Aviso Importante
1997-2006

Adyr Mulinari

 

Um personagem especial numa entrevista descontraída, reveladora e autêntica. É isso que você confere, em nosso bate-papo, com o Professor Adyr Soares Mulinari, uma das mais conceituadas autoridades em Nefrologia. Med On Line gostaria de agradecer as presenças dos doutores Istênio Pascoal, Cibele Isac Saad, Rogério Mulinari e Augusto Lafitte que muito contribuiram para este bate papo.

O Editor

 

 

Cibele: Professor Adyr, como a Nefrologia surgiu na sua vida?

Prof. Adyr: A Nefrologia começou a entrar na minha cabeça uns seis anos antes de ir para os Estados Unidos em 1961. Iniciei a minha profissão em 1952 como assistente voluntário da disciplina de técnica operatória na então Faculdade de Medicina da Universidade do Paraná. O professor catedrático na época se entusiasmou muito comigo e eu também com ele. Atuei uns dois anos como docente de técnica operatória e, decorrente disso, fui me dedicando mais à cirurgia. Nesta época, tornei-me amigo de um professor do Departamento de Cirurgia da Faculdade, Dr. João Átila Rocha, professor de urologia e cirurgião muito competente.

Com esta aproximação comecei a me preocupar mais com o aparelho urinário. Fazia muita cirurgia, mas também comecei a estudar fisiologia e balanço hidro-eletrolítico. Naqueles primórdios, ninguém sabia muito sobre eletrólitos. Acabei me dedicando mais a clínica médica, trocando o centro cirúrgico pelo raciocínio clínico. Foi quando iniciei com o Dr. Lisandro Santos Lima, um clínico de grande expressão e notoriedade em Curitiba, além de professor de propedêutica. Depois de dois ou três anos na clínica médica, ele me disse: “Você gosta tanto de rim, eletrólitos e bioquímica que nós devíamos encaminhar você para fazer Nefrologia”.

 

Istênio: E o senhor aceitou a sugestão?

Prof. Adyr: Pouco depois, o Dr. Willem J. Kolff, inventor do rim artificial, esteve aqui em Curitiba. Conversamos longamente e ele disse: “Está ótimo, você vai para a Cleveland Clinic.” Procurando viabilizar a minha estada em Cleveland, fui atrás de uma bolsa da W. K. Kellogg Foundation.  Escrevi para o American College of Physicians e eles entraram em contato com Dr. Kolff. O American College aceitou a proposta e enviou dois representantes da W. K. Kellogg Foundation a Curitiba para me entrevistar em setembro de 1960. Me aconselharam a fazer o E.C.F.M.G., o tal “Board”.

Em abril de 1961 me concederam uma bolsa conjunta da W. K. Kellogg Foundation e do American College of Physicians para dois anos. No entanto, eu não iria mais para Cleveland, mas para Nova Iorque. Lá iniciei meu treinamento na Cornell University, trabalhando por seis meses no Bellevue Hospital e no New York Hospital, para uma adaptação em clínica médica. Acomodaram-me na International House na Riverside Drive em Nova Iorque. Deles recebi instrumental para exame clínico, aventais e bibliografia selecionada. Participava de reuniões clínicas e das “Grand Rounds” no New York Hospital duas vezes por semana e freqüentava as enfermarias do Bellevue em tempo integral nos demais dias da semana. Todos os “fellows” da  Kellogg Foundation tinham aulas de inglês para conversação três vezes por semana no Bellevue, precedidas de 15 dias de avaliação de conhecimentos no Laboratório de Lingüística da Cornell University. Lá conheci Lawrence Schrier, um clínico que estudava fisiologia renal e equilíbrio  hidro-eletrolítico.

Mais tarde, recebi uma nova visita do American College of Physicians para decidir o que deveria ser feito para o meu retorno ao Brasil. Ponderaram que, na época, a Universidade Federal do Paraná precisava mais de clínicos que de pesquisadores. Aconselharam-me a concentrar no treinamento em clínica médica e nefrologia com o Dr. Belding Scribner na University of Washington School of Medicine, em Seattle.

