique
Rápido |
Copyright © 2006 Medicina On line - Revista Virtual de Medicina