 

Sebastião: Professor, em que ano foi isso?

Prof. Adyr: Foi em 1961.

 

Sebastião: E sua ida para os Estados Unidos?

Prof. Adyr: Eu fui sozinho para Nova Iorque em maio de 1961. Um mês mais tarde, a Brasília e o Rogério chegaram.

 

Sebastião: E essa proposta de ganhar alguma coisa por lá. Dizem que o primeiro salário que recebeu, em dólar, te animou a voltar para o Brasil?

Prof. Adyr: Dr. Scribner já era genial na época. Lá fiquei aprendendo predominantemente Nefrologia Clínica por 1 ano e meio. Aprendi a realizar biópsia renal percutânea e a interpretar a histopatologia renal. Aprendi a fazer hemodiálise aguda e diálise peritoneal aguda e crônica. Na época surgiu o acesso de Scribner que viabilizou a hemodiálise crônica. Os primeiros três hemodialisados crônicos foram atendidos em Seattle. Havia também muita pesquisa sobre eletrólitos.

Dr. Scribner e eu ficamos muito amigos. Quando ele não queria atender algum cliente, dizia: “Este é o Adyr, que sabe mais do que eu!”. Fui me entusiasmando com aquilo e achando que já estava preparado. Um dia ele me perguntou quando eu pretendia ir para Curitiba. Eu disse: “Não, Dr. Scribner, vou ficar mais um pouquinho por aqui”.

Ele me assegurou e disse que já podia ir, pois eu tinha preparo cirúrgico e era completamente diferente dos outros “fellows”. Lembrou que eu é que preparava o acesso e que começava a diálise. O acesso vascular da época era por uma fístula artério-venosa externa, com uma cânula inserida na artéria radial e outra em uma veia do antebraço. Lembrou que inicialmente chamavam o cirurgião para preparar o acesso artério-venoso, mas que logo eu comecei economizar renda para o serviço, porque eles não mais chamavam ou pagavam o cirurgião.

Quase ao final do meu período em Seattle, Dr. Kolff me convidou para passar um tempo na Cleveand Clinic. Ele me pagou de acordo com uma proposta que ele me fez por escrito. Percebi que o Dr. Kolff era realmente um grande inventor. Ele já trabalhava com coração artificial nos bezerros que mantinha no centro-cirúrgico experimental. A curiosidade ficava por conta da divisão da carne dos bezerros sacrificados ao final dos experimentos entre os “fellows”. Tinha muito gosto de remédio (risos) e um monte de heparina.

Dr. Kolff nos convidou para um final de semana de despedida e para conhecer a sua casa no campo, mas recomendou que levássemos a nossa roupa e a nossa comida, pois eles não almoçavam. Emprestou-me um Jeep e me deu um mapa. Compramos aquelas cestas de piquenique e na frente da casa dele armamos um cobertor e abrimos aquela cesta. A Brasília já tinha preparado de antemão a comida com aquelas coisas que os brasileiros estavam acostumados e ficamos comendo ali. Dr. Kolff e a sua esposa ficaram observando, sentados na varanda da casa. A certa altura a Brasília os convidou para sentar conosco no jardim. Eles vieram sem muita cerimônia e comeram a maior parte da comida (risos).

O Dr. Kolff escreveu para o Dr. Scribner ao final de minha estada e disse: “Nós queremos ficar com o Adyr em Cleveland”. Voltei para Seattle e o Dr. Scribner me mostrou a carta, mas eu disse que preferia ficar em Seattle, pois o ambiente era outro. Além disto, brinquei que eu não tinha grande apreciação por carne de boi com remédio” . Aí fui ficando

Pouco tempo depois ele foi enfático: “Você vai daqui a 15 dias, porque na minha cadeira você não vai sentar. Está pensando que vai para minha sala?” (risos). Respondi que não e só pretendia ficar mais um tempo ao seu lado. Nesta altura, ele já era um homem muito famoso, viajava muito e tinha o Robert (Bob) Eggström como segundo homem. Bob era um excelente nefrologista e eu aprendi muito com ele.

Dr Scribner me disse: “Olha, você vai levar 2 rins artificiais, todo o equipamento de laboratório e, se for para fazer bioquímica, você vai levar um fotômetro”. Ninguém entendia muito a respeito de fotômetros, pois usávamos um kit que fazia todos eletrólitos importantes à beira do leito, incluindo sódio, potássio e outros. Ele ainda me deu alguns microscópios, pois tinhamos a hábito de ver o doente, realizar exame de urina na enfermaria e discutir com os estudantes. Isso foi uma experiência muito boa que eu trouxe para o Brasil.

 

Sebastião: O senhor estava desconfiado que ia receber esse convite para voltar assim ou não?

Prof. Adyr: É uma coisa muito difícil, porque quando eu aceitei ir para os Estados Unidos, o American College of Physicians me fez assinar um termo de compromisso que eu voltaria para o Brasil. No entanto, eu ainda consegui ficar mais um pouco lá. Ao deixar Seattle, fui para Saint Louis onde se desenvolvia o melhor da Fisiologia Renal na época.

 

Istênio: Quem era o nefrologista?

Prof. Adyr: O Saulo Khlar era professor titular, um colombiano e gênio. O Dr. Scribner nessa ocasião tinha muito prestigio. Eu lhe disse que gostaria de aprender um pouquinho de fisiologia renal e ele arranjou para que saísse direto da University of Washington em Seattle e fosse para a Washington University de Saint Louis, pois lá se fazia experimentos com separação do ureter e punção isolada. Eu fiquei lá mais 3 meses com o Saulo e aprendi a fazer uma porção de coisas, principalmente na área de eletrólitos.

 

Istênio: E como foi a recepção do senhor no ambiente universitário de Curitiba?

Prof. Adyr: Foi muito boa, porque eu cheguei em Curitiba em abril ou maio de 63. Logo que retornei ao Hospital das Clínicas havia uma paciente na enfermaria de ginecologia, com insuficiência renal aguda. Falei: “Ela tem insuficiência renal aguda e vai morrer” e contei aquela história toda. Fez radiografia, uréia e creatinina. Eu trouxe o tal kit e medi o sódio, o potássio, o pH, o bicarbonato e os cloretos. Decidimos que ela tinha que fazer diálise. Havia no depósito do Hospital de Clínicas um hemodializador tipo “Twin Coil” da Cleveland Clinic guardada há 3 ou 4 anos. Nunca tinha sido usada. No entanto, não tinha “coil”, linhas extracorpóreas, nem solução de diálise. Por outro lado também não tinha líquido para diálise peritoneal. Aí pegamos um frasco com soro glicosado e acrescentamos sódio, bicarbonato, potássio, mais glicose e improvisamos uma solução de diálise peritoneal ali na beira do leito. Eu havia trazido os cateteres peritoneais que o Dr. Scribner tinha dado e fizemos a primeira diálise peritoneal aguda. A doente recuperou a diurese 5 ou 6 dias depois.

Quando voltei a Curitiba, estavam o Augusto Molinari, meu irmão, e o Augusto Laffitte, meu primo, estudando medicina. Disse a eles que deviam fazer residência em Ribeirão Preto, o primeiro em pediatria e o segundo nefrologia, pois Ribeirão tinha um excelente nefrologista.

            Mais tarde, voltei outras duas vezes para Seattle, em 1966 e 1969, para aprender sobre transplantes. Fizemos o primeiro em Curitiba em 1973.

 

Sebastião: A diálise peritoneal foi a primeira no Paraná ou no Brasil?

Prof. Adyr: Bom, não sei dizer isso não. Acho que no Hospital das Clínicas da USP existia já um rim artificial, que era do Hamburger. Eu desconheço que tivessem realizado diálise peritoneal aguda em outro lugar no Brasil, mas é possível. Aí veio um aspecto curioso, foi o Santiag T. Böen, um indonésio que morava em Amsterdam, que nos ensinou a fazer diálise peritoneal crônica com um tubo de silástico quando ele esteve em Seattle a convite do Dr. Scribner, que o apelidou de Fred, pois era mais fácil de falar que Santiag em inglês! O tubo era implantado cirurgicamente no abdômen, tinha uma arruela embaixo e outra em cima, e um cateter era introduzido pela luz para iniciar a diálise. Quando se interrompia a diálise, uma tampa era adaptada, fechado o acesso. O primeiro paciente em diálise peritoneal crônica foi um doente que era sócio de um empresário poderoso e famoso até hoje. Este empresário disse que não queria que o sócio morresse. Avisou que dinheiro não era problema e que mandasse buscar todo o necessário.

 

Sebastião: Professor como é que vocês se comunicavam? Por exemplo, o senhor, o Oswaldo Ramos, o Emil Sabaga.

Prof. Adyr: No começo éramos adversários, mas eu me tornei muito amigo do Oswaldo e por quem tive sempre muita estima e respeito.

 

Sebastião: Ah, é?

Prof. Adyr: O Rio de Janeiro tinha o  Jaime Landman, ele era meu amigo, mas nunca foi muito de congresso, tinha também José Augusto Aguiar. A Bahia tinha o Heonir, um grande amigo. São Paulo era muito importante e tinha o Oswaldo e o Emil. O “Sul” tinha eu em Curitiba. É claro que éramos adversários, muito pela intensa competição. Foi o começo. Eu ia a São Paulo para falar sobre eletrólitos. Ia ao Incor, pois o Adib Jatene era muito meu amigo. Mandei vários de meus residentes para fazer cardiologia lá. Eu fui diversas vezes ao “Dante Pazzaneze” dar cursos. Nos fins de semana, eu dava cursos de equilíbrio hidro-eletrolitico Brasil afora. A gente estava começando, parecia que entender eletrólitos era para gênio, mas aquilo é uma coisa tão simples, depois que aprendemos, não é?

No dia que eu ganhei a eleição para presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia, sucedendo o Aluisio da Costa e Silva e com o José Augusto Aguiar como vice, o Oswaldo me encontrou na escadaria e me disse assim: “Sabe, Adyr, vamos fazer o seguinte: se nós continuarmos inimigos, vamos acabar nos incomodando. Vamos ficar amigos?” Saímos no abraço (risos). Esta era a sua cabeça. Eu e o Oswaldo ficamos muito amigos. Depois veio o Marcelo e me dava muito bem com ele, mas menos com o Emil. Meus amigos em São Paulo eram o Marcelo na USP e o Oswaldo na Escola Paulista, sem dúvida.

 

Istênio: Quem era o nefrologista em Ribeirão?

Prof. Adyr: Tive um bom relacionamento de trabalho e amizade com o professor Hélio Lourenço de Oliveira, uma pessoa brilhante. Ele foi chefe do Departamento de Clínica Médica na Faculdade de Medicina da USP-Ribeirão Preto e depois reitor na Unidade de São Paulo. Ele fazia trabalhos experimentais de rim e nós tivemos a oportunidade de conviver com ele nos anos 60 e 70. O Prof. Woiski do Departamento de Pediatria da USP-Ribeirão era  meu amigo e ele era um grande adversário de um professor de pediatria da UFPR. Na época, fomos a Ribeirão de automóvel propor ao Hélio que o Augusto Laffitte fizesse residência de clínica médica lá e explicar para ele o que eu pretendia, e ao Woiski que o Augusto Molinari fizesse residência em pediatria. Não tinha concurso, nem prova. Quando Augusto Laffitte voltou a Curitiba trouxe um outro aspecto para a Nefrologia e mais comunicação com a USP de Ribeirão.

 

 

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